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Recapitulando
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Recapitulando<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro Recapitulando, as guerras assimétricas obrigam a uma abordagem que ultrapassa a simples leitura de manuais. Assim aconteceu na II Guerra do Iraque: quando deram razão ao general Petreus, era tarde demais.

O ataque de refinarias da Arábia saudita por dez drones, ação reclamada pelos rebeldes Houthi, do Iémen, veio relançar uma guerra de palavras (oxalá assim se mantenha!) que está para durar.
Ao que parece, a grande questão está em quem armou os Houthi com uma tecnologia que tudo indica estar para além do alcance de um grupo de guerrilheiros do deserto.
É verdade.

Mas também é verdade que as “simples” espingardas automáticas Kalashnikov que utilizam estão também para além das suas capacidades de produção, e ninguém parece preocupar-se com isso. Pela lógica da autarcia, os Houthi deveriam usar apenas as espadas tradicionais (iguais às que Donald Trump e seus aliados sauditas utilizaram numa mediática dança guerreira). Mas material sofisticado não lhes falta, e os drones representam apenas um salto qualitativo. E nem sequer foi a primeira utilização de drones neste conflito.

Do lado saudita, a tecnologia é também de importação. Recordemos o caso também mediático de 400 bombas guiadas a laser encomendadas a Espanha – negócio legal; quando se soube que idênticas armas tinham morto crianças e doentes em hospitais do Iémen, o governo espanhol tentou cancelar a venda, contra um reembolso de 9,2 milhões de dólares. Só que a Arábia Saudita ameaçou cancelar um contrato de construção de navios de guerra no valor de 1,8 mil milhões de dólares – e as bombas lá foram para o teatro de operações, inseridas na luta contra o desemprego…
O que explica aquela teoria segundo a qual o ataque às refinarias foi um ato de legítima defesa – partindo do princípio de que a melhor defesa é o ataque.
Já se comparou o ataque às refinarias com o de Pearl Harbor e com o do World Trade Center.

A segunda comparação está mais correta. Pearl Harbor foi um ataque de um Estado a outro Estado; o das Torres Gémeas foi o ataque de um grupo informal terrorista a um Estado, numa aplicação dramática do conceito de guerra assimétrica.
Segundo uma estimativa comercial, acessível via Internet, um drone com capacidade idêntica aos agora utilizados custaria cerca de 15,000 dólares; e os gastos da Arábia Saudita em aquisições de material de defesa em 2018 rondaram os 67,8 mil milhões de dólares.
Nos Estados Unidos e na Arábia Saudita, um investimento colossal na área de defesa não impediu, nem um impensável grau de destruição em Nova Iorque, nem uma catastrófica destruição de instalações petrolíferas na Arábia.

Fica-se com uma sensação semelhante à dos contribuintes europeus depois da I Grande Guerra: houve uma ruinosa corrida naval entre a Inglaterra de a Alemanha, acompanhada por outros países, para a construção de couraçados. Ao fim de quatro anos de conflito, houve apenas uma meia batalha em 1916, ao largo da Jutlândia, que se saldou pelo recontro entre a Fast Division inglesa e a Divisão de Cruzadores de Batalha alemã, sem que o grosso das esquadras se tivesse sequer avistado…

O problema está em que a frustração é má conselheira. Em 1918, à beira da derrota, o Almirantado alemão decidiu sair para o mar, em busca da frota inglesa, para um Armagedão que salvasse a honra da sua Marinha; saldou-se por uma revolta dos marinheiros e pela capitulação dos navios.
Depois do 11 de Setembro, os EUA lançaram-se numa série de intervenções militares cujos efeitos ainda duram, e sem fim à vista. Mas teve a vantagem de encontrar inimigos externos que diluíram a busca das causas internas da catástrofe.

Recapitulando, as guerras assimétricas obrigam a uma abordagem que ultrapassa a simples leitura de manuais. Assim aconteceu na II Guerra do Iraque: quando deram razão ao general Petreus, era tarde demais.
Cabe aqui relembrar uma das célebres tiradas do general de Gaulle, ao assistir a umas manobras do seu exército: “os nossos generais estão sempre a pensar na guerra passada…”

Nuno Santa Clara

18.09.2019 - 17:16

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