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Iconoclastas
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Iconoclastas<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro A Iconoclastia foi um movimento religioso contra a veneração dos ícones - as imagens religiosas no Império Bizantino - que começou no início do século VIII e perdurou até ao século IX. Entendiam os iconoclastas que a representação de Cristo ou dos santos, em pintura ou escultura, representava um retorno à idolatria.

De certo modo, era um regresso às origens judaicas do cristianismo, uma vez que a representação de figuras humanas, ou mesmo de animais, era proibida pela Lei talmúdica.

Tinham boas razões os hebreus para adorar um Deus abstrato: no caso de serem subjugados, era impossível destruir os seus ídolos, como era a prática da época, e portanto o culto permanecia no interior de cada um. Assim sobreviveram ao cativeiro da Babilónia e ao exílio no Egito, para não falar nos cripto-judeus portugueses que mantiveram a sua fé desde o século XVI até ao Século XX, apesar de separados dos seus correligionários. Como os católicos japoneses de Nagasaki.

A religião ortodoxa retomou a veneração dos ícones. No Ocidente, a veneração de imagens e pinturas da foi posta em causa no início da Idade Moderna pelo protestantismo, tendo como resultado a remoção ou destruição das estátuas que decoravam as fachadas das catedrais e os altares interiores das igrejas reformadas. A Igreja Católica continuou e incrementou o culto das imagens a partir da Contra-Reforma, pelo seu papel importante na orientação dos fiéis, na maioria analfabetos, isto em conjunto com a pregação.

A Revolução Francesa ergueu-se contra a religião no seu todo, com uma consequente componente iconoclasta. Tudo o que se relacionasse com os reis-tiranos ou com o culto nas igrejas deveria ser destruído. Assim foram destruídas muitas das igrejas das abadias, na maior parte românicas e góticas.

O panteão dos reis de França é a Abadia de S. Denis, nos arredores de Paris. Ali estavam reunidos os restos mortais da família real desde o século X, guardados em sarcófagos e outros monumentos funerários de elevada qualidade artística e histórica. Com a sanha revolucionária, os restos mortais foram dispersos e a coleção de sepulturas régias condenada ao camartelo, por um movimento, por nós bem conhecido, de apagar a memória.

Valeu na ocasião a opinião abalizada do arqueólogo Alexandre Lenoir, que conseguiu que todas essas obras de arte fossem recolhidas para integrar um Museu Nacional dos Monumentos Franceses (até para ilustrar os malefícios da Monarquia!), tendo sido preservados e mais tarde devolvidos à Abadia de S. Denis, onde hoje podem ser apreciados.

Tiveram mais sorte que Lavoisier: o criador da química moderna, sendo nobre e tendo estado ligado à cobrança de impostos, foi declarado suspeito e condenado à morte. Quando, no julgamento, foi levantada a questão das suas excecionais competências, o tribunal lançou esta frase para a História: “a Revolução não precisa de químicos”.
Em termos de Património, algo de semelhante se passou entre nós com a extinção das ordens religiosas, depois de 1834, e com a implantação da República, em 1910. Independentemente da motivação política ou religiosa, haveria que preservar a cultura e a memória, e nem sempre assim se passou.

Aparentemente, vem aí uma vaga de iconoclastia, desta vez não movida pela religião, mas por motivos políticos e agravos seculares com base na escravatura, na descriminação e na exploração. Legítima indignação: a escravatura é uma forma extrema da perda da dignidade humana.
Era hábito antigo reduzir os vencidos à escravidão. Ou talvez não tão antigo: os nazis recuperaram essa tradição, aplicando-a aos prisioneiros russos, aos judeus e a outras minorias étnicas.
O Império Romano alimentava-se da escravatura, o que pressupunha contínuas guerras de conquista, em que um dos motivos era obter escravos; findas as guerras, o sistema ruiu.

A escravatura na Idade Moderna tinha por diferença não haver guerras declaradas: as potências ocidentais limitavam-se a alimentar guerras tribais, e a comprar, a baixo preço, os escravos daí resultantes. Por vezes, com maior interferência, como nas “Guerras de Kuata-Kuata” (agarra, agarra!), no interior de Angola, em que o objetivo era fazer prisioneiros, para depois vender na costa.
Este comércio (porque de comércio se tratava) tinha algo de mais perverso que reduzir um inimigo odiado à servidão: era remeter toda uma comunidade ao estatuto de gado, sem outro argumento que não fosse a superioridade tecnológica e o sentimento de discriminação racial.

Se na Europa a escravatura foi sendo progressivamente abolida, nas colónias perdurou até mais tarde, mesmo nos novos estados libertados do colonialismo. Nos EUA foi necessária uma cruenta Guerra Civil para eliminar a escravidão.
Guerra inútil (como é de regra), terão os derrotados plantadores do Sul dos EUA rapidamente concluído: deixaram de ter de comparar e alimentar escravos, passando a contratá-los com salários de miséria, sem mais encargos. Se morresse um, vinha outro, sem despesas. E, quanto a direitos civis e políticos, o Ku Klux Klan encarregou-se de restabelecer a velha ordem…

A um agravo juntou-se assim outro, não apagados século e meio após o fim da Guerra Civil, com se pode ver (e já se viu antes) nas ruas das cidades americanas.
Um racista é como um cão que ladra porque tem medo; o racista odeia porque se sente inseguro, e por isso não pode aceitar uma sociedade aberta e igualitária, onde seria inevitavelmente desvalorizado. Decerto este fenómeno surge noutros confrontos sociais, mas em relação aos negros tem como agravante uma forma fácil de os distinguir.
De um lado a injustiça, do outro a insegurança. E, como sempre, a face visível (ou explorada) é a dos extremos, onde, como se sabe, não brilha a lucidez ou a cultura.

De modo que, por um conhecido fenómeno de massas, surgiu esta fúria iconoclasta, cega e ignara. O caso da vandalização da estátua do Padre António Vieira, o protetor dos índios e dos negros do Brasil, e perseguido pela Inquisição, é um bom exemplo. Bem se podem invocar, para classificar essa ação, as palavras do próprio Padre: ”Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura e informe…” – não houve tempo ou vontade de a aperfeiçoar, como segue no texto. E mais disse, noutro dos seus sermões: “Mas se a cor preta pusera pleito à cor branca, é certo que não havia de ser tão fácil de averiguar a preferência entre as cores, como a que se vê entre os homens”. E ainda “Entre os homens dominarem os brancos aos pretos é força, e não razão, ou natureza”. De onde se conclui que a vandalização da estátua não teve origem numa revisão da História, mas numa lamentável falta de cultura.

Decerto que as estátuas que ornamentam as nossas ruas e praças (bem como a toponímia) são alvo de reciclagem periódica, ao sabor das mudanças de regime político; basta lembrar o que se passou entre nós depois do 25 de Abril. Mas daí ao varrimento sem critério histórico e sem salvaguarda do património vai uma grande diferença.
Para apagar a memória? Parece mais fácil partir e escacar do que ensinar a História, mas os resultados não serão os pretendidos.

O património físico será talvez irrecuperável; mas o imaterial, não.
Porque, ainda que os novos iconoclastas varram da face da Terra o que consideram falsos ídolos ou símbolos perversos, isso não branqueará a História pela dicotomia bom/mau, como o slogan de Orwell em Animal Farm, “quatro pernas bom, duas pernas mau”; na nossa mente perdurará toda a memória daqueles valores, como com sucedeu com os judeus transmontanos e com os cristãos de Nagasaki.

Nuno Santa Clara


16.06.2020 - 11:05

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