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Relatório de Primeiras Impressões
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Relatório de Primeiras Impressões<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro Assim se designa, na gíria castrense, um relatório sumário, feito após algo de significativo, como uma operação militar.
Em cima dos resultados das recentes eleições presidenciais, só podem ser feitos relatórios deste tipo. Longos meses decorrerão até que os resultados das eleições se traduzam em táticas, e sobretudo estratégias, baseadas na consulta popular.

No nosso folclore político, é raro haver perdedores. Por estranho que pareça, todos ganharam, o que, do lado da experiência, é verdadeiro. Quanto ao resto…
Uma leitura imediata foi já proposta: a Direita ganhou. Ponto.

De facto, tudo indica que sim: a Esquerda, sempre dividida, não apresentou um candidato credível. Ana Gomes surgiu como outsider, porta-voz dos descontentes do PS, misturada com um projeto pessoal e com uma reivindicação de género, fora de tempo.
Mais uma vez, constata-se que a Tática pode ser inimiga da Estratégia: ganhar a curto prazo pode custar caro no futuro.
A grande inovação foi o Chega!, sob a batuta (visível) de André Ventura. Alarmam-se as gentes, mobilizam-se as hostes, mas o fenómeno está aí: foi o terceiro mais votado, embora aquém da solene promessa de ultrapassar Ana Gomes.
Mas será mesmo que a Esquerda foi derrotada?

Na confusão das coligações, tácitas ou expressas, fica a questão da divisão dos votos. Tanto se pode argumentar que a Direita levou tudo, como que, sem parte do PS (pelo menos), Marcelo Rebelo de Sousa não teria sido eleito, pelo menos à primeira volta.
Portugal é um país estranho. Para quem viveu o 25 de Abril, e o que de imediato se seguiu com um mínimo de atenção, ficou sempre uma questão em aberto: afinal, onde estão “eles”? Parece que ninguém se preocupou com isso.

Recordemos Alphonse Daudet, o romancista francês de fino humor, apaixonado pelo seu Languedoc natal, que não deixou de caricaturar, no seu excelente Tartarin de Tarascon. O anti-herói teme uns inimigos obscuros, considerados terríveis, pelo que se arma até aos dentes, à espera que “eles” venham. Nunca vieram.
Como tão bem definiu Fernando Pessoa, no seu poema “Liberdade”:
… Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Mas “eles” afinal, sempre apareceram, ao fim de duas gerações. Integrados numa corrente, multifacetada na Europa, recentemente derrotada na América, mas resiliente. Ou seja, estão para ficar – no lugar onde sempre estiveram, com mais ou menos visibilidade. No caso português, envoltos nas brumas, não “as da memória”, de sabor republicano, mas as do Reino da Traulitânia.
Numa primeira impressão, o que se pode dizer?

Ana Gomes teve um papel positivo: ficou à frente “deles”, lançando a confusão nas hostes, e demonstrando que, mesmo dividido, o Partido Socialista mantém a capacidade de orientação do País.
Quanto a “eles”, se se fizer uma análise sociológica distrito a distrito, ou mesmo concelho a concelho, estão onde sempre estiveram. Tal como crisálidas, metamorfosearam-se em insetos perfeitos.
As metamorfoses decorrem de ciclos, normalmente anuais, de modo a ocorrerem na época ideal.
Neste caso, em tempo de pandemia, de intervenção dos Estados na Economia, do relançamento dos Serviços Nacionais de Saúde, multilateralismo, da abertura ao Mundo, do abrandar das tensões, parece que estas crisálidas despertaram fora de tempo.
É a Vida!

Nuno Santa Clara

26.01.2021 - 20:09

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