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Um Mandato indeclinável
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Um Mandato indeclinável<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro O apelo, ou a tentativa de tornar as almas mais pequenas, parece ter voltado em força, não tanto neste País, mas por todo o Mundo. O que é o populismo, senão o apelo à mesquinhez, ao racismo, à intolerância, à xenofobia? Ou seja, à pequenez das almas?

Presunção e água benta, cada um toma a que quer, diz o velho ditado.
Parece que a legitimidade também. Basta lembrar aqueles discursos dos tempos da Outra Senhora, em que o Homem Providencial, com trejeitos de humildade, aceitou, repetidas vezes, o mandato indeclinável que as Forças Vivas da Nação lhe apresentavam, em salva de prata com toalhinha de renda – como mostra do nível artesanal, austero e rural em que o
País devia permanecer.

Sophia de Mello Breyner, num dos seus poemas, lançou uma espécie de fábula:

“O velho abutre é sábio e alisa as suas penas
A podridão lhe agrada e seus discursos
Têm o dom de tornar as almas mais pequenas”.

No País da Censura, toda a gente compreendeu a fábula, e identificou o abutre.
O apelo, ou a tentativa de tornar as almas mais pequenas, parece ter voltado em força, não tanto neste País, mas por todo o Mundo. O que é o populismo, senão o apelo à mesquinhez, ao racismo, à intolerância, à xenofobia? Ou seja, à pequenez das almas?

Os regimes ditatoriais arrogam-se de uma legitimidade que passa ao lado da livre expressão dos cidadãos, através de instituições laboriosamente construídas, muitas vezes com pesados sacrifícios.
Mesmo o regime nazi, chegado legalmente ao poder (penso que foi o único a lá chegar por esse via) não teve uma maioria de votos que justificasse essa tomada do poder maioritário, quanto mais absoluto.

Vemos agora nos EUA uma movimentação de massas com o intuito de contornar as eleições. Perdido o argumento da fraude (só existente nos Estados em que Trump perdeu!), perdidos os apoios externos (incluindo a traição de Netaniahu), perdidas as recontagens, agravado o fosso do voto popular, só resta contestar o sistema em bloco.

Uma breve análise dos últimos atos da Administração Trump e dos seus indefetíveis pode dar algumas indicações (aquilo que nas informações militares se chama os “indícios técnicos”).

A demissão do Secretário da Defesa e os rumores de que a diretora da CIA tinha caído em desgraça levam a crer que houve oposição a aventuras externas (um recurso clássico para a baixa de popularidade).
A consonância das palavras de ordem com as declarações do círculo dos próximos, ao estilo “em Janeiro haverá segundo mandato”, “venceremos”, “eleições roubadas”, apontam para uma tentativa de saída não institucional, para usar um eufemismo.

Pelo que a velha cena do Homem Providencial, agora aceitando na varanda da Casa Branca o Mandato Indeclinável que lhe é oferecido (desta vez sem os trejeitos de humildade), não é de excluir por completo.
Será este o grande desafio às instituições da maior potência política, económica e militar, do planeta.
Mas será também, esperemos, o virar de uma página.

Conta-se do General de Gaulle, que tinha um humor por vezes feroz, que um dia um seu apoiante ferrenho encetou um discurso em que dizia que o gaullismo era o único futuro da França. O General interrompeu-o e perguntou: mas o que é isso do gaullismo?

Pois aqui é que está o problema: até pode haver gaullismo sem de Gaulle; o que não há é trumpismo sem Trump.

Nuno Santa Clara




15.11.2020 - 15:13

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