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Facas de cozinha
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Facas de cozinha<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
BarreiroNada mais natural, portanto, que, interligado com o tal “Espírito de Fronteira”, esteja o direito, por tradição, do uso e porte de armas pelo comum dos cidadãos americanos- mas é também por tradição está a rejeição do Outro, do Diferente, do Estrangeiro, do Inferior, com recurso a essas armas.

Depois dos dois massacres ocorridos no mesmo dia nos Estados Unidos, recomeçou o debate sobre a proliferação de armas de fogo (nomeadamente armas de guerra) entre a a população. Perda de tempo, na minha opinião: vamos apenas assistir a uma repetição de argumentos que mais parecem chavões.

Porquê? Porque esses debates começam geralmente do meio para a frente, sem ir às origens do problema.
O uso e porte de arma pode ser considerado um direito corrente de qualquer cidadão, e de fato assim foi durante muito tempo. Deixou de o ser quando uma minoria conseguiu monopolizar a violência, criando uma casta de guerreiros e interditando a posse e uso de armas à maioria dominada. Assim foi na Idade Média, com os sobressaltos das Guerras Camponesas (entre nós com a crise de 1383-1385), até à afirmação da centralização do Poder e à criação dos exércitos profissionais da Idade Moderna.

Um caso típico de emancipação da maioria é a formação da Federação Suíça. Ela surgiu pela oposição dos plebeus à dominação dos nobres, na maioria de origem austríaca. À imagem de Guilherme Tell, os suíços recorreram às armas (ilegais) para conseguir a sua emancipação – algo que hoje se chamaria uma guerra de libertação. Desde então, o uso e porte de arma passou a ser um atributo de cidadania plena, conceito que se manteve até aos nossos dias. A perda desse direito só pode decorrer de um mau comportamento - algo a que corresponde uma diminuição da cidadania, tal como a perda de liberdade.

O caso americano é, de certo modo, o inverso. Os colonos começaram por pactuar com os índios, para depois os desalojar e por fim os confinar e/ou eliminar. Sem complexos: até há bem pouco tempo, os livros e sobretudo os filmes glorificavam os “Conquistadores do Oeste”, e neles uma frase normal era “o único índio bom é o índio morto”. Matar índios, como matar búfalos, era um desporto. Os métodos variavam, desde as armas de fogo à guerra biológica, como aquele major inglês que, cercado pelos índios, lhes ofereceu quatro mantas pertencentes a outros tantos soldados seus mortos de varíola; passados alguns dias, os poucos índios sobreviventes levantaram o cerco...

A saga da Conquista do Oeste foi uma série de campanhas de ocupação, começando pelos territórios dos índios, até acabar com a guerra com o México, que determinou as atuais fronteiras dos EUA. Com os “intermezzi” pacíficos da compra da Florida, da Luisiana (na verdade, quase toda a bacia do Mississipi) e do Alasca.

Assim, o “Espírito de Fronteira” está indissoluvelmente ligado às armas, e os revolveres Colt e as carabinas Winchester corresponderiam à espada de D. Afonso Henriques – com sete séculos de diferença, o que é muito em termos de memória coletiva.
Nada mais natural, portanto, que, interligado com o tal “Espírito de Fronteira”, esteja o direito, por tradição, do uso e porte de armas pelo comum dos cidadãos americanos- mas é também por tradição está a rejeição do Outro, do Diferente, do Estrangeiro, do Inferior, com recurso a essas armas.

Esta diferença entre as abordagens suíça e a americana da posse e uso das armas pode servir para explicar muita coisa. Como, por exemplo, porque é que, existindo tantas armas de guerra na Suíça, há tão poucos crimes cometidos com esses utensílios tão disseminados.
E aqui chegamos às facas de cozinha. Tal como na Idade da Pedra, são instrumentos de duplo uso: utensílios domésticos ou armas assassinas. Depende de quem e como as usa, e não passou pela cabeça de ninguém condicionar a venda ou posse de facas de cozinha.
É um pouco como disse Donald Trump, sobre os massacres cometidos com armas de guerra: o mal não está nas armas, está no espírito doentio de quem puxou o gatilho.

Abstraindo de quem contribuiu para a criação dos espíritos doentios, a verdade é que quem está decidido a cometer um crime usa a arma que está à mão – e a faca de cozinha é uma das opções, e tem sido largamente utilizada.
Mas ninguém até hoje inventou uma máquina de disparar facas de cozinha em rajada, permitindo assassinatos em massa.

E estando o Oeste conquistado, alemães e japoneses derrotados, chineses, coreanos e vietnamitas afastados, e qualquer invasão considerada pouco provável, não se percebe a proliferação de armas de guerra -a menos que se trate de um tributo aos velhos tempos, do “deem-me uma corda que eu próprio o enforcarei”, do “dispara primeiro e pergunta depois” e de todos os filmes e séries televisivas em que a violência é o traço comum, a par da indigência cultural e educacional.

Nuno Santa Clara

11.08.2019 - 13:41

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