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Horizontes sem glória
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Horizontes sem glória<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro Stanley Kubrick foi um dos melhores realizadores de todos os tempos, tendo deixado um legado de excelentes filmes.

O talvez menos conhecido seja Paths of Glory (Horizontes de Glória, na tradução portuguesa), de 1957. Filme polémico, que foi proibido em vários países e que não passou nos circuitos comerciais de França (onde não há Censura, mas é como as bruxas: que las hay, hay).

O argumento é simples: durante a I Guerra Mundial, no ambiente das trincheiras francesas, um general ambicioso decide um ataque suicidário, que não alteraria o curso da Guerra, mas que, se tivesse sucesso (improvável), lhe daria fama e promoção. Tenta motivar um comandante de regimento com iguais argumentos, mas este limita-se a cumprir as ordens, ainda que absurdas. Os soldados no terreno deparam-se com uma posição fortificada, suspendem o assalto, são acusados de cobardia e é-lhas aplicada a velha receita das legiões romanas, em que da unidade que se portasse mal eram mortos um em cada dez militares (eram dizimados). No filme, uns quantos soldados foram tirados à sorte e fuzilados para exemplo.

O problema é que Kubrick não inventou nada: foram muitos os casos de tirage au sort, em que a sentença de morte foi aplicada por sorteio, depois de motins das trincheiras em 1917, em resultado das péssimas condições de vida, da constatação do fracasso das táticas repetidamente usadas, da inutilidade dos ataques e do sentimento de que os soldados eram “carne para canhão”, expressão criada na altura.

Sem dúvida uma página negra da História, ocultada durante a Guerra e até depois dela. Mesmo em 1957, data da realização do filme, as reações foram vivas.

Na impossibilidade de apagar a memória, a recordação da carnificina marcou o tempo entre as I e II Guerras Mundiais, dando origem a sentimentos opostos, como o revanchismo e o pacifismo.

Mas, pelo menos, pareceria ter ficado afastada a possibilidade de um chefe ambicioso usar os seus homens como produtos descartáveis, em proveito das suas ambições. Ou, pelo menos, assim devia ser…
Nesta nova guerra dado COVID-19, são constantes os apelos à solidariedade, à sensatez, ao civismo, enfim a um conjunto de valores que todos prezamos e que agora se apresentam tanto como um imperativo moral, como um requisito de eficácia. Daí as desagradáveis imposições legais de confinamento, e o empenhamento das forças da ordem em as fazer cumprir.

A postura dos dirigentes tem sido seguida com atenção. E, como a mulher de César, não basta ser sério: é preciso parecê-lo. Cá pela Europa, alguns políticos perderam o cargo por desrespeito das normas de segurança coletiva. Mas, além Atlântico, parece que as coisas são diferentes.

Boris Johnson, um cético convertido, passou a respeitar as normas, empenhou-se em que todos as cumprissem, elogiou quem dele cuidou (incluindo um enfermeiro português) e não esqueceu que os prestadores de saúde corriam riscos elevados.
Donald Trump, cada vez mais obcecado com a problemática reeleição, não hesitou em sair do Hospital sem cumprir a quarentena obrigatória e passeou de carro blindado junto aos seus apoiantes. Decerto não os contaminou, mas o mesmo não se pode dizer do pessoal de saúde e dos seguranças, obrigados, por dever de ofício, a participar na campanha eleitoral, ao preço de uma provável contaminação.

Deu assim a imagem do Super-Homem, resistente a tudo – mesmo ao vírus que matou mais de 210.000 dos seus concidadãos. E não faltou o aspeto mediático de uma dezena de batas brancas atrás dele, contribuindo para essa lenda – num país desprovido de Serviço Nacional de Saúde, em que milhões de cidadãos não têm um médico a quem recorrer…
Depois regressou triunfalmente à Casa Branca. Não será mal de maior, porque já estava contaminada. Resta saber o que acontecerá a quem tiver de lá ir, e se perderá o emprego por usar máscara.

Arriscar a saúde, ou mesmo a vida, dos seus colaboradores e subordinados para montar um espetáculo é algo semelhante ao inclassificável ataque do general francês criado por Kubrick. Não com a mesma gravidade, felizmente, mas com o mesmo espírito.

A Casa Branca, nas próximas semanas, ficará, em termos de funcionalidade, semelhante a um lar de terceira idade contaminado da nossa terra. Ou pior: passará a ser um centro de irradiação da pandemia, se forem seguidos os conselhos do Grande Inquilino.
Em termos de eficácia governativa, não haverá grande alteração: o País não ficará ingovernável, porque já está ingovernado. Quando os membros do Governo e demais administração passam a vida a remendar os efeitos desastrosos dos Twittes do Presidente, compreende-se o porquê da questão.

À medida que a eleição se aproxima, e as sucessivas tentativas de a adiar, desvalorizar ou impedir se desvanecem, compreendem-se melhor as estranhas manobras de Donald Trump.
Não sabemos se ele tem a noção do Julgamento da História; mas devia ter a noção do julgamento em tribunal comum (em Democracia, não há crimes políticos).
De modo que o mais provável é um futuro de horizontes… sem glória.

Nuno Santa Clara

nota - Durante a Primeira Grande Guerra, o general francês Paul Mireau ordena um ataque suicida contra os alemães e que resulta em tragédia. Para abafar sua participação no incidente, o general que ordenou o ataque atribui o fracasso a três soldados, que são julgados e condenados à morte. O Coronel Dax vai defendê-los no julgamento.

09.10.2020 - 16:20

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