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Joaquim Benite, Director do Festival de Almada
As dificuldades são um precioso estimulante para resistir e continuar

Joaquim Benite, Director do Festival de Almada<br>
As dificuldades são um precioso estimulante para resistir e continuar A 28.ª edição do Festival de Almada é marcada por um esforço na participação e na co--produção de espectáculos em estreia, através da colaboração com teatros e instituições que estabelecem tradicionalmente parcerias com o Festival, e com os colectivos criadores das produções a estrear.

"Ao fim de tantos anos de luta, enfrentando tantos obstáculos, armadilhas, incompreensões e boicotes, com o único intuito de levantar o que, talvez ingenuamente, considero ser uma obra útil, me sinto já um pouco desiludido e cansado. Mas todos os dias as dificuldades e as desnecessárias incompreensões constituem, paradoxalmente, um precioso estimulante para o fortalecimento dos constituintes orgânicos e psíquicos que me fazem resistir e continuar" - afirma Joaquim Benite.

1 – A homenagem a Ferruccio Soleri, o célebre intérprete de «Arlequim, servidor de dois amos», o espectáculo emblemático de Giorgio Strehler, constitui o ponto culminante do Festival de Almada de 2011. Soleri, um verdadeiro símbolo do teatro mundial, estreou o seu «Arlequim» em 1963, e desde esse ano não parou de representar esse símbolo maior e mais complexo da Commedia dell’Arte. O espectáculo foi apresentado em Portugal em 1967, no Teatro de S. Luiz, e em 1999 no Festival de Almada, no Palco Grande da Escola D. António da Costa.
Ao escolher esta personalidade mundial para figura homenageada deste ano, o Festival presta também homenagem à Commedia dell’Arte, uma das grandes tradições teatrais do Mediterrâneo, no ano em que a UNESCO se prepara para declarar esta corrente teatral Património Cultural e Imaterial da Humanidade.
Nos séculos XV e XVI a Commedia dell’Arte representou um movimento de actores contra as práticas cortesãs e o teatro conformista, ganhando, no processo da sua itinerância e da constituição de companhias muitas vezes familiares, uma autonomia e uma capacidade de intervenção social e crítica que inscreveram a arte teatral na marcha decisiva do Homem pela assunção dos Direitos Humanos e da democracia.
Juntamente com o teatro greco-latino, o teatro isabelino ou o Siglo de Oro, a Commedia dell’Arte é um constituinte da pujança civilizacional da cultura ocidental e do insubstituível contributo que essa cultura deu para o desenvolvimento global da humanidade. Associando-se a este ciclo de homenagem à Commedia dell’Arte, outra das maiores figuras do mundo intelectual contemporâneo, o dramaturgo Dario Fo, Prémio Nobel da Literatura em 1997, aceitou ser o criador do cartaz deste ano do Festival de Almada, o que constitui uma grande honra para o Festival, para a cidade de Almada, e para Portugal. No quadro desta colaboração, o Festival apresenta uma inesperada exposição da obra plástica de Dario Fo, que, além de dramaturgo, encenador e actor, é também pintor, desenhador e cenógrafo. O ciclo é ainda completado com uma exposição documental sobre Ferruccio Soleri, e uma exposição de máscaras e figurinos da Commedia dell’Arte. Ferruccio Soleri é a terceira personalidade estrangeira a ser homenageada pelo Festival de Almada: os seus antecessores foram a Professora, também italiana, Luciana Stegagno Picchio, uma especialista de cultura portuguesa, e o ensaísta espanhol José Monleón.

2 – A 28.ª edição do Festival de Almada é marcada por um esforço na participação e na co--produção de espectáculos em estreia, através da colaboração com teatros e instituições que estabelecem tradicionalmente parcerias com o Festival, e com os colectivos criadores das produções a estrear. Contrariando a prática seguida anteriormente, a Companhia de Teatro de Almada apresenta este ano quatro novas produções, dirigidas por quatro encenadores diferentes, juntando-se assim ao conjunto de novas criações que inclui duas estreias estrangeiras (uma americana e uma espanhola) e mais cinco portuguesas, na sua maior parte devidas a jovens artistas emergentes.
As constrições orçamentais que desenham os contornos do Festival de Almada 2011 (um corte de 150.000 € do Ministério da Cultura, a perda de sponsors privados, e a não compensação destas perdas pela contribuição autárquica) determinaram soluções que se baseiam fundamentalmente no capital de admiração e confiança que conseguimos junto de muitas companhias e parceiros, e no prestígio internacional do Festival, que, entre os poucos aumentos registados, inclui o do Ministério da Cultura de França (através do Institut Français), e o aumento substancial em relação à verba anterior da Região de Turismo de Lisboa e Vale do Tejo, que reconheceu o Festival de Almada como um dos três eventos de maior importância cultural e turística da Região. Várias embaixadas de países estrangeiros, tais como as da Alemanha, da Roménia, da Itália, e da Espanha, contribuíram também para o apoio à deslocação das companhias oriundas dos seus países.
Apesar das dificuldades económicas, e graças às colaborações e cumplicidades já apontadas, creio ter conseguido uma programação de alta qualidade, um Festival vivo, participado e particularmente atento aos factores de inquietação que agitam o Mundo contemporâneo, afectado pela instabilidade social, mas onde surgem os indícios de novas atitudes comportamentais derivadas do aumento da consciência sobre a necessidade de modelos alternativos de organização e de práticas sociais e económicas mais justas.
Neste sentido, enfrentando a crise, mas mergulhando corajosamente nela, o Festival tira partido dos aspectos mais negativos que ela apresenta para reforçar o seu tradicional perfil, apurar a sua reflexão teórica sobre o papel do teatro e a sua responsabilidade na História, no estímulo do pensamento e do estudo. Assim – e graças à crise – o Festival de Almada torna-se, provavelmente, mais forte e combativo. E prepara-se melhor para o futuro.

3 – Grandes figuras da criação teatral contemporânea vão estar presentes, como é de tradição, no Festival de Almada. É o caso do francês Joël Pommerat e do alemão René Pollesch, que pela primeira vez apresentam espectáculos seus em Portugal, e que se juntam, assim, à galeria de grandes criadores que se estrearam no nosso País através do Festival de Almada. Patrice Chéreau, Bernard Sobel, Josef Nadj, François Chattot, Fadel Jahïbi, Jaime Lorca ou Daniel Veronese são exemplos de grandes criadores teatrais, representando gerações diferentes, regiões geográficas diversas, e estéticas próprias.

4 – Este Festival não seria possível sem a magnífica participação da equipa de colaboradores do TMA, que, com uma competência inexcedível, e uma preparação intelectual e técnica de nível superior, suscita a admiração e a surpresa dos artistas e criadores estrangeiros que nos visitam. Sem a excepcional qualidade dos meus colaboradores de todas as áreas (coordenação, gestão financeira, equipa técnica, produção, edições, organização de público, secretaria, etc.) este grande acontecimento cultural não seria possível. A nossa pequena estrutura organizativa demonstra que o principal capital é a preparação das pessoas, o seu empenho, a sua determinação, e o seu amor ao trabalho que desenvolvem. O número de exposições que se levantam em poucos dias, a intensa campanha de promoção e propaganda, a qualidade do design, o rigor da organização do acolhimento, e da equipa de logística, torna possível que o TMA tenha mantido nos últimos dois meses 40 actores, ensaiando simultaneamente em diversas salas três peças, com três encenadores estrangeiros, e utilizando o Teatro em todas as suas valências, almoçando e jantando todos os dias no nosso Restaurante. E uma equipa de apenas quatro técnicos, liderados por um jovem director, foi responsável por estas três montagens de grande exigência técnica e estética.

5 – Tendo-se recusado sempre a apresentar-se como mais uma mostra de produções, o Festival mantém uma intensa actividade na organização de espaços de reflexão e de debate. Os dois Encontros da Casa da Cerca, o conjunto de Colóquios na Esplanada, com um grande número de criadores presentes, a apresentação de livros, a organização de workshops, etc., são formas de estimular a participação do público na reflexão conjunta e na interactividade cultural e artística. O crescimento regular do número de Assinantes (particularmente do seu núcleo jovem) e a atracção anual de novos segmentos de público constituem factores que nos permitem encarar o futuro com optimismo.
Não nego, como escrevi no texto do Programa, que ao fim de tantos anos de luta, enfrentando tantos obstáculos, armadilhas, incompreensões e boicotes, com o único intuito de levantar o que, talvez ingenuamente, considero ser uma obra útil, me sinto já um pouco desiludido e cansado. Mas todos os dias as dificuldades e as desnecessárias incompreensões constituem, paradoxalmente, um precioso estimulante para o fortalecimento dos constituintes orgânicos e psíquicos que me fazem resistir e continuar.

Joaquim Benite
Director do Festival de Almada

24.6.2011 - 11:01

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