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Aritmética
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Aritmética<br />
Por Nuno Santa Clara <br />
Barreiro As criaturas autocráticas têm todas uma coisa em comum: a desvalorização das regras e instituições. Exemplo máximo é Adolf Hitler, que ascendeu ao poder por via democrática, e que depois nem se deu ao trabalho de rever a Constituição da Alemanha: simplesmente ignorou-a.

Foi sempre tendência do Homem contar, medir, registar, equacionar e explicar o que via por números; segundo a expressão de Lord Kelvin, se conseguirmos expressar uma coisa por números, sabemos do que estamos a falar.
Pode observar-se em todas as civilizações essa fascinação pelos números. Contar, calcular, gravar: seja na base decimal (a dos dedos da mão), na sofisticada base duodecimal dos caldeus, ou na base vinte dos maias, está sempre presente essa tendência.
As modernas democracias também se socorrem da matemática: maioria simples, absoluta, qualificada, derivam sempre de uma questão de números, ultimamente levada entre nós ao refinamento na chamada “geringonça”, em que a contagem dos votos se sobrepôs ao debate dos programas.

A última aplicação desta abordagem foi o processo de destituição de Donald Trump: passou por maioria na Câmara de Representantes, chumbou por maioria no Senado. À justa, em qualquer dos casos. O fundo da questão ficou para tempos futuros, aqueles onde se escreve a História.
Habituámo-nos a distinguir as democracias inglesa e americana pela liberdade de voto. O “caso limiano”, de que ainda hoje se fala, não surpreenderia na Inglaterra ou nos EUA, onde os eleitos tradicionalmente respondem perante quem os elegeu, e não perante quem os escolheu como candidatos, nomeadamente os chefes dos partidos.
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Pelo menos assim era, mas parece que as coisas mudaram.
Ainda é cedo para avaliar o que alguns começam a chamar “efeito Trump”. Decerto nas atuais sociedades se regista uma depreciação dos partidos tradicionais, mas a contestação assenta (ou reclama-se de) uma fundamentação ética. Os novos partidos querem uma audição mais direta do povo, mas não a subversão do sistema (com algumas exceções, claro). E, sobretudo, querem honestidade e transparência.

Ora, a eleição de uma figura amoral para a Casa Branca tem vindo a provocar um efeito dissolvente nas instituições democráticas. Não tanto pela falta de cultura, pelas gafes ou pelos pontapés na gramática, que entraram já no anedotário universal, mas pela perda de referências éticas.
Nos velhos tempos do Oeste, chamar mentiroso a alguém acabava em mortos. Hoje, é apenas uma estatística sobre as afirmações do mais alto representante do Estado.

A erosão das Instituições pode medir-se tanto por declarações públicas, como pela dança dos nomeados – e pelas denúncias destes em relação o chefe da orquestra (descontando as motivações dos arrependimentos tardios).
Mas talvez o pior efeito foi a radicalização da sociedade americana, agora dividida em pró e contra, azul e vermelho, esquerda e direita, divisão essa que veio ao arrepio da tradição instituída pelos Pais Fundadores em 1776. Da incerteza do resultado de uma votação passou-se a uma rígida disciplina de voto, num ambiente em que não estará ausente alguma forma de coação.
Corolário desta atitude, do debate das ideias e da invocação dos princípios passou-se à contagem das espingardas, ou seja, à Aritmética pura e dura.

Segundo esta tendência, a Política passaria a uma ciência exata, expressa por algoritmos; graças à Informática, com votações mais cómodas, tudo correria pelo melhor nesse novíssimo Admirável Mundo Novo.
Só que, se uma Assembleia democraticamente eleita, livremente reunida e não influenciada nas suas decisões, aprovasse por unanimidade e aclamação que 2 + 2 = 5, isso não alteraria a tabuada…

As criaturas autocráticas têm todas uma coisa em comum: a desvalorização das regras e instituições. Exemplo máximo é Adolf Hitler, que ascendeu ao poder por via democrática, e que depois nem se deu ao trabalho de rever a Constituição da Alemanha: simplesmente ignorou-a.

Mas modestamente, entre nós o artigo 8.º da Constituição de 1933 explicitava no seu artigo 8.º que “constituem direitos e garantias individuais dos cidadãos portugueses… a liberdade de expressão do pensamento sob qualquer forma…”. Mas, depois…
Resta saber que Aritmética prevalecerá nas próximas eleições para a Casa Branca. Na certeza de que, se Trump perder, vai precisar de Álgebra para prestar contas.

Nuno Santa Clara

07.02.2020 - 11:37

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