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Reflexões
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Reflexões<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro<br />
Nesta guerra há baixas. Não só dos que deram a vida pela sua abnegação, mas dos que sofreram de excesso de trabalho, de separação dos familiares, de isolamento, de ver morrer os outros. Tudo isso traz-nos algo de conhecido, como que recordação, ainda que felizmente atenuada, do ambiente de campanha.

De um jornal nacional extraímos a seguinte passagem:

“Ainda não tinha sido confirmado em Portugal o primeiro caso de contágio de covid-19 e as Forças Armadas já preparavam e separavam os seus militares para os proteger e preservar as capacidades operacionais. Ao longo das últimas semanas, os militares surgiram em várias frentes de apoio à sociedade civil. Em lares de idosos, a distribuir refeições a sem-abrigo, a transportar material para as autoridades de saúde, na produção de equipamentos, na inovação científica”.

Desde sempre as Forças Armadas têm feito correr rios de tinta, e agora terabytes de informação. Em tempo de Paz, toleradas ou mesmo mal-amadas; em tempo de guerra, a última salvação; em caso de catástrofe, a principal esperança.
A relação dos portugueses com as suas Forças Armadas tem as particularidades da sua História, velha de nove séculos. Decerto o reflexo de cada época e da sociedade em que estavam inseridas, mas uma presença e um relacionamento constante.

Uma grande mudança nesse relacionamento, em especial com o Exército, adveio das Invasões Francesas. Até aí, a guerra era uma coisa limitada, recorrente, mesmo distante, exceto para as terras de fronteira. Com as Invasões Francesas o fenómeno Guerra passou a ter uma dimensão nacional e quase total. Os povos sentiram diretamente o peso da guerra e as suas consequências, e reagiram em consonância. Além dos militares, as populações armaram-se e tomaram parte ativa no conflito.

Expulsos os invasores, nada foi como dantes. Os povos tinham-se libertado – e queriam ser reconhecidos como cidadãos de pleno direito. Os heróis queriam ser lembrados – e achavam-se com direito a ter parte ativa na nova ordem social e política. Como sempre acontece, nem todos se tinham batido pelos mesmos ideais e, com a chegada da paz, foram postas a nu as suas diferenças. O resultado foram as chamadas Guerras Liberais, que só terminaram oficialmente em 1834.
Seguiram-se tempos conturbados, pontuados por intervenções militares (com o interregno da Regeneração) que haveriam de marcar a sociedade portuguesa por mais de um século.

As grandes mudanças políticas (5 de Outubro, 28 de Maio, 25 de Abril) foram sempre “de manu militari”. Com larga participação popular em 5 de Outubro; puramente militar em 28 de Maio; com espontânea adesão civil em 25 de Abril, mas sempre com base numa componente armada. E esta é uma característica das sociedades ibéricas, uma vez que a Espanha teve experiências semelhantes.

A nossa geração, a nascida depois do 28 de Maio, habitou-se a ver as Forças Armadas como o sustentáculo do Regime e como executoras da política da Guerra Colonial. Esquecendo ou ignorando as resistências internas e a íntima ligação dos quadros inferiores com a massa dos combatentes, que levou à contestação do sistema. O Exército combatente era constituído essencialmente por pessoal conscrito; companhias houve em que o único militar profissional era o 1.º Sargento.
Nas Invasões Francesas e nas Guerras Liberais houve sempre a consciência de que a Guerra marcava e mudava as pessoas para sempre. Mas, ao contrário do que se passava noutras paragens, isso não separou os militares da restante sociedade, porque era no seio dela que as guerras se travavam. As Campanhas de Ocupação de África, embora travadas longe de casa, tiveram um apoio popular alimentado pelas forças políticas da época.

Após a I Guerra Mundial não se registaram entre nós os movimentos de revanchismo ou saudosismo que marcaram outros países, até porque parecia uma guerra distante, travada em França, em Angola ou em Moçambique. E a epidemia da “febre pneumónica” varreu para segundo plano as baixas do conflito. Mas fez despontar um novo grupo social: os Antigos Combatentes, que tiveram de lutar contra o esquecimento e a ingratidão, agravados quando, após o 28 de Maio, o Poder foi entregue a militares que não tinham estado na frente.

O fim da Guerra Colonial deu origem a sentimentos difusos, convergindo para o apagamento da memória. Esquecer, fazer por esquecer, obrigar a esquecer: esta trilogia ameaça a escrita da História recente do nosso País. A nível psíquico, individual ou coletivo, é um processo de “não inscrição”, que tem dois efeitos nefastos: um, a inadaptação dos antigos combatentes, que pode causar ou agravar o stress pós traumático; outro, a reinvenção dos factos, que leva ao saudosismo, ao revanchismo e a uma perspetiva falseada da História.

Deste processo as Forças Armadas não saíram incólumes. Do esquecimento ao menosprezo, da desvalorização à negação, tudo contribuiu para denegrir a Instituição.
Até que uma situação de emergência as trouxe de novo à baila. E os nossos militares, até há pouco considerados um artigo de exportação, bons para exibir além-fronteiras, voltaram à linha da frente, no meio do Povo de onde, na verdade, nunca tinham saído (mau grado as tentativas de segregação).

O que estão a fazer Forças Armadas nem é novidade: é uma das Missões que lhes foram institucionalmente atribuídas. Só que elas têm aquele espírito resiliente de levar as coisas a sério, e, tal como não se começa a instruir recrutas depois de iniciada a guerra, preparam-se para a pandemia antes de ser decretada a emergência.
Militares, Forças de Segurança, Bombeiros e Serviço Nacional de Saúde não se enquadram naquele modelo empresarial que se anunciava ser a panaceia universal dos nossos males. A sua resposta não assentou em elaboradas e falíveis teorias de gestão. Não questionaram horários de trabalho, nem condicionaram a prestação de serviço a condições prévias.
Disseram “pronto!”. E agora estão a pagar por isso.

Transcrevem-se, da conhecida carta de Mouzinho de Albuquerque ao Príncipe Luís Filipe, instruindo-o sobre o que é ser militar, duas passagens:
“Ser soldado é dedicar-se por completo à causa pública, trabalhar sempre para os outros”.
“Trabalho gratuito, sempre, porque o vencimento do militar, seja pré, soldo ou lista civil, nunca é remuneração do serviço, por não haver dinheiro que pague o sacrifício da vida”.
Romantismo?

Entre nós, o romantismo anda normalmente associado à pieguice. Nada mais errado: o romantismo está na origem dos movimentos nacionalistas do século XIX e das guerras de libertação da Grécia e das Balcãs, da unificação da Itália, e das nossas lutas liberais. Não com suspiros e queixumes, mas a ferro e fogo. Se a dedicação ao próximo e o amor à causa pública é romantismo, então sejamos românticos…

Nesta guerra há baixas. Não só dos que deram a vida pela sua abnegação, mas dos que sofreram de excesso de trabalho, de separação dos familiares, de isolamento, de ver morrer os outros. Tudo isso traz-nos algo de conhecido, como que recordação, ainda que felizmente atenuada, do ambiente de campanha.
É para os da linha da frente, civis e militares, que se deixa esta última reflexão.
Misto de reconhecimento e solidariedade

Nuno Santa Clara

30.04.2020 - 13:44

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