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Zero
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Zero<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro Mas hoje o zero começou a ter conotações políticas. Crescimento zero, emissões zero, tolerância zero: para além do conceito matemático, há todo um conjunto de ações e atitudes, ou seja, de políticas, a implementar ou evitar, que vão muito além do simples algarismo.

Ao que se sabe, o zero foi conhecido, antes dos europeus, pelos povos babilónicos, hindus e maias. Todos eles dados às matemáticas. Quando os europeus aceitaram os algarismos árabes, (por sua vez aprendidos do Oriente), divulgados no século XII pelo matemático italiano Leonardo Fibonacci, aceitaram também o zero, o que não foi tarefa fácil. Pergunta da época: para que serve o zero, se é nada?
Sem o zero, não seria possível a numeração decimal e, sobretudo, seria impossível executar contas num papel, ou, mais eruditamente, executar um algoritmo.

Mas hoje o zero começou a ter conotações políticas. Crescimento zero, emissões zero, tolerância zero: para além do conceito matemático, há todo um conjunto de ações e atitudes, ou seja, de políticas, a implementar ou evitar, que vão muito além do simples algarismo.

A última aparição do zero em público foi na manifestação dos elementos das Forças de Segurança frente à Assembleia da República. Alguns agentes fizeram um zero com os dedos da mão, o que tem tanto significado como o punho cerrado, a saudação fascista ou o “V” da vitória.
Em todos os casos, trata-se de passar uma mensagem. Pois bem, mensagem recebida.
Bem o percebeu Rui Rio, que com a sua habitual finura, foi dizendo que as decisões do Governo, quanto aos salários, e dos juízes, quanto às sentenças, estavam na origem do descontentamento.
Quanto aos salários, seria de fácil (?) resolução. Embora pensar que o dinheiro resolve tudo seja a forma mais corrente de angelismo ou de cinismo – quem quiser que escolha.

Quanto aos juízes, a coisa fia mais fino. Um dos pilares da Democracia, tal como a entendemos, é a independência do Poder Judicial. Assim, qualquer beliscadura nos magistrados aparece como um atentado à própria Democracia.
Ou seja: pode-se atacar todas as instituições, civis ou militares, eleitas ou nomeadas, sem levar roda de anarquista (versão soft), mas os juízes não. Seriam como um povo eleito, sem ter sido eleito, como sucede nalguns países.
Claro que muitos dos ataques vêm de réus e advogados de casos mediáticos, tentando levar os julgamentos para a rua; em desespero de causa, o que está mal é a Lei, ou o Juiz.

Mas a grande questão não está aí. Está nas profundezas do espírito, naquele conjunto de valores adquiridos e do qual é difícil abdicar. Mais uma vez recordando Frederico Fellini, “levamos vinte anos a meter coisas na cabeça, e o resto da vida a tentar tirá-las de lá”.
Sem o conseguir, muitas vezes.
A minha geração cresceu na luta pelos Direito Humanos e contra as arbitrariedades. A imagem dos perseguidos políticos não nos sai da cabeça. E também, recorde-se, não faltaram juízes nos Tribunais Plenários.
Portugal mudou há meio século, mas as sombras do passado parecem andar por aí. De tanto querer proteger os que erraram (o que é, em princípio, louvável) esquecemo-nos dos que cumprem.

Não só na Justiça. Por exemplo, são frequentes os perdões fiscais, fundamentados em boas razões. Mas, com que cara ficam os cumpridores?
Jesus Cristo apontou uma solução, através da parábola dos trabalhadores da hora undécima (Mateus 20:1-16): os que trabalharam apenas uma hora receberam o mesmo que os que labutaram todo o dia. Nem os mais radicais sindicalistas de hoje apoiariam tal medida, o que prova que não são santos.
Na Justiça, coabitam as pesadas sentenças contra os Agentes da Autoridade com as ligeiras aplicadas aos prevaricadores. Recorrendo novamente aos Evangelhos, terão as polícias mais responsabilidade, dirão sisudos decerto não-pecadores, os que atiram a primeira pedra.
E lá voltamos para a hora undécima: irão para o Céu, mas padecendo uns mais que outros.
Disso têm conhecimento agudo, marcado na carne, na família e na carreira, os Agentes da Autoridade. Isso sente a maioria dos portugueses, que já foi vítima de furto, roubo, fraude, vigarice, corrupção, ou outra foram de crime impune, ou quase.

Daí o aviso da mensagem do zero. Basta constatar os recentes fenómenos, na Europa e na América, da ascensão dos partidos populistas, para compreender a mensagem.
Que não foi compreendida há um século atrás, com o custo de 50 milhões de mortos.
Zero, portanto.
Mas para quem?

Nuno Santa Clara



23.11.2019 - 12:22

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