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A lira e o taco
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

A lira e o taco<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro Diz-se que Hitler, à beira do fim, terá desabafado qualquer coisa como “o povo alemão merecia a destruição, porque não esteve à altura do seu Chefe”. Também se diz que Nero, quando decidiu (sensatamente) suicidar-se (uma saída nobre entre os romanos), no último momento hesitou, dizendo: que artista vai morrer! Um escravo ultrapassou esse obstáculo e completou a tarefa.
A História repete-se, dizem, mas com algumas variantes.

A lira e o taco

Os mais velhos lembram-se decerto do filme Quo vadis, uma produção de uma fase religiosa de Hollywood, baseado no romance homónimo do escritor polaco Henryk Sienkiewicz, este decerto mais esquecido, ou menos conhecido, por não ser mediático.

Até tinha uma glória lusa: no filme, o forcado Nuno Salvação Barreto dobrou o gigante cristão Ursos na luta com um toiro, para salvar Lígia, sua protegida, amarrada a um tronco, devidamente vestida, e não nua, como no romance.

Do reinado de Nero ficou também a imagem do imperador tocando a sua lira e a cantando, em jeito de epopeia, o espetáculo pavoroso do incêndio de Roma.

Verdadeira ou não, a estória passou para o nosso imaginário, como exemplo do tirano desprovido de sentimentos, que tira partido até do sofrimento alheio para seu próprio gozo, ou, no mínimo, que ignora as desgraças do seu povo, não vão elas desviá-lo dos seus intentos.

Diz-se que Hitler, à beira do fim, terá desabafado qualquer coisa como “o povo alemão merecia a destruição, porque não esteve à altura do seu Chefe”. Também se diz que Nero, quando decidiu (sensatamente) suicidar-se (uma saída nobre entre os romanos), no último momento hesitou, dizendo: que artista vai morrer! Um escravo ultrapassou esse obstáculo e completou a tarefa.
A História repete-se, dizem, mas com algumas variantes.

Na soap opera das eleições americanas, dir-se-ia que alguém se foi inspirar no filme, mas decerto não no livro.
O Grande Líder, em nome do qual os apoiantes se confrontam nas ruas, com algumas cabeças partidas e outras tantas prisões (por agora), não foi tocar lira e cantar odes; ele nem é dotado para a música.
Como sucedâneo, foi jogar golfe. No pico da crise que ele próprio desencadeou, ausentou-se, não para a colina do Capitólio, com vista para a crise, mas para um campo de golfe, movimentando o corpo e espairecendo o espírito, como convém a quem tem de tomar grandes decisões.

Como os generais da I Guerra Mundial, que achavam conveniente ficar à retaguarda, a fim de poder decidir de cabeça fria o destino de milhões de militares enterrados na lama putrefacta.
Trump nisso foi coerente consigo mesmo. Tal como foi quanto da Guerra do Vietname, quando pediu vários adiamentos de incorporação, até que a guerra acabou. O que não o impediu de insultar o seu rival de partido, o senador John McCain, herói nacional da guerra da qual ele fugiu.
E porque não? O “sal da terra” não deve ser derramado por areias, selvas e arrozais, quando há tantos candidatos, voluntários ou não, para serem imolados no altar da Pátria.

E assim temos, com quase vinte séculos de diferença, algo de semelhante. Muitos destinados a morrer, uns poucos prontos a recolher os louros (e o espólio).
E assim temos Nero com a sua lira, e Trump com o seu taco de golfe.

A lira desapareceu no tempo, mas o taco deve andar por aí. O de golfe, claro, porque vamos a ver o que se passará com os problemas do outro “taco”, o dos contribuintes americanos.
Diria mesmo que conviria começar a praticar um desporto próprio de espaços confinados, como o snooker americano ou os lusos matraquilhos.

Nuno Santa Clara

25.11.2020 - 11:00

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