Conta Loios

colunistas

A teoria das janelas partidas…
Por Nuno Banza
Barreiro

A teoria das janelas partidas…<br />
Por Nuno Banza<br />
Barreiro O conceito a defender diariamente com base nesta teoria é o de criar comunidades limpas, saudáveis e cuidadas, onde um ato de vandalismo por mais pequeno que possa parecer, mereça a atenção devida e a atuação célere das autoridades, de forma a impedir a sua escalada.

Em meados dos anos 80 do século passado, a cidade de Nova Iorque deparava-se com um sério problema de segurança e degradação do património público e do espaço urbano. Iniciou-se nessa altura aquilo a que mais tarde, e pela mão do então Mayor da Cidade Rudolf Giulianni, seria apelidada como "teoria das janelas partidas", um caso sério de sucesso da gestão urbana e da política de cidades, que mantém a sua atualidade e o seu mérito até hoje!
~
Basicamente ele provou que se não se atuasse de imediato numa janela partida, em pouco tempo aquilo que começava como um pequeno ato de vandalismo transformava-se num problema social muitas vezes com destruição de património e ocupação ilegal de espaços abandonados, ou promovendo a degradação de extensas áreas tornando-as interditas á generalidade dos cidadãos, simplesmente pelo medo de as atravessarem.

Com esta política de “tolerância zero” aos pequenos delitos, associada ao investimento na polícia local, que ao contrário do que se possa pensar, não se transformou num terror repressivo mas sim num fator de confiança dos cidadãos na sua cidade, Rudy Giulianni devolveu a cidade aos seus habitantes e inverteu a tendência de degradação do espaço urbano e desvalorização do património individual, reabilitando extensas áreas e acrescentando valor a bairros inteiros. Algumas comparações de valor económico desta medida comprovaram que o investimento nesta abordagem, que teve custos iniciais muito criticados por alguns, foi largamente compensado com a criação de retorno direto pelo aumento do valor do património particular – as habitações nos locais reabilitados passaram a valer em alguns casos 5 a 6 vezes mais do que antes – assim como os custos de manutenção e reparação do património público diminuíram drasticamente, associados ao facto de a perceção de segurança por parte dos cidadãos ter aumentado expressivamente, o que gerou uma utilização muito mais intensa do espaço urbano. E esta utilização do espaço público e sensação de segurança passou a integrar um dos recursos mais valorizados pelos habitantes de Nova Iorque.

Associados à teoria das janelas partidas foram desenvolvidos inúmeros estudos de sociologia urbana, tendo como objetivo interpretar as dinâmicas sociais e populacionais, assim como identificar ferramentas de gestão da cidade que permitam melhorar a qualidade de vida dos seus habitantes e a preservação e valorização do património público e privado.

Numa experiência dessas , a Universidade de Stanford na Califórnia desenvolveu uma investigação através da qual tentava avaliar o efeito de situações fora do padrão comum de convivência dos cidadãos, e relacioná-las com os níveis económico e social das populações que habitam os diferentes espaços urbanos. Nesta experiência deixaram parados por algum tempo dois veículos exatamente iguais devidamente estacionados e fechados, um em Palo Alto, uma zona de população rica e de um estrato social elevado, e no Bronx, uma zona pobre e ocupada por população de estrato social baixo. No caso de Palo Alto, a viatura permaneceu durante vários dias no mesmo local, intacta. No caso da viatura deixada no Bronx, em poucas horas e depois de lhe partirem um vidro, foi quase completamente vandalizada e despojada de todas as peças que poderiam ter valor.

Uma leitura mais imediata deste resultado poderia fazer acreditar que os acontecimentos tinham uma relação direta com o estrato social e a condição económica dos habitantes de cada uma das zonas em estudo. Porém, os investigadores de Stanford introduziram uma nova variável no estudo, para tentar confirmar a conclusão inicial e após uma semana em que a viatura de Palo Alto se tinha mantido intacta, os investigadores partiram um dos seus vidros. Este acontecimento desencadeou em poucas horas exatamente o mesmo fenómeno que havia ocorrido na viatura deixada no Bronx, ou seja, foi da mesma forma completamente vandalizada e despojada de todos os componentes que poderiam ter algum valor.

A questão central descrita pelos investigadores estava em perceber a razão pela qual uma janela partida desencadeava, mesmo em bairros supostamente seguros e sem violência, exatamente o mesmo comportamento que se haviam verificado em bairros pobres e violentos. Era assim óbvio que o gatilho que fazia espoletar o comportamento violento não era o estrato social ou a condição económica, mas sim o efeito que a janela partida tem na perceção social dos habitantes face ao espaço que os rodeia e á forma como valorizam esse espaço. Uma janela partida transmite uma ideia de desinteresse, descuido e despreocupação. Cada ação sobre a viatura assume maior violência e impacte, levando muitas vezes à sua destruição total ou mesmo até a ser incendiada.

Com este trabalho, aqui descrito de forma muito resumida, fundamentou-se cientificamente a teoria das janelas partidas, que sustenta que a violência e o vandalismo assumem maiores dimensões em áreas onde o desleixo, o descuido e o abandono são maiores. Se se parte um vidro de um edifício e ninguém arranja, rapidamente todos os outros serão também partidos e em pouco tempo esse edifício será vandalizado. Transpondo para uma cidade, se os pequenos atos de vandalismo e destruição não forem contrariados, rapidamente ganharão escala e essa cidade se tornará num espaço inóspito para os cidadãos que a habitam.

O conceito a defender diariamente com base nesta teoria é o de criar comunidades limpas, saudáveis e cuidadas, onde um ato de vandalismo por mais pequeno que possa parecer, mereça a atenção devida e a atuação célere das autoridades, de forma a impedir a sua escalada.

Relembrei estes episódios que fizeram parte dos meus estudos de política de cidades, a propósito da limpeza do Túnel da Rua Miguel Bombarda, levada a cabo pela Câmara Municipal do Barreiro. Foi uma excelente medida!!! A esta medida devem seguir-se outras dentro do mesmo género!

Eu gosto de viver no Barreiro e quero continuar a viver e a criar os meus filhos nesta cidade! E ela só será cada vez mais valorizada, quanto maior for o cuidado e a atenção que lhe dermos! É este o caminho! Bom trabalho!

Nuno Banza

07.05.2020 - 19:08

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2020 Todos os direitos reservados.