Conta Loios

colunistas

Guerra privada
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Guerra privada<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro A questão está em saber se a guerra – que, no dizer de Georges Clemenceau, é um assunto sério que não deve ser entregue aos militares – pode ser deixada ao critério de uma minoria capaz de criar uma situação irreversível.
Será que, com as capacidades de manipulação da opinião pública dos meios atuais, estamos numa situação de possibilidade de regresso às guerras por iniciativa privada?

Desde o fim da Idade Média o monopólio da violência organizada passou para o Estado Moderno. Usaram e abusaram disso os soberanos absolutos, dirimindo questões dinásticas e o alargamento das suas fronteiras através da guerra. O melhor exemplo dessa doutrina é a inscrição que Luís XIV de França mandou gravar nos seus canhões: ultima ratio regum (o último argumento dos reis).

A guerra passou a ser uma coisa de cavalheiros, com regras e princípios éticos, (nem sempre seguidos, claro!), até chegar ao píncaro com a teorização de Clausewitz, segundo o qual a guerra era a continuação da Diplomacia por outros meios – mas sempre entre Estados, regendo-se por interesses nacionais, ou como tal aceites.
Dir-se-ia que guerras privadas eram coisa do passado. Mas continuaram a registar-se conflitos em que o interesse dos Estados parecia, no mínimo, duvidoso. Quando a Junta Militar da Argentina decidiu em 1982 invadir as Malvinas, fê-lo principalmente porque a sua popularidade estava em queda, pelo que fabricou um inimigo externo para mobilizar os cidadãos descontentes.

De modo semelhante, a Junta Militar da Grécia decidiu em 1974 intervir em Chipre, enviando militares e organizando um golpe de estado que depôs o governo cipriota. A resposta turca foi a invasão da ilha e a ocupação de grande parte desta, situação que se mantém até hoje.
Nos dois casos do fracasso das operações militares resultou a queda dos respetivos regimes.
Mais interessante é o caso do cruzador couraçado Maine, dos Estados Unidos. Em 1898, a degradação da situação em Cuba, última colónia espanhola nas Américas, envolvida numa luta de libertação nacional, levou os EUA a enviar aquele navio para o porto de Havana, para proteger os interesses americanos e eventualmente evacuar cidadãos seus.

Mas, a 15 de Fevereiro desse ano, o Maine, atracado na extremidade do porto, explodiu. Embora as primeiras notícias falassem em acidente, cedo surgiu a hipótese de sabotagem, através da colocação de uma mina. Atualmente, a explicação mais aceite é que se tratou de uma explosão acidental causada por pó de carvão, que se propagou ao paiol principal de munições.

Certo é que a versão de atentado passou a dogma, através de uma campanha sistemática nos jornais dos magnates de imprensa Joseph Pulitzer e Randolph Hearst, naquilo que se chamou a “imprensa amarela”. Contrariando as ideias do Presidente e do Governo, foi-se criando na opinião pública a ideia que a guerra era inevitável, e acabou por ser declarada em Abril.

Esmagada a frota espanhola e ganhas as campanhas terrestres, Cuba tornou-se uma nação independente, bem como outra colónia, as Filipinas, mas colocadas sob a custódia dos EUA. E os interesses americanos ficaram garantidos até à invasão japonesa das Filipinas, na II Guerra Mundial, e à revolução cubana, concluída em 1959.

A “operação” de preparar a opinião pública para a intervenção em Cuba através da imprensa é ainda hoje um caso de estudo, até porque foi feita de forma inovadora. Ficou registado o dito (em privado) de um dos magnates: “esta foi a nossa guerra”.

Outros exemplos há de como forçar um conflito. O pretexto do ataque alemão à Polónia foi montado através de uma força de paramilitares das SA, usando fardas do exército polaco, que atacou uma rádio local alemã e transmitiu um comunicado inflamado; até se deu ao trabalho de deixar atrás de si um cadáver, para dar mais verosimilhança ao ato. No dia seguinte, o ministro de Propaganda da Alemanha, Joseph Goebbels, encarregou-se de dar visibilidade ao incidente, que doutra forma teria passado despercebido.

Na mesma linha de informação/desinformação, ainda hoje se discute se o Presidente Roosevelt tinha ou não conhecimento prévio do ataque japonês a Pearl Harbour. Certo é que, depois do ataque, varreram-se todas as dúvidas dos cidadãos americanos sobre a entrada dos EUA na II Guerra Mundial.

No crescendo da gesticulação dos interlocutores das crises de Venezuela, do Irão ou da Coreia do Norte, é interessante acompanhar os picos dos meios de informação conotados com os governos, e o papel desse novo meio que é o Twitter. O tom das ameaças sobe e desce, ao sabor dos acontecimentos, como se se tratasse de uma partida desportiva e não de um jogo de vida ou de morte. Com a agravante da possibilidade da deflagração da guerra por automatismo ou por engano, como no cenário do Dr. Strangelove.

A questão está em saber se a guerra – que, no dizer de Georges Clemenceau, é um assunto sério que não deve ser entregue aos militares – pode ser deixada ao critério de uma minoria capaz de criar uma situação irreversível.
Será que, com as capacidades de manipulação da opinião pública dos meios atuais, estamos numa situação de possibilidade de regresso às guerras por iniciativa privada?

Nuno Santa Clara

23.05.2019 - 19:55

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2019 Todos os direitos reservados.