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Falo, hoje, de Paixão…
Por Carlos Alberto Correia
Barreiro

Falo, hoje, de Paixão…<br />
Por Carlos Alberto Correia<br />
Barreiro De novo sorrindo, desta vez em enigma, foi dizendo, quem sabe se hoje, a Esperança, se ainda viva, ao dirigir-se à Mesa de Voto, não votará no mesmo partido que eu, ouvindo no coração as melodias com que nos habitámos e construímos.

Ele poderia chamar-se Francisco Ferreira, ela Maria da Esperança. Nomes vulgares, fora das sonâncias doiradas de heróis de novelas amorosas. Moravam próximo e não se conheciam. Cada um vivia o seu mundo, os interesses para os quais se orientaram, ou foram orientados, por causas próprias, educação, origens sociais etc... Como desconhecidos inexistiam um para o outro até ao dia em que, por um qualquer acaso – não vamos aqui discutir esta abstrusa noção – de modo imprevisível, sem premeditação, cruzaram os caminhos. Descobriram-se e o mundo mudou. Desprendia-se dele uma melodia nova, única, inaudível para todos os outros, apenas percetível para os amantes. Magias do coração, poderia alvitrar-se!

Fosse como fosse os até aí indiferentemente desconhecidos tornaram-se centro do Universo. Nada existia fora deles, nada poderia ser sem eles, uma estranha completude juntou as suas vontades, sonhos, significados e porvires. Se dúvidas houvesse o incomparável doce dos beijos, o tremor da toda a terra quando os seus lábios se procuravam, davam-lhe a certeza da convicções absoluta onde mergulharam. O mundo existia, claro! Eles estavam, indubitavelmente, nele, mas, nos momentos de maior deslumbramento, parecia-lhes permanecer apenas por eles e para eles. Que assim fosse pela eternidade, desejavam-se!

No entanto, na perfeita comunhão dos sentimentos, algo subterrâneo, sombrio, parecia comer o tempo. Tudo eram momentos. Uma ameaça invisível pairava sobre o sublime dos sentimentos. O que agora fora de inexcedível passava instante, deixando apenas uma leve penumbra do que fora. Sentiam-se instados a agarrar cada momento, a esvaírem-se de plenitude mal acabados de sentir. A sensação passada, manter-se-ia em memória, mas sempre no risco de ser sobrepujada por outro momento, outra impressão. Como não queriam perder nada de quanto houvessem sentido apoderaram-se, para tal, das canções. A cada momento a guardar juntavam a música que o sublinhara. A sua paixão poderia, assim, assemelhar-se a um eterno concerto. Cada melodia faria reviver um momento específico, uma recordação. Por muitos anos que vivessem, se a vida os viesse a separar – que tal não acontecesse - ao ouvir, por vontade própria, ou por sintonia de eventualidade fortuita, qualquer dessas canções, para sempre ficadas suas, fixadas no momento privilegiado do acontecido, seria um pouco como, não perdendo nada de quanto, para além disso, tivessem vivido, regressassem, por momentos, ao doirado das sensações havidas nos tempos perdidos.

Como nós sabemos e Francisco e Esperança fingiam ignorar, os mandos das vidas, o percursos das pessoas, os ditames do império, as dunas das memórias, vieram, de modo vário, roubar toda a quentura das descobertas de cada um no outro, trazendo banalizações, desencontros, enganos e desenganos, até ter Francisco perdido a Esperança e esta ter-se esvaecido do nome e da vida de Maria. De toda a glória havida restaria apenas o fugaz sentimento despertado pelas músicas e, no momento, a dúvida - somos tão vários e por vezes incomunicáveis - se aquela melodia, a colocar Francisco no auge de uma qualquer extinta felicidade, seria a mesma que Esperança associaria ao momento. Enfim, preocupações de somenos porque, mesmo sendo qualquer outra, em termos de revivência de alma, a mesma sempre seria.

Passados muitos, muitos anos de ausência, novas presenças, outras recordações, nem Francisco sabe onde e se vive Esperança, nem esta de Francisco jamais teve notícias e, tendo eu, brusco de vivências sólidas afirmado nada, Francisco, ganhaste com isso, ele, de sorriso melancolicamente irónico, seguramente sábio, remeteu-me para o Principezinho: “quando disse á Raposa que nada tinha ganho por ter sido por ele cativada, agora que a partida impunha a separação definitiva, que isso a faria sofrer e fazer chorar, respondeu ela ter ganho a cor do trigo. Eu não como pão, explicava, por isso o trigo não me dizia nada; agora, porém, ao observá-lo a ondular ao vento verei o louro dos teus cabelos e lembrar-me-ei eternamente de ti. E terminou, penso, dizendo, vai pois procurar a tua rosa, porque ela é única.

Por isso, retomou Francisco a palavra, cuidei da minha rosa e guardei um cantinho para a Raposa, que nada rouba ao quanto quero à rosa. De novo sorrindo, desta vez em enigma, foi dizendo, quem sabe se hoje, a Esperança, se ainda viva, ao dirigir-se à Mesa de Voto, não votará no mesmo partido que eu, ouvindo no coração as melodias com que nos habitámos e construímos.

É a vida, Carlos, disse-me Francisco, na secção de voto, ao dar-me o abraço de despedida.

Carlos Alberto Correia

26.05.2019 - 19:28

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