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Velharias
por Nuno Santa Clara
Barreiro

Velharias<br />
por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro Iniciamos com a invocação das velharias, coisas de há mais de um século que merecem voltar à ribalta. Nacos de poesia satírica e de história esquecidos.

Ó cínica Inglaterra, ó bêbeda impudente,
Que tens levado, tu, ao negro e à escravidão?
Chitas e hipocrisia, evangelho e aguardente,
Repartindo por todo o escuro continente
A mortalha de Cristo em tangas d’algodão.

Assim começa um contundente poema de Guerra Junqueiro, concebido no período agudo da questão do Mapa Cor-de-Rosa e do Ultimatum inglês. Além de belos trechos de poesia e prosa, dessa época herdámos também o atual Hino Nacional, antes hino republicano.
Não se quedou Junqueiro por este poema; outro, dedicado ao rei D. Carlos, não fica atrás em violência:

Eu, rei de Portugal, súbdito inglês, declaro
Que à nobre Imperatriz das Índias e ao preclaro
Lord Salisbury entrego os restos duma herança
Que dum povo ficou à Casa de Bragança,
Dando-me, em volta, a mim e ao príncipe da Beira
A desonra, a abjeção, o trono... e a Jarreteira…

Estas diatribes são o fruto de uma época de exacerbado sentimento antibritânico, dada a forma como o Reino Unido tratava o seu teoricamente mais antigo e fiel aliado. Esse sentimento é resiliente: serviu de bandeira aos republicanos, aos integralistas, aos socialistas, aos nacionalistas e ainda hoje ressurge, cada vez que surge algum agravo, real ou imaginário. O próprio Salazar, ancorado em política externa no Tratado de Windsor, teve os desgostos de ver o Reino Unido programar ações de sabotagem em território nacional durante a II Guerra Mundial, planear a invasão dos Açores, não intervir na invasão do Estado da Índia e apoiar os movimentos de libertação das Colónias.

Além dos agravos nacionais, há os regionais. Um bom exemplo é o caso dos sanatórios da Madeira – outra velharia que convém recordar.
Um grupo alemão, encabeçado pelo príncipe de Hohenlohe, propôs em 1903 ao governo português um (à época) megaprojeto de infraestruturas de saúde, orientadas para a cura da tuberculose. Este projeto inseria-se no conceito da época da cura através dos sanatórios, divididos entre os de montanha (como em Davos) e os do litoral (como em Nice). E a Madeira tinha as duas coisas num espaço reduzido, o que não deixava de ser aliciante.

Obtida a aprovação do Governo Português, e com o apoio da Rainha D. Amélia, patrocinadora da Assistência Nacional aos Tuberculosos, em 1904 chegou ao Funchal uma comitiva de especialistas, tendo escolhido uma frente de mar para um sanatório para os mais abastados, e um local na encosta, perto do Monte, mais concretamente no sítio dos Marmeleiros, para um sanatório popular.

Só que esta iniciativa chocou de frente com a posição inglesa de impedir investimentos alemães em áreas consideradas críticas, e com os interesses da comunidade britânica na Madeira, que quase detinha o monopólio do turismo.

Os alemães tinham planeado comprar as quintas Vigia, Pavão e Bianchi (onde está o atual Casino) para a instalação de um “hotel de cura”, projeto contemplando, além do edifício central, jardins, banhos de mar e até vilas para quem quisesse (e pudesse) ficar mais isolado.
Porém, a empresa Reid adiantou-se e comprou a quinta Pavão, inviabilizando o processo.
Por outro lado, foi exercida pressão sobre o Governo Português até conseguir a anulação do contrato com o príncipe Hohenlohe em 1909, ficando as indemnizações a cargo do Estado, que acabou por as adquirir os terrenos, que vieram a ser aproveitados para um hospital, único na Ilha até à construção do atual Hospital Regional

Foi o Ultimatum dos madeirenses…

Curiosamente, uma questão surgida com a atual pandemia veio relançar o sentimento antibritânico. Vistas as coisas a frio, é difícil compreender por que razão o Reino Unido exportou para Portugal dezena e meia de milhar de apoiantes, com o habitual cortejo de desacatos, para um jogo que, a bem ver, teria todas as vantagens de ser disputado em Inglaterra – e não seria difícil obter tal decisão, não fora o nacional empenho em que o jogo decorresse no Porto. E, ao que parece, os ingleses regressaram sãos e salvos, miraculosamente escapados ao contágio num País logo a seguir votado ao ostracismo pela retirada da lista verde.

Algo de estranho nisto. Se atendermos aos números atuais da pandemia no Reino Unido, não seria descabido que a medida tivesse sido tomada em sentido contrário, ou seja, condicionar a entrada de ingleses, com destino ao Algarve, à Madeira ou ao Dragão.
Por outro lado, um dos perigos anunciados pelo Governo de Sua Majestade foi a existência de uma estirpe nepalesa do Covid, demonstrando assim bom conhecimento de Portugal: os nepaleses foram notícia, e dos indianos por cá não se fala. Mas conviria que o mesmo Governo tivesse em atenção a Brigada dos Gurkhas nepaleses…

Vieram entretanto as guerras Lisboa-Porto, Sporting-Porto, Polícia-Governo, médicos-políticos, comum dos cidadãos-gente importante e autarquias-governo, para citar as principais.
Foi por diversas vezes dito que o combate à pandemia era uma guerra. E há que assumir que travar uma guerra pressupõe união interna.

Numa guerra a sério, a traição é punida com a pena de morte. Mas muito portuguesmente, nesta guerra até se torna difícil interromper uma festa ilegal, aplicar uma detenção ou mesmo uma multa, sem incorrer no labéu do totalitarismo. É como na guerra do Solnado: fiz um prisioneiro, mas ele não quis vir…

A Inglaterra dominou a Índia através da divisão e das rivalidades; e a nossa questão será resolvida da mesma forma, já que Restauração e Hotelaria estão de candeias avessas com a Saúde Pública, os clubes estão a favor ou contra segundo os seus próprios interesses, e as câmaras e o Governo variando de posição em função de festas e romarias.

Do turismo terapêutico ficaram algumas coisas boas, com se pode constatar em Davos ou em Nice, ou até pelo Hospital dos Marmeleiros.
Decerto não estamos ameaçados por navios de Sua Majestade ou por retaliação direta económica e política.
Mas parece que dois Ultimatos externos e dois confinamentos internos não chegaram para nos ensinar grande coisa.
É o que acontece quando se esquecem as velharias.

Nuno Santa Clara


11.06.2021 - 17:14

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