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Tréguas
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Tréguas<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
BarreiroSó se pedem tréguas quando há algo a ganhar. No mínimo, ganhar tempo, tomar fôlego, reparar os danos, reestruturar forças, rever estratégias, para depois reiniciar o conflito. Anunciar uma trégua como uma vitória é um absurdo.

Por esta palavra é conhecida a suspensão temporária das hostilidades entre inimigos em guerra, por acordo entre eles. Não se trata do fim da dita guerra, nem de um armistício ou de um tratado de paz: é apenas um intervalo, uma pausa, antes de voltar ao confronto formal, breve intermezzo separando dois atos no drama da carnificina.

Na Idade Média, o conceito de Tréguas de Deus visava limitar os conflitos e proteger os indefesos, além de estabelecer regras de conduta e reservar certas épocas do ano, por motivos religiosos ou para salvaguardar as colheitas, de modo a mantar os confrontos dentro de certos parâmetros, dentro de um mínimo de espírito cristão.
Também houve suspensões espontâneas em alguns conflitos. A talvez mais célebre foi a Trégua de Natal de 1914, em que soldados ingleses e alemães suspenderam as hostilidades, entoaram cânticos a até trocaram presentes, ao arrepio dos comandos surpreendidos e indignados.

Entre a Guerra dos Trinta Anos e as Guerras Napoleónicas, os conflitos pautava-se por regras de conduta na melhor tradição do cavalheirismo. Exemplo típico foi a batalha de Fontenoy, em 1745, durante a Guerra de Sucessão da Áustria, em se diz que o conde d´Anterroches, perante a formação de combate inglesa, teria dito “messieurs les anglais, tirez les premiers”; a história real não foi bem assim, mas o que conta é o espírito. Era “la guerre en denteles”, a “guerra de rendas”, segundo outro dito francês.

O conceito de Guerra Total começou a ser enunciado por Clausewitz, bem com a definição da Guerra como a “ascensão aos extremos”, ou seja, a substituição do diálogo pela violência, levada às últimas consequências; deste modo, o humanitarismo na Guerra seria um absurdo.

Mas o próprio Clausewitz admitiu medidas de contenção da violência, desde que daí se tirasse proveito. A troca de prisioneiros, a recolha de mortos e feridos ou a limitação das destruições justificam-se pelo efeito pretendido, especialmente o efeito psicológico sobre as chefias, as forças e as populações de ambos os lados, face ao efeito pretendido, e sempre dentro do princípio da reciprocidade
Em resumo, as tréguas não teriam um intuito humanitário, mas seriam apenas mais uma manobra dentro do desígnio final de subjugar o adversário à nossa vontade.

Pois bem, estamos em guerra; não em conflito armado, mas em guerra económica, proclamada por Donald Trump, com pompa e circunstância, a que só faltaram os pregoeiros acompanhados por charamelas e timbales. E mais disse o Presidente: as guerras económicas são fáceis de ganhar.
Aqui houve um franzir de sobrolhos: guerra fácil de ganhar? Parecia uma daquelas fanfarronadas de treinador ou dirigente desportivo, em véspera de derrota.

As relações de Donald Trump com a guerra não são boas: evitou ir parar ao Vietname por adiamentos sucessivos da incorporação. Ao contrário do Presidente George H. W Bush, do Senador John Mac Cain ou do ex-Secretário de Estado e Senador John F. Kerry, com notáveis folhas de serviço – o que não impediu de serem enxovalhados pelo atual Presidente, que se diz apoiante dos Antigos Combatentes, sem se aperceber de que os tinha insultado a todos…

Ora, no decurso da guerra anunciada, e à margem do G-20, foi anunciada uma trégua de 90 dias entre a China e os EUA. Para recolher mortos e feridos, ou trocar prisioneiros? Não parece.
Só se pedem tréguas quando há algo a ganhar. No mínimo, ganhar tempo, tomar fôlego, reparar os danos, reestruturar forças, rever estratégias, para depois reiniciar o conflito. Anunciar uma trégua como uma vitória é um absurdo.

O incomparável Winston Churchill disse um dia que nunca se mente tanto como antes das eleições, durante a guerra, ou depois da caça.
Estando em guerra, a mentira seria portanto, se não legítima, pelo menos consensual, justificada pelo imperativo do objetivo final. Portanto, tudo quanto se diz deve ser escrutinado.

De modo que destas tréguas anunciadas se podem tirar desde já várias conclusões:
• Que as guerras económicas (tal como as outras) não são fáceis de ganhar;
• Que a guerra não acabou, a menos que as tréguas se transformem num armistício, e este num tratado de paz;
• Que, neste último caso, só então se verá quem ganhou.

Nuno Santa Clara

05.12.2018 - 17:13

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