Conta Loios

colunistas

Desculpa meu filho
Por Carlos Alberto Correia
Barreiro

Desculpa meu filho<br />
Por Carlos Alberto Correia<br />
Barreiro Eis-nos chegados aos anos vinte do séc. XXI, com muitas probabilidades de eu, e muitos outros da minha geração atingirmos o término do nosso percurso nesta quase esfera onde, sem parar, rodamos parecendo que a rotação do planeta obriga a um ciclo continuamente repetido de problemas.

Sei bem que Marx, na senda de Hegel, anunciou que a história não se repete e, posteriormente terá enunciado que afinal o faz, só que a primeira vez como tragédia e a seguinte como comédia. Não pondo da parte a justeza do pensamento dialético, no dealbar desta década, confrontado com a visão dos acontecimentos e com os relatos do século passado (e só isto transporta a estranheza de começar-me a sentir ser de outro tempo), começo a aperceber-me de um sentimento de “dejá vu”, de similaridades chocantes, de um sensação de impotência face ao que parece, em interminável repetição, vir por aí quase sem remissão.

Se observarmos os primeiros anos do sec. XX, veremos a ebulição do mundo, onde uma classe de proprietários dominava os aparelhos ideológicos, económico, sociais e legislativos, criando e justificando uma situação de desigualdade sempre crescente entre possuidores e despossuídos. Estes, na maior parte mão-de-obra a raiar a subsistência, eram cada vez mais e mais pobres, os outros eram cada vez menos e mais ricos. Não ouvem aqui o eco de alguma coisa?

As diferenças de posses tornaram-se tão extremas que, simplificando, duas guerras aconteceram, criaram-se sociedade proletárias e, perante o perigo, o capitalismo proprietarista, confrontado com o modelo comunista, “inventou” a social-democracia, válvula de escape das tensões sociais que conduziram ao descalabro da guerra, estabelecendo uma proporção mais justa na distribuição dos rendimentos. O Estado tomava em mãos, através de mecanismos distributivos como as taxas de impostos progressivas – pagava mais quem mais recebia ou possuía – do Serviço Nacional de Saúde, do acesso à educação daqueles que poderiam aspirar a ela mas, considerado o estatuto económico e a estratificação social, nunca lá chegariam, e, muito importante, do aparecimento de legislação do trabalho com concessão de direitos aos trabalhadores, da criação de institutos reguladores sobre as atividades económicas, e por aí adiante.

Na verdade, este capitalismo de rosto humano apenas escondia medo, hipocrisia e a exploração colonial, transferindo para os chamados países subdesenvolvidos as tensões habitualmente existentes no interior das “sociedades desenvolvidas”, diminuindo, de forma e com intensidades várias, os conflitos sociais intra-sociedades. Nunca a classe trabalhadora destes países viveu tão bem, jamais teria sonhado com perspetivas a abrirem-se com a sua promoção a classes médias com direitos, conforto, possibilidades de consumos além dos de mera subsistência. O modelo era tão cativante que boa parte do mundo, sobretudo ocidental, americano do norte (Canadá incluído) se lhe converteram. Alguns chegaram de forma “natural” a este patamar, outros – como nós – esperaram anos e só pela força das armas conseguiram passar a estreita entrada da menor desigualdade.

Tudo foi no melhor do mundo até aos anos oitenta. Aí, com o desaparecer do perigo comunista – falhado ao trocar a construção da igualdade pela competição industrializadora e armamentista - introdutora de novas desigualdades, perdidas as matéria primas baratas por desmantelamentos do colonialismo e neocolonialismo – o capitalismo de rosto humano sentiu-se livre para tirar a máscara e mostrar a face real, na forma de neoliberalismo ou, noutra designação, híper capitalismo. Foram seus arautos e executores Margaret Tacher e Donald Regan. Este, imbuído do melhor espírito capitalista e protestante clamava ser bom ser rico e demonstrá-lo publicamente. Para tanto ambos, e não sozinhos, iniciaram a destruição de quanto se havia feito no campo do direito e da construção da igualdade, gritando as palavras de ordem, desregularizar, privatizar tudo, mesmo a sobrevivência e a saúde, baixar salários e benefícios, aumentar o lucro de empresas e a riqueza dos empresários. Tudo em nome do bem comum, do investimento, do progresso tecnológico, objeto e possibilitador deste volte face social.

Só demasiado tarde percebemos a armadilha. O discurso ideológico que envolvia os desígnios escondidos era cativante, demonstrava-nos o contrário do pretendido e, feitos parvos, embarcámos no comboio do consumismo, deixámos livre as feras que se alimentam das nossas vidas, demos-lhe a carne quando pensávamos acaricia-las. Foi bem feito!

Não nego que pensámos agir bem. Estarmos a melhorar o mundo enquanto caíamos na falácia do eterno crescimento sem pensarmos que vivíamos num mundo de recursos finitos, lutando para possuirmos cada vez mais objetos, mais coisas inúteis, conquistámos a depressão e a falta de tempo para usufruir dos” gadgets” adquiridos, esquecemos a nossa humanidade e permitimos que a miséria voltasse a instalar-se, mesmo nos países mais ricos, deixando meio mundo a viver na penúria e na revolta.

Por isso falei em “dejá vu” e peço desculpa ao meu filho, e aos filhos dos pais da minha geração. Tentámos verdadeiramente diminuir as desigualdades, mas falhámos quando pensávamos estar no bom caminho. Olhem com mais atenção para o mundo. Dois mil e oito foi ontem e, apesar de todos os dramas, parece que não aconteceu. Os seus responsáveis, salvo algumas cabeças que foi necessário sacrificar para aplacar a raiva das massas sofredoras, continuam nos seus postos privilegiados, a fazer os mesmos jogos, a aumentar de forma nunca vista as diferenças sociais as desigualdades económicas, mais uma vez desregularizando a favor do equilíbrios de mirabolantes “mercados”, de investimentos feitos para tudo melhorarem e que cada vez mais pioram os níveis de vida, as possibilidades de destruir as desigualdades que, quando levadas ao extremo, de que não estamos longe, precipitam o mundo em querelas horríveis e sangrentas. Para lá caminhamos e, alegremente, preparamos a cada vez mais previsível sexta grande extinção. A nossa! Podem ter a certeza de que o mundo não se importará. Do esgotamento de recursos naturais que fizemos, da lixeira em que tornámos o mundo, ele inventará uma outra espécie que se tiver juízo, em vez dos nossos filhos, herdará a terra.

Restam algumas esperanças de que a humanidade perceba o perigo e possa reinventar-se. Alguns sinais vão aparecendo por aí. Mas será difícil fugir ao holocausto. Os interesses instalados são demasiado poderosos. Cegos pela miragem do lucro, não descansarão até tudo ter sido consumido. A não ser que as novas gerações vençam onde nós nos perdemos e plenos de uma nova inteligência percebam e consigam tornar o planeta na casa comum, demonstrando não haver almoços grátis e que todos os atos têm consequências.

Por te legar esta década, que será, com muitas probabilidades a última para muitos de nós ,em que se poderá definir se sobreviveremos como espécie ou se chegaremos à destruição mutuamente assegurada é que te peço desculpa, meu filho, pelo mundo que te deixo. Oxalá possas tornar falsos os receios que me assaltam e tu, e todos os demais, consigam usufruir muitas décadas de felicidade. Para tal é premente tomar atenção e diminuir, em todo o mundo, as desigualdades, mesmo que para isso seja necessário abrir mãos de algumas comodidades, distribuir um pouco mais de conforto por todos, privando-nos de algum daquele que temos em demasia. É difícil, eu sei! Mas, é o único caminho possível.

E, já agora, atenção, muita atenção, à água!

Carlos Alberto Correia

01.01.2020 - 20:40

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2020 Todos os direitos reservados.