Conta Loios

colunistas

Barreiras vencidas (conto)
Por Jorge Fagundes
Barreiro

Barreiras vencidas (conto)<br />
Por Jorge Fagundes<br />
Barreiro Em Janeiro de 1956 Ana Cristina começou a ir para Lisboa, no barco das oito, a tempo de chegar a horas ao seu primeiro emprego como caixeira numa loja de modas na baixa lisboeta.

Nesse mesmo horário do barco, mas desde Outubro anterior, também viajava Pedro Miguel, estudante do segundo ano do Instituto Industrial.
Uma vez por outra, e por mero acaso, ficaram sentados em frente um do outro. E assim começaram a dar os bons dias e, pouco a pouco, a manter conversa.
Numa fase inicial, sentados lado a lado, ficaram a saber os nomes de cada um, onde nasceram e moravam, as idades e as respectiva famílias.
Ana Cristina era muito bonita, morena de olhos castanhos, contava dezanove anos e tinha nascido, tal como sua mãe, num rés-do-chão de uma casa de seus avós situada perto da Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Era filha única e seu pai, natural de Palhais, era factor dos caminhos de ferro e sua mãe era modista de alfaiate.
Pedro Miguel era alto, cabelo alourado, olhos azuis, tinha vinte anos, também filho único de um casal tal como ele de nascidos no Barreiro, o pai era encarregado numa oficina da CUF e a mãe era, como então se dizia, doméstica.
O tempo foi passando, as conversas entre ambos começaram a ser mais pessoais e, a partir de certa altura Pedro Miguel acompanhava Ana Cristina, já de mãos dadas, até ao emprego dela.
Pretendendo oficializar o seu namoro dele falaram nas suas casas e pediram aos progenitores a devida autorização.
No entanto, esbarraram numa dupla negação.
Acontecia que o pai de Ana Cristina era associado dos Penicheiros( ali tinha conhecido a futura mulher num baile do fim do ano) e o pai de Pedro Miguel era associado dos Franceses.
E como os respectivos pais tinham sido músicos das bandas dessas colectividades as famílias eram conhecidas e, curiosamente, as mães de Ana Cristina e Pedro Miguel tinham feito a escola primária na Conde Ferreira.
A rivalidade entre as duas colectividades barreirenses era muito antiga e dada a extremos, pelo que os pais deles não aceitaram o namoro nem, muito menos, o pretendido futuro casamento. E mais: disseram aos filhos que não mais se deveriam encontrar e, se o fizessem, os considerariam como não fazendo parte da família.
Ana Cristina e Pedro Miguel, embora não se conformando com as exigências paternas, não mais se voltaram a sentar-se juntos no barco para Lisboa mas, sempre que podiam, encontravam-se às escondidas.
Mas era por demais evidente o desgosto e a frustração que ambos partilhavam quanto a não ser permitido o seu namoro. Pedro Miguel passava o menos tempo possível em casa e Ana Cristina andava pálida, mal se alimentava, emagrecia a olhos vistos e a mãe ouvi-a chorar todas as noites no seu quarto,
Por essa razão tomou a decisão de se dirigir ao Bairro das Palmeiras à residência da sua antiga colega de escola, a qual ficou muito admirada por a ver, mas não lhe negou a entrada.
Conversaram longamente, olhos nos olhos, e chegaram à conclusão do absurdo que era não deixarem os seus filhos concretizar o seu amor.
Nessa noite falaram com os maridos, a princípio muito renitentes, mas que acabaram por com elas concordar.
Na semana seguinte Pedro Miguel e Ana Cristina foram apresentados aos respectivos progenitores e o seu namoro devidamente autorizado.
Em 1957 Pedro Miguel acabou o curso com elevada classificação, e empregou-se numa grande empresa industrial na Amadora.
Em Fevereiro de 1960 casaram-se na Igreja de Nossa Senhora do Rosário e foram morar para um andar arrendado no Alto do Seixalinho.
No dia seis de Janeiro de 1961 nasceu o primeiro dos seus três filhos (dois rapazes e uma rapariga) a quem deram o nome de Paulo Alexandre, o mesmo dos seus pais.
E, como é costume dizer-se, foram felizes para sempre!

Jorge Fagundes

04.01.2021 - 14:49

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2021 Todos os direitos reservados.