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GOVERNANTES E GOVERNADOS
Por Emanuel Góis
Barreiro

GOVERNANTES E GOVERNADOS<br />
Por Emanuel Góis<br />
Barreiro Não vou mentir se disser que sou um acérrimo cidadão atento a estas coisas da política partidária ou, se se preferir, da politiquice que, a meu ver, é mais isso.
Com isto não quero dizer que me limite a andar por aí sem cuidar de saber como vai o meu país e, naturalmente, o resto do mundo.

Em rigor, nas televisões vejo alguns noticiários (rotineiramente à meia-noite) e não em exclusivo de um só canal. Experimentem esta técnica de assistirem a todos e verão como a mesma notícia é dada de diferentes maneiras, não na forma, que isso depende do critério editorial, mas do conteúdo, a chamada substância. E não deixa de ser preocupante como são omitidos factos, nuns casos, aumentados noutros e, mais perigosamente, adulterados. Quando não deveria acontecer, se a factualidade em que os noticiários se baseiam, é a mesma. Tudo isto, convenhamos, não é inocente.

Como há muito se vem dizendo, a ponta de uma caneta ou uma imagem, têm o poder de uma bomba atómica. Apenas depende do local e no momento em que são disparadas.
No meu caso, da bomba atómica não me conseguirei livrar, mas da toxicidade das notícias e do blá, blá habitual das caras que botam faladura na comunicação social, ai desses, posso fugir. E fujo.

Bom, dizia eu, que não ligo muito ao que diz a classe dita politica (hoje profissionalizada) e, consequentemente, aos ecos que a comunicação social dela faz, obviamente, de acordo com os interesses de cada uma das partes, quero eu dizer, dos tais critérios editoriais e das chamadas “fontes”.

E vai daí, reportando-me, então, à actualidade é ver, diariamente, os politólogos, analistas, jornalistas, pivôs e convidados, dirigentes partidários, militantes pró e pré partidos a defenderem as “suas causas” (deles) agora que, vamos lá entender, se tecem por todos os cantos críticas e loas (conforme a origem dos ventos) ao facto dos representantes dos governados não se terem entendido e, vai daí, uma maioria deles ter chumbado o Orçamento de Estado.

E, assim, se vão ouvindo vozes, vózinhas e vozeirões: - “Vem aí uma grave crise económica”, “irresponsáveis” o “ país vai levar anos a recuperar” e, mais uma vez, o blá, blá do costume, mais ou menos sonoros, conforme as notas vocais dos cantadores.
Ora, penso eu, mas para quê este choradinho? Não é para isso que os “governados” elegem, em bom rigor, de forma indirecta, os seus governantes? Não é para eles decidirem o que muito bem entenderem?

Quase que advinho que, tirando alguns deputados, governo, Presidente da República e as cúpulas partidárias, mais ninguém conhece o conteúdo do orçamento. E, se alguma comunicação social o conhece, lá vêm as chamadas “fontes” e “o critério editorial” para confundir a opinião pública, atirando cá para fora, para o cidadão comum consumir o que interessa ser consumido e…desabafar, preferencialmente, nas redes sociais. É assim como, baralhar e dar de novo. Tal Como no jogo da sueca, onde a regra é “encartar”. E os governados, sabendo pouco deste jogo dos governantes, assim vão encartando, pois que, se o não fizerem, perdem o jogo.

Ora, a função dos governados é serem precisamente isso, governados. Sejamos francos. Quando votamos - a rotina eleitoral está definida no tempo, sabemos quem vão ser os nossos governantes? Claro que não. E dos 230 deputados, quantos conhecemos, tirando os habituais ocupantes dos pódios? E, assim sendo, com que direito, pedem satisfações a quem nem sequer conhecem?

Em boa verdade, regressando ao epigrafado orçamento, apenas se tem conhecimento de uma ou outra medida ou número contabilístico que as comunicações partidárias dos governantes, criteriosamente ( o delas) atiram cá para fora. Nem os militantes partidários, os mais presentes nas tertúlias onde gostam de se mostrar, as conhecem, quanto mais a generalidade dos governados.
Mas, cá está. As eleições dos vários tipos de governantes obedecem ao calendário pré definido e, “ai Jesus nos valha, se o alteramos. .. “ é fugir do diabo”.

E, assim, continuamos nós, os governados, a cumprir aquilo que nos é imposto pelos governantes. Mas, se um orçamento é “ chumbado” e obriga a eleições fora do tal calendário? Aqui d´el rei, que o país vai mergulhar numa crise profunda, ouve-se dizer. Como se já não andássemos afogados há uma data de anos, digo eu.

Aqui está, como os inquilinos que habitam a casa da democracia, a nossa assembleia da república, arriscaria dizer, a mais sumptuosa, elegante, charmosa e “vintage” do mundo, colocam um país em crise, assim proclamam, em uníssono, governantes e governados, o que não deixa de ser estranho.
Crise politica? O tanas. Deixem-se de tretas.

Todos, com algumas excepções que sempre justificam a regra, em nome duma mentirosa e apregoada defesa dos superiores interesses do povo, detestam ser governados. Querem manter-se ou, ambicionar ser, pura e, simplesmente, governantes. Numa palavra, adoram o Poder.

E, quando se sabe que estão para aí a chegar uns comboios de sacos de euros, todos querem ser os chefes de estação onde aqueles vão parar e descarregar a mercadoria. Ai, não, que não querem.
Crise politica? Repito, o tanas. Falem-me, antes, duma completa ausência de politicas assertivas. De assustadora crise de valores individuais numa sociedade cada vez mais acéfala, desorganizada e improvisada. Sem ordem e respeito uns pelos outros e pelas instituições. Falhas gravíssimas de cidadania, trabalhadores desqualificados e os poucos qualificados, subaproveitados. Um tecido empresarial deficientíssimo por falência de politicas e políticos sérios, sem visão de futuro. Décadas e décadas sem um investimento digno desse nome, estruturalmente produtivo e reprodutivo.

Mas, os governantes, não são para pensar em longo prazo. Os governados, esses, sim, é que têm estatuto vitalício.
E quanto a investimentos conjunturais, não têm faltado “investidores, se me faço entender. É ouvir falar das suas poupanças, bem guardadinhas e bem escondidinhas.
Esta, também é uma outra categoria de “governantes”, os das poupanças (das nossas). Tanto podem ter origem no genuíno e original conceito politico do termo, descendendo dos tais outros, ou numa linha genealógica colateral, mas nem por isso deixam de se dar muito bem com aqueles outos, os governantes.

Quer dizer, em boa verdade, todos estes “governantes”, uns já se governaram, outros, têm vindo a governar-se e outros que estão à espreita, também, para se governarem.
Crise? Qual crise. Crise só há uma e é eterna. A dos governados.

Emanuel Góis

04.11.2021 - 00:16

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