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Polvo Unido
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Polvo Unido<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro Nesta guerra de interesses, os grandes princípios parecem ficar de fora. As mesmas multidões que se manifestam na defesa intransigente da solidariedade mais fraterna vêm, dias passados, defender da forma mais contundente os seus próprios interesses, em detrimento daqueles que na véspera valorizavam.

Não se trata de uma gralha, nem de uma receita de cozinha (muito menos de nouvelle cuisine), mas de um conceito que convém esclarecer.

Em 2015, o Governo de Espanha assinou um contrato com a Arábia Saudita para a venda de 400 bombas de avião de precisão, guiadas a laser, no valor de 9,2 milhões de euros. Tudo legal: o país comprador era um estado soberano, que não estava sujeito a qualquer embargo para a aquisição de armamento (e quem ousaria perder um dos melhores clientes?).

Entretanto, no desenrolar da intervenção (nada de guerra!) da Arábia Saudita e seus aliados no Iémen, algo correu mal: na sequência de um ataque aéreo, aparentemente por engano, foi atingido um autocarro escolar, com a morte e esfacelamento dos seus jovens e inocentes ocupantes.
Primeira conclusão: as armas podem ser de precisão, mas carecem de boa informação, para evitar “danos colaterais” (um eufemismo).
Segunda conclusão: o computador é o instrumento mais estúpido do mundo: sé faz o que lhe ensinam.

Primeira reação: o novo Governo espanhol, pressionado pela opinião pública, anunciou o cancelamento da venda das 400 bombas.

Segunda reação: a Arábia Saudita ameaçou cancelar o contrato de fornecimento de cinco corvetas, feitas aos estaleiros NAVANTIA, no valor de 1,8 mil milhões de euros, se a Espanha não cumprisse o contrato de fornecimento das bombas.

Terceira reação: milhares de trabalhadores da NAVANTIA manifestaram-se para exigir a garantia dos seus empregos, ameaçados por uma eventual quebra de contrato do fabrico das corvetas.

Quarta reação: o Governo espanhol anunciou que “não via razões” para não cumprir o contrato de fornecimento das bombas, pelo que iria “honrar os seus compromissos”.
A propósito de honra: no rescaldo da batalha de Pavia, em 1525, Francisco I, o derrotado rei de França, escreveu numa carta uma frase que ficou para a História: tout est perdu, fors l´honneur (perdeu-se tudo, menos a honra).

Nesta guerra de interesses, os grandes princípios parecem ficar de fora. As mesmas multidões que se manifestam na defesa intransigente da solidariedade mais fraterna vêm, dias passados, defender da forma mais contundente os seus próprios interesses, em detrimento daqueles que na véspera valorizavam.
Em sentido inverso, esses interesses passam a ser partilhados com quem, noutra contingência, seria o adversário – para não dizer o inimigo.

Estabelece-se assim um entrelaçar de boas e más vontades que faz lembrar os fundamentos da utopia do corporativismo: todos juntos, como os vários braços de um só corpo.
Dito de outra forma, como um polvo unido.

Nuno Santa Clara

26.09.2018 - 18:11

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