Conta Loios

colunistas

O Muro de Pittsburgh
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

O Muro de Pittsburgh<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
BarreiroO Muro do México não lhe serve, porque seria apenas um paliativo e um entrave à dinâmica de toda a Pensilvânia.
Fica apenas o sentimento de que o Muro não seria do México, mas de Pittsburgh; porém, os cidadãos da Pensilvãnia decerto preferem o bronze do sino de Filadélfia ao aço do Muro do México.

Os noticiários vindos os Estados Unidos estão repletos do shutdown, palavra desconhecida para muitos, misteriosa para outros tantos, revelação para alguns e até talvez cabalística para outros.
De fato, o shutdown é apenas uma situação criada quando há um desacordo entre o Presidente dos Estados Unidos e o Congresso. Criado o impasse, não são transferidas verbas e egue-se a paralisação parcial do governo, dos serviços e mesmo do vencimento dos funcionários, até que surja um acordo.

Pode-nos parecer bizarro este procedimento, mas é já o 19.º na história dos EUA, tendo o último ocorrido em 2013, na Administração Obama, por obra dos Senadores Republicanos (críticos do presente shutdown).
O atual tem por motivo (pretexto?) o Muro do México, hoje mais falado que o de Berlim ou que a Muralha da China. No fundo, o Congresso opõe-se a esta obra que considera faraónica, e que Donald Trump elegeu como marco milenar da sua Era, resolução de todos os problemas de imigração e consolo dos populistas desamparados.

A obra seria constituida por uma barreira de barras de aço, numa espécie de gradeamento contínuo que iria do Oceano Pacífico ao Mar das Caraíbas (mais de 3 mil quilómetros). Seria perfeita e como tal impermeável a todas as tentativas de transposição ilegal da fronteira.
Desde sempre o Homem tem tentado deter as invasões ou migrações, recorrendo a obstáculos. Além dos já referidos, podemos lembrar a Muralha de Adriano, a Cortina de Ferro, o Muro da Cisjordânia, o Paralelo 38, e várias linhas de separação. Mas todas elas tinham algo em comum: eram sempre permeáveis, e obrigavam (obrigam) a uma guarnição permanente, para evitar transposições, pela lógica do guarda e do prisioneiro.

Como qualquer muro de quinta, que não dispensa cães de guarda ou sistemas de alarme mais ou menos sofisticados; no fundo, como diz a sabedoria popular, o medo é que guarda a vinha.
Ou seja, uma eventual poupança seria apenas aparente, e a fronteira de Israel com a Palestina é um bom exemplo do custo real das barreiras.
Sendo assim, em que melhoraria a barreira de aço em relação ao atual sistema? Mais eficácia, decerto, mas não total, também decerto.

Ora, numa Administração em que o deficit já está a atingir recordes, este investimento não reprodutivo levanta naturalmente dúvidas aos Congressistas.
Além disso, a uma geração de políticos que foi criada no asco ao Muro de Berlim (além de outros), é difícil vender um Muro no próprio território.
Mas outra face do problema pode estar no extremo oposto dos EUA.
Por Rust Belt é conhecida uma vasta área do Leste do território americano, abrangendo vários Estados, como a Pensilvânia, Ohio, Michigan e Illinois. Era uma zona dedicada à indústria pesada, incluindo a extração de carvão, a siderurgia e o fabrico de automóveis. Com a recuperação da Europa e do Japão no pós-guerra, a emergência de novas potências industriais e a globalização, o Rust Belt teve dificuldades em adaptar-se e entrou em declínio.

Casos extremos, Detroit perdeu 29% da população e Gary 26%. Pittsburgh, cidade emblemática, perdeu mais de 9%, mas soube reagir e entrar pelas novas tecnologias. Refere-se Pittsburgh porque a Pensilvânia foi palco de uma nítida vitória eleitoral de Trump em 2016 (superior a 20%), em território democrata, mas os democratas voltaram a ganhar para o Congresso em 2018.
As promessas de Trump durante as presidenciais, baseadas no populismo das barreiras alfandegárias e na revitalização de uma indústria condenada através de apoios do governo cedo foram desmentidas pela dura realidade.
Sendo assim, porque não recomeçar recorrendo a algo que escapasse às regras da concorrência?

A barreira de aço parecia ser uma boa aposta. O aço das barreiras nem precisava de ter qualidade; face ao fim em vista, até aquele aço dos tristemente célebres pequenos altos fornos de Mao, nos anos sessenta, serviria. Mas assim se revitalizaria o Rust Belt, pelo menos durante o tempo de construção da barreira.
Depois... seria depois da eleições.

Só que Pittsburg é agora uma das maiores produtoras nas areas da robótica e da biotecnologia, e não tem saudades da poluição da siderurgia. E sabe que o tempo não volta para trás (ali não há tradição fadista).
O Muro do México não lhe serve, porque seria apenas um paliativo e um entrave à dinâmica de toda a Pensilvânia.
Fica apenas o sentimento de que o Muro não seria do México, mas de Pittsburgh; porém, os cidadãos da Pensilvãnia decerto preferem o bronze do sino de Filadélfia ao aço do Muro do México.

Nuno Santa Clara

02.01.2019 - 12:48

Imprimir   imprimir

PUB.

PUB.





Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design. Fotografia e Textos: Jornal Rostos.
Copyright © 2002-2019 Todos os direitos reservados.