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Objetivo
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Objetivo<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
BarreiroO primeiro dos princípios da guerra é o do objetivo. Toda a operação militar deve visar a consecução de um objetivo claramente definido, importante e exequível.
Assim, nestas guerras do quotidiano, um bom estratega, político, dirigente desportivo ou sindical, deve ter em atenção este princípio.

Não por acaso, os princípios da Estratégia e da Tática são comummente utilizados na resolução de problemas e na tomada de decisão em áreas que pouco ou nada têm a ver com a ciência militar. Até no desporto são frequentes as alusões à estratégia dos dirigentes, ou à tática dos treinadores.

Para mal dos nossos pecados, no sentido corrente, a política é uma luta pelo poder. Relegada da sua função da busca das soluções ideais para o progresso da Humanidade, a política tornou-se assim uma guerra, e não um debate de ideias. A la guerre comme à la guerre, dizem os franceses, quando querem justificar certos comportamentos pouco edificantes. E, citando Clausewitz, sendo a guerra a ascensão aos extremos, qualquer humanitarismo seria absurdo; só o medo da retaliação contém a violência.

O primeiro dos princípios da guerra é o do objetivo. Toda a operação militar deve visar a consecução de um objetivo claramente definido, importante e exequível.
Assim, nestas guerras do quotidiano, um bom estratega, político, dirigente desportivo ou sindical, deve ter em atenção este princípio.

Hoc opus, hic labor est, como escreveu o poeta romano Virgílio, no século I A. C., verso tornado proverbial. Por mim, prefiro o portuguesíssimo “Aqui é que a porca torce o rabo”, e o sentido é o mesmo.
Nas lutas políticas e sindicais a definição do objetivo é fundamental: as reivindicações devem ser precisas e coerentes. Não sendo, enredam-se na teia das negociações e o resultado pode ser muito diferente do objetivo.

Também devem ser importantes, sob pena de ver o movimento desfazer-se, por falta de coesão.
Igualmente devem ser exequíveis, para não se cair num impasse. Esta é a questão mais difícil, porque os pontos de vista são naturalmente opostos, e o conceito de exequível é sempre fluido.

Tomando um exemplo tirado da proliferação de movimentos grevistas dos últimos tempos, a contagem do tempo de serviço dos professores, contabilizado em anos, meses e dias, pode ser considerado um exemplo de objetivo definido.
Assim como a progressão nas carreiras pode ser considerada um exemplo de objetivo importante.
Mas serão estas e outras reivindicações exequíveis?
Não tendo sido ainda inventado o exequímetro, estamos no terreno da oposição de vontades.
Mas não bastam as vontades: há toda a máquina de mobilização, de procura de solidariedades e uma não menos importante busca de apoio logístico. E, como na guerra, por via de regra, quem tiver maior apoio logístico é quem ganha.

Uma luta contra o Estado, dotado de recursos quase infinitos, pareceria votada ao fracasso. Noutras eras, as greves eram sistematicamente vencidas pela fome, ou seja, pela logística. Mas uma greve cujos aderentes estejam acima do limiar da sobrevivência, ou que disponham de recursos vindos de outras origens, pode prolongar-se por muito tempo, até que o esgotamento de um dos lados produza os seus efeitos. Como numa guerra de guerrilha.

Nesse caso, os objetivos podem até ir variando, ao sabor das negociações e das circunstâncias. E pode acontecer serem clarificados objetivos que não estavam aparentes de início. Por exemplo, os “coletes amarelos” começaram com reivindicações variadas – até acabar na demissão do Presidente da República. Um caso de clarificação.
Por aqui, continuam as greves em crescendo, com algumas das características acima descritas. Questões institucionais, competências, financiamento externo, tudo tem vindo a lume, diluindo as origens dos conflitos.

Estranho é este súbito despertar de coisas adormecidas, como se o país tivesse estado imerso em letargia. Dado que nada sucede por acaso, a aproximação das eleições não deve ser estranha ao fenómeno.
Já houve um sindicato que anunciou que a greve iria “até às eleições”. Será um caso de clarificação?

Nuno Santa Clara


09.02.2019 - 16:26

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