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A taxa
Por Carlos Alberto Correia
Barreiro

A taxa<br>
Por Carlos Alberto Correia<br>
Barreiro No estivera eu to habituado aos contnuos ataques do governo contra a maioria dos cidados e haveria de ficar perplexo por to profunda preocupao pelos atores culturais quando, sabido, apenas no pegam numa arma quando ouvem falar de cultura porque tal j no cai nada bem.

Trs toques imperativos da campainha estilhaaram o mormao da tarde. Acordei sobressaltado da sesta para deparar com o rosto bisonho de um marmanjo de fartos bigodes e fato escuro. Um leno de papel retirava-lhe da testa as prolas de suor que a inclemente tarde lhe infligia. Pensando tratar-se de mais um anunciador de evangelhos preparava-me para fechar a porta quando, em gesto imperativo, quase me esfregou nas fuas o carto de funcionrio das finanas.
- Um momento, atirou-me.
- Que deseja, respondi-lhe sem esconder o incmodo e mau humor que me criara.
- Assine aqui com o nome igual ao que tem no Bilhete de Identidade.
- No assino coisa nenhuma sem saber antes porque o devo fazer.
- Tem razo, concedeu. Est intimado a pagar mil e quinhentos euros na seco de finanas nos prximos oito dias. Caso no o faa a dvida transitar para tribunal para cobrana coerciva.
Espantei-me. Cidado cumpridor tinha em dia impostos e taxas que o impiedoso governo teimava em mandar-me para cima no af louco de, empobrecendo-me, enriquecer quem j era rico em demasia.
- Espere l mil e quinhentos euros a que propsito?
- Taxa de presuno de gozo de frias nas Carabas.
- Frias nas Carabas? Nunca l fui e nem sei se penso ir alguma vez.
- Isso no importa. O que interessa que, se quiser ou puder, tem o caminho livre para tal deslocao. Repare que a Taxa no sobre a viagem efetiva, mas sobre o seu pressuposto.
- Essa coisa absurda Qualquer pessoa s obrigada a pagar por servios que utilize.
- Ser, ser. Mas eu sou apenas um funcionrio. Mandam-me fazer e eu cumpro. Estou-me francamente nas tintas se o cidado vai ou no ao Caribe. l com ele. O que no pode negar que ningum o impedir de ir. A taxa incide sobre a possibilidade. No exige deslocao. Como lhe disse sobre o pressuposto.

Fiquei embasbacado, de papel na mo, a ver o fulano virar-me costas e descer pelas escadas.

OK! Ok! Isto nunca aconteceu. apenas produto de viso retorcida, tripudiando sobre os atos de um governo detestvel. Foi apenas uma anedota para ilustrar a estupidez da taxa sobre leitores de msica, tabletes, telemveis e etc..

Na realidade, partindo do princpio que qualquer pessoa que compre um destes artefactos um meliante que vai abusar da cpia pirata, o governo sem mais aquelas, decidiu que todos iriam pagar putativos direitos de autor apenas porque pressupe que quem adquira tais instrumentos poder vir a usufruir de qualquer bem cultural revelia dos interesses dos produtores. No estivera eu to habituado aos contnuos ataques do governo contra a maioria dos cidados e haveria de ficar perplexo por to profunda preocupao pelos atores culturais quando, sabido, apenas no pegam numa arma quando ouvem falar de cultura porque tal j no cai nada bem.

Ento, vendo melhor as coisas, o episdio narrado na primeira parte desta crnica, no sendo verdico, pode bem vir a s-lo porquanto, no entender destas luminrias, ter a possibilidade significa quase o mesmo que executar o ato e, cautela, dever cobrar-se, mesmo que tal nunca venha a realizar-se. Lgicas ministeriais perdidas no sem senso a encher-me os dias de terror. Suponham, os bons exemplos tendem a propagar-se, decidir a justia que, presumivelmente, eu possa ser ladro ou assassino. Nesse dia estou feito, nada me salvar. Por amor a to maravilhosa lgica ainda dou comigo a cumprir pena de priso por crime que me seja possvel cometer ainda que isso nunca venha a acontecer. Por presuno!

Carlos Alberto Correia

22.8.2014 - 20:00

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