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Centrifugação
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Centrifugação<br />
Por Nuno Santa Clara <br />
Barreiro Um amigo meu, cínico empedernido, deu-me o seu ponto de vista: se a Catalunha permanecer espanhola, é a paz na Península, e é bom para Portugal; se for independente, enfraquece a Espanha, e é ótimo para Portugal.

O equilíbrio entre as forças centrífugas e centrípetas é essencialmente dinâmico: a cada momento, a força centrífuga pode levar ao afastamento de todo ou parte de um conjunto, ou, inversamente, a força centrípeta levar à concentração ou mesmo à implosão no centro do sistema.

O que é constatável na Física, nomeadamente na Astronomia, é também verdade em coisas mais corriqueiras. David matou Golias com uma funda, aplicando a força centrífuga.
Nas relações humanas coexistem também essas duas tendências, para a centralização e para a descentralização. No limite, a primeira pode evoluir para o imperialismo; na segunda, para a autonomia ou até à anarquia.
Assim dito, a Estratégia poderia ser resumida numa expressão matemática, como o resultado de duas linhas de força que se anulariam num ponto de equilíbrio. Como naquela definição de fronteira como “o lugar geométrico de potências antagónicas”.
Mas nunca assim foi bem assim nas relações humanas.

Portugal é um país atípico, nesta Europa dita de Estados-Nação. Precisamente porque é realmente um Estado-Nação, uma Nação tornada Estado, numa afirmação de séculos, sem clivagens de maior, apesar de todas as suas assimetrias.
A vizinha Espanha não é assim. Nela coabitam várias nações com várias culturas, e não apenas questões folclóricas e linguísticas.
Quando existe um projeto comum, as coisas funcionam bem. Resultado de uma política centralizada, na América latina, desde o Rio Grande, no México, até à Tierra del Fuego, tirando o Brasil e as Guianas, todos falam castelhano. Além de uma boa percentagem de norte americanos.
Mas não na própria Espanha!

Mau grado todos os esforços, sobretudo nos tempos do Franquismo, continua a falar-se basco, catalão, galego e outras variações linguísticas de forma resiliente, em terras ligadas a outras tantas culturas
Pode-se viver na diversidade. Os suíços fazem-no há séculos, sem problemas de maior. Tudo reside na dialética entre o projeto comum (a força centrípeta) e as particularidades locais (a força centrífuga).
Agora que a Catalunha está ao rubro, algumas questões devem ser levantadas.
Primeiro, a das razões históricas.

A Catalunha, se excetuarmos alguns curtos períodos, nunca foi um país independente. Foi um aglomerado de condados, integrado no reino de Aragão, cujo rei que acumulava o título com o de Conde de Barcelona, entre outros.
Do mesmo modo, a País Basco esteve integrado no Reino de Navarra. Ou seja, as razões históricas da independência são contestáveis. O que não é contestável é o movimento social tendente à autonomia dos Bascos e dos Catalães – o mesmo que levou os Portugueses a lutar pela sua independência.
Segundo, o que levou a que os Bascos se acalmassem e os catalães se assanhassem? Aparentemente, o caso basco era pior, com décadas de atentados, e um passivo de centenas de mortos e feridos.
Temos de voltar atrás, aos tempos de Filipe IV (o nosso Filipe III) e do seu valido, o Conde-Duque de Olivares.
A Espanha (já podemos chamar-lhe assim) estava embrulhada na Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), em simultâneo com a Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648), da qual, curiosamente, pouco se fala.
Castela suportava o peso das guerras. Aos outros reinos ibéricos pouco interessava a Guerra dos Oitenta Anos, feita contra os seus tradicionais parceiros comerciais.

Daí que o Conde-Duque tivesse avançado com uma proposta: Tenga Vuestra Majestad por el negocio más importante de su Monarquía, el hacerse Rey de España: quiero decir, Señor, que no se contente Vuestra Majestad con ser Rey de Portugal, de Aragón, de Valencia, Conde de Barcelona, sino que trabaje y piense, con consejo mudado y secreto, por reducir estos reinos de que se compone España al estilo y leyes de Castilla, sin ninguna diferencia, que si Vuestra Majestad lo alcanza será el Príncipe más poderoso del mundo.

Passando à prática, seria constituída uma União de Armas, em que Castela e as Índias contribuiriam com 44.000 homens, os reinos de Portugal, de Nápoles e a Catalunha com 16.000 cada, os Países Baixos do Sul (Bélgica) com 12.000, o reino de Aragão com 10.000, o Ducado de Milão com 8.000, os reinos de Valência e da Sicília com 6.000 cada, num total de 144.000 homens.
Note-se a individualização da Catalunha, equiparada aos reinos de Portugal, de Aragão e de Valência, e o elevado potencial de que dispunha.
O resultado desta política foi a Revolta dos Segadores, na Catalunha, e a Restauração em Portugal, ambas em 1640. Com sortes diferentes.

Uma segunda crise surgiu com a Guerra de Sucessão de Espanha, durante a qual houve troca de alianças e de lados durante a guerra (entre eles Portugal). Em 1713 foi assinada a paz e Felipe V (o primeiro Bourbon) consolidou-se como rei da Espanha. A Catalunha, que apoiara Carlos de Áustria, não aceitou e permaneceu só, frente a 40 mil tropas francesas e castelhanas. Na sequência de um cerco de 12 meses, Barcelona caiu. Seguiram-se os fuzilamentos e a repressão. Pelo Decreto da Nova Planta, de 1716, foram abolidas as instituições catalãs - as Cortes, a Generalitat, os Conselhos Municipais, etc.

Outros picos de nacionalismo se foram dando, mas estes foram os mais marcantes, e ainda hoje são invocados.
Para completar o quadro, é bom lembrar que há bascos e catalães dos dois lados da fronteira. Durante o período franquista, os franceses acolhiam com condescendência os separatistas. Não se reclamavam eles de democratas? Caído Franco, restabelecida a Democracia, invertem-se as alianças, como na Guerra da Sucessão.
Restava a via democrática. Primeiro os bascos, para acabar com a violência. Lá se chegou a bom porto, com o argumento chave de guardar para si as receitas de uma das regiões mais ricas de Espanha. Depois seriam os catalães, mas a porta fechou-se com a mudança de governo.

O resultado foi o que seria previsível: uma espiral de reivindicações que acabou em violência. Até quando?
Um amigo meu, cínico empedernido, deu-me o seu ponto de vista: se a Catalunha permanecer espanhola, é a paz na Península, e é bom para Portugal; se for independente, enfraquece a Espanha, e é ótimo para Portugal.
Pessoalmente, prefiro meditar sobre um dos célebres ditos de Otto von Bismarck: “estou absolutamente convencido de que a Espanha é o país mais forte do Mundo: século após século tenta destruir-se e não há maneira de o conseguir” (apud. David Martelo – https/www.a-bigorna.pt) />
Nuno Santa Clara

30.10.2019 - 23:43

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