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Leipzig
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Leipzig<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
BarreiroNapoleão foi um especialista no que se chama a “manobra por linhas interiores”. Significa isto que um exército cercado por vários inimigos, no seu conjunto superiores em número, reage atacando um de cada vez, obtendo a superioridade local e batendo-os por partes.

A cidade de Leipzig, fundada no século XII, e cedo começou a destacar-se no aspeto cultural, sobretudo depois da fundação da sua Universidade. No final do século XV começou a desenvolver a indústria ligada à pintura e à imprensa.

Foi também palco do histórico debate religioso protagonizado por Martinho Lutero, no início da reforma protestante.
No século XVIII, Leipzig foi um centro cultural ligado ao movimento de literatura classicista, com nomes como Schiller e Goethe, que estudou na Universidade de Leipzig em 1765. No tocante a música, no século seguinte foi fundado um Conservatório de Música por Felix Mendelssohn, e também ali nasceu Richard Wagner.

Mas não é o aspeto cultural que vamos agora evocar. A batalha de Leipzig, ou Batalha das Nações, como ficou conhecida, decorreu durante três dias (16 a 19 de Outubro de 1813) e marcou o início do fim da era de Napoleão e a dissolução do seu Império, ocorrida no ano seguinte.

A 6.ª Coligação congregou a Rússia, a Áustria, a Prússia e a Suécia contra a França de Napoleão e os seus (cada vez menos) aliados. Depois do desastre da Rússia em 1812, os ventos da mudança sopravam contra o Imperador dos Franceses. Ainda assim, conseguiu reunir um impressionante exército. O final da batalha saldou-se por mais de cem mil mortos, e resultou na retirada de Napoleão até França, terminando na abdicação, no ano seguinte.
Napoleão foi um especialista no que se chama a “manobra por linhas interiores”. Significa isto que um exército cercado por vários inimigos, no seu conjunto superiores em número, reage atacando um de cada vez, obtendo a superioridade local e batendo-os por partes.

Claro que é mais fácil dizer do que fazer. Mas Napoleão fê-lo repetidas vezes, tirando partido de um bom conhecimento do terreno e do adversário, e sobretudo da falta de coordenação dos seus inimigos.
Daí que o Marechal francês Joffre, nomeado Comandante-Chefe das Forças Aliadas durante a I Guerra Mundial, tivesse tido um desabafo tornado célebre: “desde que comando uma Coligação, admiro menos Napoleão”.

Qualquer chefe político e/ou militar, quando decide entrar em guerra, procura aliados ou no mínimo neutros que lhe permitam executar as planeadas manobras. Colecionar inimigos só pode levar ao fracasso. As Guerras Napoleónicas (entre nós Invasões Francesas) são um bom exemplo disso. Iniciadas sob a bandeira da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, cedo se revelaram como guerras de conquista, pura e dura, com o seu cortejo de indemnizações, confiscos, contribuições, pilhagens e violações, desencadeando uma resistência popular que mudou as Leis da Guerra para sempre. Mesmo os elitistas prussianos recorreram a tropas irregulares para combater o invasor.

Vem isto a propósito de outra guerra, a desencadeada pala atual administração americana. Se, como se anunciou, a América estava cercada de adversários, seria lógico conciliar uns tantos aliados, conseguir outros tantos neutros, intimidar alguns recalcitrantes e abater os mais diretos adversários. Ou seja, batê-los por partes.
Mas não é isso que se vê. Além de negociar com os adversários diretos (com escândalo de alguns distraídos), desconsidera aliados, insulta neutros, humilha clientes e coleciona rancores.

Claro que, quando se tem supremacia global, tudo pode ser feito. Podem mesmo ser ultrapassados todos os limites, uma vez que a guerra está ganha de avanço e ninguém pede contas aos vencedores. Foi o que pensou Adolf Hitler e os seus seguidores, e depois foi o que se viu…
Mas se assim é, algo está mal no slogan “Make America Great Again”, porque a dita América parece já ser grande –
suficientemente grande para dispensar aliados, neutros e clientes.

Porque, se houve um erro de cálculo, vamos a caminho de outra “Batalha das Nações”, com a formação de uma coligação capaz de se opor aos desígnios do Imperador do Mundo, pelos sofisticados meios agora ao seu dispor, que não as espingardas e canhões de carregar pela boca de 1813.
Provavelmente não haverá 100.000 mortos em combate (o objetivo de John Bolton?), mas talvez mais que isso devido a desnutrição, doença e miséria.

Ao contrário do que se afirma, a História não se repete; em cada volta sobe um patamar, como a rosca de um parafuso.
Se assim não fosse, para que serviriam as lições da História?

Nuno Santa Clara



10.05.2019 - 13:21

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