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Bananas e Repúblicas
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Bananas e Repúblicas<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro Na sequência do assalto ao Capitólio, e na onda das condenações (e do silêncio dos apoios), o ex-Presidente George W. Bush deixou uma frase para a História: "os resultados das eleições são contestados apenas em repúblicas das bananas e não na nossa república democrática.

A estória torna-se tanto mais interessante quanto Bush é do Partido Republicano, e suficientemente “falcão” para ter desencadeado a II Guerra do Golfo, com mais pretextos que razões, como hoje se sabe.

A expressão “República das bananas” foi criada por William Sydney Porter, escritor popular americano (1862- 1910), com o pseudónimo de O. Henry. Referia-se aos países latino-americanos politicamente instáveis, varridos periodicamente por golpes de estado, controlados a um país rico e forte (normalmente, os EUA) e com governantes corruptos e opressores.
Donald Trump introduziu um novo conceito, o de “shithole country” (que nos escusamos de traduzir), que alargava esse desprezo a tudo o que cheirasse a Sul, ou ao continente africano.

A frase assassina de Bush foi certeira. Para um país que se arrogou de “Polícia do Mundo”, de “Fiel Depositário da Democracia” e de “Pai da Democracias Modernas” (para citar ao apenas alguns), os acontecimentos do Capitólio foram uma catástrofe, sendo necessário recordar Pearl Harbour ou o World Trade Center para encontrar algo com um impacto que os ultrapasse.

Só que as “República das bananas” têm algo que os EUA não têm.
Os povos sujeitos a epidemias guardaram alguma imunidade às doenças que as provocam. Os que a não têm podem correr risco de colapso, ou mesmo de extinção. Foi o que aconteceu com os índios das Américas, com a gripe ou a varíola, introduzidas pelos europeus (em certo caos, deliberadamente, como guerra biológica).

Da mesma forma, as “Repúblicas das bananas” desenvolveram alguma certa forma de sobreviver aos golpes de estado endémicos. Não só nas Américas: nós, ibéricos, adquirimos também essa resiliência. Foi talvez por isso que Otto Von Bismark, o Chanceler de Ferro, disse que estava absolutamente convencido de que “a Espanha era o país mais forte do mundo: século após século tenta destruir-se e não há maneira de o conseguir”.
Ora, a tentativa de golpe de estado que foi a invasão do Capitólio – porque é assim que deve ser considerada – brilhou pela inépcia. Nem outra coisa seria de esperar, se atendermos às “qualidades” do mentor confesso, e logo a seguir renegado, da ação.
Parênteses: sobre a cambalhota mediática, com um pouco de boa vontade, pode-se imaginar que o ostentador da Bíblia frente à Episcopal de São João, junto à casa Branca, ter-se-ia lembrado, ou alguém lhe lembrou, que S. Pedro renegou Cristo por três vezes no mesmo dia, e nem por isso deixou de ser o primeiro Chefe da Igreja.

É certo que, quanto a esclarecimento dos factos, a procissão vai no adro, mas o que até aqui se viu dá-nos a ideia de uma mistura de Folclore e Carnaval – se não fossem cinco mortes à mistura.
Naquele ambiente de improviso, não seria de esperar que alguém tivesse lido o clássico “Técnica do Golpe de Estado” de Curzio Malaparte , ou mesmo algum manual dos muitos que por aí abundam. Ou sobretudo pela experiência dos serviços americanos, em promover golpes de estado em terra alheia. A técnica foi a de um jogo tipo casados contra solteiros, ou seja, tudo ao molho e fé em Deus.

De modo que entramos numa fase de rescaldo.
Procuram-se os assaltantes, tarefa fácil atendendo ao espírito de “guerra ganha” das criaturas, de cara descoberta, fatiotas conspícuas e ademanes triunfalistas. Reforça-se a segurança da tomada de posse do novo Presidente, com milhares de Guardas Nacionais.
Mas algo ficou.
Ficou a crise institucional, que ensombrará a América por muito tempo; tempo de pensar na forma de viver e aprofundar a Democracia, e tempo de repensar a forma de escolher quem deve representar o Povo.
Ficou o ressentimento dos que viram em Trump um líder conotado com as suas ideias, e o viram dar o dito por não dito (se o conhecessem melhor, não estranhavam).

Ou seja, afinal era um banana. Para esses, a luta continua, e só poderá endurecer.
O que é grave num País com um record de Presidentes assassinados: quatro em quarenta e cinco.
Voltando ao velho Bismarck, tão admirado por Henry Kissinger, ele disse também que “há uma Providência que protege os idiotas, os bêbados, as crianças e os Estados Unidos da América”.
Esperemos que tenha razão.

Nuno Santa Clara

17.01.2021 - 20:33

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