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Comando e Disciplina
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Comando e Disciplina<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro A minha geração foi a da Guerra (Colonial, do Ultramar, ou de África, à vontade do freguês). E nessa Guerra, travada essencialmente por capitães e subalternos, a imagem do comandante não era uma figura protocolar: era aquele para quem todos se viravam quando as coisas se tornavam complicadas.

Desde que me entendo, o meu sonho foi vir a ser militar.
Coisa estranha, uma vez que na minha família não havia a mínima tradição das coisas castrenses. Até pelo contrário, havia uma certa desvalorização de tal atividade. No entanto, ninguém contestou a minha escolha, antes pelo contrário. Uma e outra coisa pesaram na minha maneira de ver o Mundo.

Das influências que tive na fase anterior à minha incorporação, retive uma “estória” contada por um familiar. Havia na minha terra um comandante de unidade que, um dia, mandou publicar uma disposição na Ordem de Serviço. O chefe da secretaria, aflito, pediu para lhe falar e foi referindo várias disposições em contrário, de diverso peso jurídico, sobre o assunto. E o comandante, fleumático, foi dizendo: eu sei, mas publique. Até que, perante a insistência do subordinado, arrumou a questão, dizendo: se fosse só para cumprir o que está determinado, o comandante da unidade não seria tenente-coronel, mas primeiro-sargento.
Ou seja, mesmo no tempo da Outra Senhora, havia Comandantes.

A minha geração foi a da Guerra (Colonial, do Ultramar, ou de África, à vontade do freguês). E nessa Guerra, travada essencialmente por capitães e subalternos, a imagem do comandante não era uma figura protocolar: era aquele para quem todos se viravam quando as coisas se tornavam complicadas.
Os atritos entre os comandantes no terreno e certas hierarquias eram frequentes, porque os Comandantes defendiam os seus homens com unhas e dentes; os comandantes, nem por isso.
Não foi por acaso que o 25 de Abril foi feito essencialmente por capitães.

As decisões em campo de batalha não são lineares. Um comandante que ordena um ataque a uma posição defensiva organizada sabe que terá cerca de 30% de baixas. No entanto, tem de cumprir a ordem superior, e sabe o preço a pagar. Um comandante que manda avançar as suas tropas para uma área contaminada sabe que terá uma percentagem de baixas, imediatas ou “a posteriori”, mas tem que o fazer, e sabe o preço a pagar.
É a grande solidão do Comandante: pode delegar tudo, menos a responsabilidade.

Vem isto a propósito da exoneração do capitão-de-mar-e-guerra Brett Crozier do comando do porta-aviões Theodore Roosevelt, na sequência da divulgação de um pedido angustiado de atuação pela presença do Covid-19 na tripulação de quase 5.000 marinheiros do seu navio – meio confinado, não diferente dos navios de cruzeiro que têm feito correr tanta tinta.

Talvez em desespero de causa, o Comandante Crozier terá queimado algum degrau da hierarquia – mas fê-lo dentro daquele espírito que deve presidir a quem comanda. O seu primeiro dever é defender os seus subordinados de riscos inúteis.
Se estivesse numa situação de combate, haveria que aceitar baixas e prosseguir. Não era o caso.

O Presidente, comandante-chefe das Forças Armadas, apoiou a exoneração, feita pelo escalão político. Com a mesma determinação com que evitou ser mobilizado para o Vietname, com adiamentos sucessivos da incorporação; com que desautorizou Comandantes militares no terreno; e ainda com que insultou John McCain, o herói condecorado da guerra que ele torneou.
Coisas que, se fosse Comandante, em vez de comandante, nunca teria feito.
O c.m.g. Brett Crozier, ao abandonar o navio de cujo comando foi destituído, foi aplaudido por toda a tripulação. Não promoveu nem correspondeu a esta manifestação de indisciplina. Fez continência à bandeira, e partiu.
Amargurado? Decerto. Mas com o sentimento de missão cumprida – um conceito que escapa a quem o demitiu.

Nuno Santa Clara



05.04.2020 - 22:58

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