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Mãos sujas
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Mãos sujas<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
BarreiroIsto leva a que alguns dirigentes e agentes se possam sentir desamparados, já que a “correia de transmissão” que havia entre as bases e as chefias se desvaneceu. E, como o Hugo de Sartre, podem ter de enfrentar uma reviravolta de difícil digestão.

Uma das obras emblemáticas de Jean-Paul Sartre é a peça “As mãos sujas”, publicada em 1948, e que ainda hoje causa engulhos a muita gente. Hugo, o herói da peça, recebe ordem para matar um dissidente do seu partido; após muitas hesitações, sempre executa a diretiva, é condenado (o ato parece mascarado de crime passional) e cumpre uma pena de prisão. Uma vez libertado, volta ao seu antigo círculo, para descobrir que o dissidente por ele assassinado tinha sido entretanto reabilitado, por razões só sabidas por alguns. Instado a rever a sua conduta e assim reintegrar-se no partido, recusa e é ameaçado de ser, por sua vez, executado. O preço da recuperação seria a negação da sua ação.
A última cena da peça resume a intensidade do drama: surdo a rogos e ameaças, Hugo transpõe a porta e segue pelo caminho que o levará à morte, proferindo uma frase lapidar: “não recuperável!”.

Esta semana foi fértil em reviravoltas, no dito por não dito, em afirmações e negações. Nada de grave, se atendermos aos Evangelhos: S. Pedro negou Cristo, por três vezes, e nem por isso deixou de ser o primeiro chefe da Igreja. Haja esperança, pois!

Segundo Vladimir Ilyich Ulyanov, mais conhecido por Lenine, os sindicatos devem ser a correia de transmissão do Partido. Quase um século depois, muitas coisas mudaram, mas a interação entre os partidos e o movimento sindical veio para ficar. Com toda a lógica, já que a forma de redistribuição da riqueza varia com a filosofia de cada partido, e que melhor quer uma organização sindical para fazer passar uma mensagem?

A constatação desta interação está na origem do surgimento de novos sindicatos que se arrogam de independentes – o suficiente para causar dores de cabeça nas forças políticas e sindicais do modelo clássico.
Isto leva a que alguns dirigentes e agentes se possam sentir desamparados, já que a “correia de transmissão” que havia entre as bases e as chefias se desvaneceu. E, como o Hugo de Sartre, podem ter de enfrentar uma reviravolta de difícil digestão.

E a pergunta que se põe é: serão eles recuperáveis?

Nuno Santa Clara

16.05.2019 - 13:27

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