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As Marchas
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

As Marchas<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro Para os habitantes de Lisboa e seu termo, e para as vítimas da globalização televisiva, as Marchas Populares são o melhor exemplo da tradição inventada e, a partir daí, quase imposta.

As Marchas Populares de Lisboa remontam apenas a 1932, quando foram organizadas em formato competitivo (dizem que por emulação das Escolas de Samba, do Rio de janeiro), sob orientação do polifacetado e profícuo Leitão de Barros. Curioso é que, numa cidade milenar, viesse a ser considerada “uma das mais antigas e crescentes tradições da cidade de Lisboa”. Milagres do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), criado em 1933, sob a égide do não menos polifacetado e não menos profícuo António Ferro (passando a adotar a designação se Secretariado Nacional de Informação (SNI) em 1945.

Estas pacíficas manifestações, com um incontestável glamour kitsch, lá se têm mantido, sobrevivendo a tempos, modas e até a regimes políticos. Notável prova de resiliência!

Mas outras Marchas houve, como a famigerada Marcia su Roma, feita pelo então nascente Partido Nacional Fascista, sob o comando de Benito Mussolini. Em 28 de Outubro de 1922, dezenas de milhares de militantes fascistas reivindicaram “apenas” o governo da Itália. Hoje sabe-se que Mussolini estaria preparado para fugir, caso o rei Vítor Emanuel III declarasse lei marcial, mas isso não aconteceu, e foi o que se viu.

A receita provou ser eficaz, e até nem constituía novidade: em Espanha e Portugal, no século XIX (enão só), revoltas, pronunciamientos, quarteladas e marechaladas eram moeda corrente. Era, portanto, mais do mesmo, mas com uma conotação ideológica mais precisa.

No fundo, a questão é sempre a mesma: desautorizar as instituições, contornar os sistemas, e impor o domínio pela força.
Julgava-se que esta “tradição”, tão enraizada que chegou a ser considerada como uma componente da cultura dos povos de raiz mediterrânica, estaria erradicada, no caso da Península Ibérica, pelo 25 de Abril e pela Movida espanhola. Mas, como se tem constatado aqui e ali, há sempre focos latentes, como se constatou pela célebre carta dos 73 generais e coronéis espanhóis.
Segundo o princípio do determinismo, as mesmas causas, nas mesmas circunstâncias, produzem os mesmos efeitos. Isto é exato na Física ou na Química, e mesmo nas Ciências Sociais é aceite, se bem que com menos rigor, face ao volume de variáveis. E, na Política, o grau de incerteza aumenta, sem que o princípio seja posto em causa.

Posto isto, será que, nas sociedades com Democracia enraizada e consolidada por mais de um século de vivência, uma deriva tipo Marcia su Roma poderia acontecer?

Quando se vê o tipo de mobilização e as palavras de ordem para a concentração de apoiantes de Donald Trump prevista para hoje, em Washington, o cenário da Marcia parece plausível.

Vejamos as causas e as circunstâncias. Trump começou a desvalorizar o ato eleitoral há mais de seis meses, na previsão (acertada) de uma derrota eleitoral. Começou por nomear para os Correios um apaniguado seu, para entravar o voto por correspondência; a manobra foi denunciada, e o sistema prevaleceu – com um leve toque de suspeita introduzido. De fato, depois das eleições as tentativas de anulação destes votos foram muitas – embora só nos círculos onde Trump perdeu. O que dá uma boa amostra de dois pesos e duas medidas…

Seguiram-se tentativas de provocar uma intervenção militar no exterior, gorada pelo Pentágono; de impugnação dos resultados, desmontada pelas instâncias judiciais; de suborno de um funcionário estadual, denunciada pelo próprio; de tentativa de imposição da lei marcial nos Estados Federais onde perdera, recusada por todas as instâncias; de bloqueio do reconhecimento dos resultados eleitorais pelo Congresso, gorada pelo civismo da maioria dos eleitos; e outras menores, que até nos escapam.
No caso do Congresso, na chefia dos apoiantes do ainda Presidente para a impugnação das eleições ficou Ted Cruz – o mesmo que Trump insultou copiosamente, durantes as primárias, como é seu hábito, cada vez que alguém o contraria. Este Senador do Texas ganhou assim o zoológico estatuto do Invertebrado…

Mesmas causas, mesmos efeitos. Esgotados os meios legais, vamos pelos outros, e daí a convocação da manifestação de apoio, com slogans do tipo “tragam as armas”.
Ou seja, uma Marcha sobre Washington.

O Governador de Washington D. C. convocou a Guarda Nacional para manter a ordem (ao contrário de Vítor Emanuel III).
Esperam-se as cenas dos próximos capítulos.
Quanto ao ainda Presidente, será fácil de localizar: estará à frente da televisão, ou num campo de golf, enquanto durar a refrega.
Só que, desta vez, não será decerto uma Longa Marcha…

Nuno Santa Clara

06.01.2021 - 19:01

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