bastidores
BARREIRO – TEMAS DA VIDA LOCAL
Capital Portuguesa da Cultura 2028-Entre a memória e o futuro: a Cultura Integral e o Barreiro
afirma Jéssica Pereira Vereadora PCP/CDU
A candidatura do Barreiro a Capital Portuguesa da Cultura 2028 leva-nos a refletir sobre aquilo que entendemos por cultura e sobre o papel que esta desempenha na construção da vida coletiva. O Barreiro é uma terra ligada ao ofício de marítimos, pescadores, moleiros e operários. Possui um património ferroviário, moageiro, corticeiro e industrial singular no contexto nacional e também europeu.
Foi moldado pela relação com o Tejo e é igualmente um território profundamente transformado pela ferrovia e pela industrialização.
Acolheu, e tornou seus filhos, milhares de trabalhadores oriundos de diferentes regiões do país e de outras geografias, contribuindo para a construção de uma identidade coletiva própria e para a afirmação de uma das mais importantes experiências operárias da história portuguesa.
Se a cultura é um conjunto de práticas sociais, modos de estar no mundo e de o interpretar, um sistema de valores, de referências e de significados que permite ao povo reconhecer-se a si próprio; deve então, por isso, entendida como um instrumento para compreender o passado, interpretar o presente e construir o futuro.
O Barreiro tem sido, neste sentido, um exemplo particularmente relevante. A sua história demonstra que a cultura foi um dos principais instrumentos de democratização. As coletividades, as bibliotecas, os concertos, as peças de teatro, as reuniões clandestinas, os clubes recreativos e desportivos e as múltiplas iniciativas do movimento associativo desempenharam um papel fundamental no acesso à cultura. Muito antes de a democratização cultural integrar o discurso das políticas públicas, já era praticada no Barreiro através do associativismo, da educação e participação populares.
No domínio das artes, há um histórico muito importante no Barreiro, longo e diversificado no contexto nacional e internacional. Esta valorização não pode ficar limitada à memória nem aos espetáculos, concertos e atuações. Exige o envolvimento de artistas locais, atores, músicos, bailarinos e criadores das artes performativas e de palco, companhias de teatro, associações culturais e demais agentes culturais na reflexão, produção e divulgação artística, em articulação com a população e as escolas. Valorizar o seu trabalho, criar condições para a criação e produção artística e garantir espaços de apresentação, participação e fruição cultural é fundamental para reforçar a identidade cultural do concelho.
Se, por um lado, existe um reconhecimento crescente da importância do património histórico e cultural, quando olhamos para o presente encontramos uma realidade contraditória. Por exemplo, o Complexo Ferroviário do Barreiro – Estação Barreiro-Mar , estação primitiva acoplada às oficinas, a rotunda das máquinas única no país, o bairro ferroviário e o palácio de Coimbra e o núcleo de material circulante – encontra-se há vários anos em processo de classificação de âmbito nacional. Contudo, esse processo continua por concluir, permanecendo num impasse administrativo e jurídico que se arrasta há demasiado tempo.
Referindo dois excertos importantes que reforçam esta necessidade:>
“Todo o complexo ferroviário edificado representa, actualmente, um importante conjunto arquitectónico com valor histórico e patrimonial e constitui uma parte muito significativa do rico património industrial existente no Barreiro. Outras constituem o seu legado cultural, como os valores do associativismo, da solidariedade e da luta pela liberdade, escopo tão impressivo que, desde há 150 anos, constitui um dos traços mais genuínos da identidade cultural barreirense” (Carmona, 2022, p. 183) .
O despacho favorável ao parecer do Conselho Nacional de Cultura conclui que este conjunto tem “excepcional significado e dimensão rara, a tal ponto que a sua importância ultrapassa o contexto local e regional, assumindo-se como lugar/sítio/paisagem únicos no território português” (Conselho Nacional de Cultura, 2017).
As observações são particularmente pertinentes porque nos recordam que o património não se limita ao edificado. O património ferroviário, industrial e moageiro do Barreiro é inseparável das experiências de trabalho, das formas de sociabilidade, das práticas culturais e das lutas sociais que lhe deram origem. Daí o seu valor extravasar o meramente arquitetónico ou histórico: é também social, cultural, faz parte daquilo que somos e daquilo que construímos coletivamente, não podendo ser reduzido a uma mera lógica mercantil
Aqui é pertinente não esquecer o património natural do concelho: de Coina à Barra-a-Barra. O corredor verde, com zonas que precisam de ser (re)naturalizadas, em conjugação com espaços como a Quinta do Braamcamp, constituem um bem coletivo que deve ser preservado e valorizado enquanto lugar de fruição democrática, lazer e encontro para todos. Num tempo em que a pressão especulativa sobre os territórios é crescente, defender estes espaços públicos é também defender uma cultura democrática e vivida no dia-a-dia.
Nas últimas décadas, não é isso que temos vivido. A cultura tem sido frequentemente reduzida a uma lógica de consumo, de entretenimento ou de valorização económica. A cultura transforma-se em produto, espetáculo e mercadoria – muito longe do que preconiza a nossa Constituição da República Portuguesa (Artigo 73.º e Artigo 78.º), muito mais longe do que seria desejável.
Ora, o caminho deve ser precisamente o contrário. O da afirmação de uma cultura emancipatória, democrática e acessível. Uma cultura que permita que os indivíduos compreendam melhor a sociedade em que vivem e participem na sua transformação.
É por isso que o problema central do nosso tempo não é saber se o Barreiro conquista um título, mas que projeto sociocultural pretende construir para o futuro.
O mais importante é garantir este futuro coletivo, assente na valorização concreta do património ferroviário, industrial, moageiro e corticeiro; na preservação da memória do trabalho; no reforço do movimento associativo; na democratização do acesso à cultura e na participação ativa das populações na construção do futuro do Barreiro.
Nesse sentido, as palavras de Bento de Jesus Caraça (1939/2021, p. 52) mantêm uma atualidade incontornável:
“Houve quem dissesse um dia que as gerações dos homens são como as das folhas, passam umas e vêm outras. Está na nossa mão desmentir o significado pessimista desta frase. Só figuram de folhas caídas, para uma geração, aquelas gerações anteriores cujo ideal de vida se concentrou egoisticamente em si e que não cuidaram de construir para o futuro pela resolução, em bases largas, dos problemas que lhes estavam postos, numa elevada compreensão do seu significado humano”.
Se a candidatura a Capital Portuguesa da Cultura 2028 servir para reforçar a consciência coletiva sobre o valor da memória, do presente e do futuro, então poderá representar um importante contributo para o Barreiro.
Jéssica Pereira
CDU – Coligação Democrática Unitária
12/06/2026
1. Única no país, singular na Europa, comparando apenas com a de Veneza.
2. Carmona, R. (2022). O Caminho de Ferro no Barreiro – História e Memória Social.
3. Caraça, B. de J. (2021). A cultura integral do indivíduo: Problema central do nosso tempo. Edições Avante! (Obra original publicada em 1939).
12.06.2026 - 23:55
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