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Da tristeza em Passos Coelho
Por Carlos Alerto Correia
Barreiro

Da tristeza em Passos Coelho<br />
Por Carlos Alerto Correia<br />
BarreiroCom alegria enorme, confiança total nas capacidades próprias, subiu ao poder que pretendeu, que lutou para obter, sabendo bem o que se passava no País e aproveitando o sabê-lo como alimento da “sede ao pote”. Mal se sentou na cadeira do poder, quase de imediato, descobriu os alfinetes escondidos na almofada. Que sim, senhor! Ora essa! Tão pequena dor valeria bem os altos feitos a cometer e aceitou da troika todos os dislates.

Tudo parte de um princípio!

Por exemplo, para mim, o simples nascimento de um ser humano, neste mundo de homens/mulheres, deveria, só por si, ser o suficiente para que a sua vida, o seu bem-estar, estivessem, tanto quanto é humanamente possível fazê-lo, completamente assegurados. Isto porque cada ser é único e como tal insubstituível. Na realidade, dir-me-ão muitos, tal não passará de impossível utopia, dada a diversidade de recursos e ideologias imperantes no mundo. Terão a sua razão e, volto a dizê-lo, tudo parte de um princípio.

Para Passos Coelho, presumo, o ser humano valerá na medida daquilo que dele se possa haver. Isto é, vales o que tens, respeito-te na razão de quanto possas ser útil ao meu plano. Fora disso és perfeitamente descartável, inútil. Possuis apenas o valor que o sapiente mercado te conceder.

Ele terá como despiciendo o que para mim é fundamental.

Aquele conjunto de genes, desejos, dores, afeições, desesperos e por aí adiante que é o ser-se gente, pouco significará para o meu referido. Terá de acrescentar-lhe o peso social, a possibilidade visível, imediata, de modificar ou arregimentar coisas e pessoas à sua volta para adquirir peso específico, importância. Talvez só muito subliminarmente se recorde de que também ele está na tômbola, também ele poderá passar a irrelevante. Mas, pelo menos nos seus sonhos, tal perpassará e, aqui, teremos o primeiro momento da sua tristeza.

Por outro lado, chegou demasiado cedo aos cumes de um certo poder. Não estava, nem podia estar preparado. Pouco tinha feito na vida. A experiência era escassa. Talvez, à parte as facilidades do cartão e amigos do partido, se submetido a entrevista para cargo médio numa empresa bem organizada, para maior tristeza e desilusão, tivesse sido a sua candidatura preterida por alguém mais experiente, ou com maiores capacidades. Isto poder-lhe-ia ter dado outra visão sobre o querido modo de olhar o Estado, a Sociedade, como macro empresas, a serem geridas por estritos princípios técnicos, suscetíveis de serem colocados, de forma simples, em relatórios sucintos com regras de execução imediata e posterior avaliação contabilística.
Poderá, eventualmente, tal ideia perpassar-lhe no pensamento, criando, na dúvida, meteórica a penugem de tristeza.

Com alegria enorme, confiança total nas capacidades próprias, subiu ao poder que pretendeu, que lutou para obter, sabendo bem o que se passava no País e aproveitando o sabê-lo como alimento da “sede ao pote”. Mal se sentou na cadeira do poder, quase de imediato, descobriu os alfinetes escondidos na almofada. Que sim, senhor! Ora essa! Tão pequena dor valeria bem os altos feitos a cometer e aceitou da troika todos os dislates. Contra a maioria do seu Povo foi conivente e majorador das iniquidades propostas. De moto próprio ultrapasso-as. Isso com maior tristeza nossa que dele. Alegria breve lhe assistiu. Sem perceber bem porquê, tudo começa a resistir-lhe. Os sindicatos? Sim! Esperava por tal. Os partidos de esquerda? A oposição que fizessem seria bênção! Mas, os seus correligionários mais experimentados principiando a, surdamente, criticá-lo; abandonando-o posteriormente e logo a seguir juntarem-se ás vozes da desesperante oposição? Isso, confundia-o e, secretamente, permeava-o de sombria tristeza. Até o Constitucional lhe dava desgostos, a ele, que assentado no poder, não concebia vontades além da sua (ou que Bruxelas ou outro centro difusor autorizado ordenasse)! A disforia passava a raiva e mordia qualquer mão que se lhe estendesse em moldes de moderação. Foi juntado à tristeza, solidão. Trocou camaradas por seguidores, membros respeitados por apaniguados. Não o sabia, mas estava a construir a senda da mais profunda tristeza.

Venceu as eleições, não conseguiu formar governo. Estupefacto viu a maldita esquerda tomar-lhe o lugar. Rugiu ao ver desfazer-se, passo a passo, a teia de miséria lançada sobre o povo irrelevante. Não encontrou na banca estimável a retribuição do afeto e benesses concedidos. Tristeza relevante lhe toldou a alma. Falou, oráculo vazio, em quantos desastres esperava tal governação. Abriu-se-lhe a boca, em descrédito, ao reparar que quem lhe encomendara as tristes ações praticadas contra o seu povo, dava agora encómios aos inversos do que fizera; via as mais negras profecias transmudarem-se no contrário. Sentiu-se traído e mais tristeza se lhe colou na alma. Esperava a qualquer momento um descalabro a justificar-lhe as anteriores decisões, as atuais previsões. Tudo lhe saiu mal. O País prosperava sem si e contra as medidas que tomara. Uma qualquer injustiça, alguns escondidos inimigos, teceriam intrigas, moviam interesses, para o fazer cair em desgraça. O sentimento viscoso de inauditas traições plantara-se no âmago da tristeza, a envolvê-lo. O Sol haveria de brilhar. Seria redimido, reconduzido à capacidade de ação, aos cortes salvadores e preferidos. Teria ainda o seu dia.

Então caiu-lhe na tristeza a Presidência da República. Quem ele queria não havia. Havia quem ele nunca quisera e ousara, imprudente, dizê-lo. Deve ter passados horas bem amargas, plenas de raivosa tristeza em desolação de desertos interiores, nunca poupado pelos Fados, que continuavam a ser faustos para o inimigo, o qual lhe roubara o que só a ele, por direito, pertencia. Claro, na sua inexperiência nunca prestara grande atenção aquela coisa esquisita chamada Constituição e ela, vindicativa, pregara-lhe várias partidas. Alguns próximos bem o tinham avisado: Cuidado com a Constituição! Não é menina com quem se brinque! Como poderia ligar-lhes? Ele era o poder! Ele sabia! Tínhamos um país de velhos! Era preciso reverter isto com ferocidade. Ataquem-se os velhos! Passagem para os novos (desde que fossem para as privadas). Esses amigos torceram o nariz! Pois que o mantenham assim! E foram afastados! Alguns com tristeza, outros lamentando, antecipadamente, o futuro do chefe.

Agora, autárquicas à porta, vai de comício em comício, jantar em jantar, desdizendo tudo quanto se pode inteligentemente ver ou perceber sobre os efeitos da nova governação. Nuns locais diz o contrário sobre o mesmo assunto, noutros, talvez esquecido do anteriormente propalado, reivindicando para si o resultado de medidas opostas às suas. Assim o vemos e entendemos” numa apagada e vil tristeza “onde, nem ele já se deve reconhecer e muito menos aos desmandos que permitiu e praticou. É uma tristeza!

Vê-lo, bufão de si mesmo - apesar de reconhecer ter o castigo que merece - perceber-lhe o terror de maus resultados eleitorais a ameaçarem-lhe o emprego – tal como o fez a milhares de concidadãos – não deixa de influenciar o meu estado de alma a seu respeito. Porque, a seu contrário, lhe reconheço, como ser humano, o direito a esperanças e aflições, ponho-me no seu lugar, sinto a tristeza que emana e, muito sinceramente - por ele no momento, pelo ele a vir - aperta-se-me o coração e, com a tristeza dele me enfeito.

Carlos Alberto Correia

25.09.2017 - 17:41
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