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Chinesices
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Chinesices<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro Todos temos uma certa simpatia pelos ativistas de Hong Kong. Apesar do passivo da Era Colonial, os europeus ocidentais mantêm um sentimento afetivo para com os antigos colonizados, e, tal com teriam os romanos (se fossem vivos), têm um certo orgulho no legado materializado pelas marcas deixadas no Império.

Não só das instituições e das línguas, mas também de um conjunto de valores que consideramos fundamentais, mesmo que nem sempre ou raramente praticados nos territórios colonizados. Disso deriva aquela simpatia pelos contestatários, que nos aparecem como os defensores desse legado.

A multimilenar China tem outra visão. Plena de orgulho nacional, alimentada por ressentimentos e humilhações sofridas no pico dos imperialismos, confiante na atual pujança da sua economia, digeriu o confucionismo, o nacionalismo, o marxismo-leninismo, o maoismo e mais que fosse, para se lançar num projeto de amplitude mundial, com exemplifica o Belt & Road.
A dupla Nixon-Kissinger achou por bem apoiar a China como contraponto à União Soviética. Taticamente estaria correto, mas estrategicamente foi um erro – um dos muitos cometidos pelas administrações de Além-Atlântico. Confundir a China com uma “república das bananas” só podia sair duma cabeça recheada de preconceitos.

A China reafirmou-se, retomando o seu lugar a nível mundial, diminuído pela sua atitude isolacionista, por azar coincidente no tempo com o expansionismo europeu, lançado na Idade Moderna.
Recuperadas as últimas colónias, Hong Kong e Macau, dir-se-ia que o complexo criado com as Guerras do Ópio e a ocupação japonesa estaria resolvido. Mas eis senão quando surgem os distúrbios em Hong Kong, na defesa (legítima) dos termos do acordo da entrega da colónia.

Tudo estaria bem, se não fossem as formas de ingerência externa. Sobretudo quando os manifestantes empunham bandeiras americanas e da antiga colónia.
Imaginemos qual seria a reação das autoridades locais a uma manifestação em Luanda, Maputo ou Bissau, em que se empunhassem bandeiras portuguesas…
Tratados são farrapos de papel, na curiosa expressão de Theobald Theodor Friedrich Alfred von Bethmann Hollweg, de seu nome completo, Chanceler do II Reich Alemão entre 1909 e 1917.

Em papiro, pergaminho ou papel de arroz, a teoria dos farrapos parece ser universal. Ou seja, ou há forma de garantir o cumprimento dos tratados, ou então trata-se de uma forma airosa de sair de cena pela esquerda baixa, com se diz na gíria do Teatro.
A contestação em Hong Kong ganhou a simpatia do Ocidente, porque representava a salvaguarda da Democracia, como a entendemos, e o respeito pelos tratados.
Mas nem todos os tratados são iguais. Por exemplo, para a atual administração americana, os acordos de Oslo, entre o governo de Israel e a Organização para a Libertação da Palestina, mediados pelo Presidente dos Estados Unidos, não são para cumprir.

A contestação em Hong Kong teve uma espécie de trégua por efeito do coronavírus, mas, uma vez passado o pico da pandemia, o governo de Pequim regressou em força, agravando as condições anteriores. Pode dizer-se que era quase inevitável que tal acontecesse, uma vez que conquistara uma posição mais confortável.
A reação americana não se fez esperar, mas não foi a que se poderia esperar. Além das habituais sanções económicas e interdições a entidades chinesas, Trump decidiu revogar o estatuto especial de Hong Kong. Ou seja, em vez de manter uma via aberta e um raio de esperança para os contestatários, fechou a porta com estrondo.

Pior: quando se (re) organizava a condenação internacional da repressão em Hong Kong, eis que disparam os distúrbios nos EUA, na sequência da morte de um afro-americano às mãos da polícia. Seguindo um padrão universal, as manifestações foram acompanhadas por vandalismo e pilhagem; em Minneapolis, Paris ou Hong Kong, o padrão repetiu-se, desta vez com o efeito perverso de pôr os chineses a dizer aos americanos que, para assistir a desacatos, escusavam de ver a televisão: bastava ir à janela…

E será difícil a Trump recorrer à habitual transferência de culpa, como no caso da pandemia: acusar a China pelos distúrbios nas cidades americanas não parece viável. De modo que, com a sua já lendária veia do improviso, o Presidente apontou o dedo aos anarquistas e anti-fascistas. Os anarquistas foram decerto retirados do Parque Jurássico da Política, uma vez que desde o julgamento e execução de Sacco e Vanzetti, há cerca de cem anos, não se falava deles. O caso dos antifascistas é pior. Depois de todas as homenagens feitas aos Combatentes da II Guerra Mundial, o que os Veteranos ouviram agora do seu Comandante-Chefe deve ter-lhes levantado uma dúvida terrível: afinal, teriam eles combatido do lado errado da Guerra?

Recorde-se que, aquando da devolução de Hong Kong à China, a cidade representava cerca de 18% da economia chinesa; hoje, anda à volta dos 2%. Por força da atitude americana, será provável deslocalização de muitas empresas para Singapura ou para outro “tigre” asiático.
Assim, Hong Kong poderá vir a ser tão importante para a China como o Mónaco ou Andorra para a França.
Deste modo, os empenhados pela Democracia de Hong Kong irão juntar-se a outros que confiaram nas Administrações americanas, como os vietnamitas, os afegãos, os curdos, os sírios, os palestinianos, os turcos, os iraquianos, e ainda outros que têm a decência de se calar.
Como os portugueses.

Nuno Santa Clara

02.06.2020 - 17:40

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