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…«E que saudades, meu Deus…
Por Carlos Alberto Correia
Barreiro

…«E que saudades, meu Deus…<br />
Por Carlos Alberto Correia<br />
Barreiro Não é preciso lembrar-me. Sei muito bem que não há homens providenciais e que é demasiado arriscado sonhar com salvadores sebastiânicos… no entanto não posso deixar de sentir saudades do trabalho do Vice-Almirante Gouveia e Melo.

Antes de entrar no reconto propriamente dito esclareço que me sinto apavorado quando alguém, da nossa burocracia, ou mesmo de empresas privadas, anunciam qualquer programa de simplificação. A experiência diz-me que vai sair borrasca, dificuldades, irritações, para o pobre cidadão submetido às propaladas “facilidades”. Isso aconteceu com os pedidos online de Cartões de Cidadãos; marcações de consultas e até mesmo com as Apps melhoradas – de algumas instituições bancárias e outras – em nome da melhoria, facilidade e segurança. Um horror de dificuldades, frustrações e ineficácias que nos fazem ranger os dentes, desabafar com algumas palavras pouco recomendáveis e… voltar ao tratamento presencial, demorado, mas finalmente com os resultados esperados.

Não me julguem por tudo isto inimigo da digitalização ou do progresso. Pelo contrário! Lastimo é que, em nome de um bem possível, a incompetência transforme aquilo que deveria ser uma rampa de facilidade num campo de obstáculos quase intransponíveis.

Voltando à situação em que invoquei o nome do Almirante em vão.

É habitual, todos os anos, na consulta de enfermagem a que compareço, quase sempre em Outubro, sem qualquer complicação, ao finalizar os exames, ministrarem-me a vacina contra a gripe. Tem sido recorrentemente assim, fácil, fácil, mas este ano não! Fui informado que a Unidade de Serviços Familiares (USF) – a sigla está bem, a descrição pode não ser exatamente essa – este ano não recebeu vacinas. Como seriam aplicadas em conjunto com a terceira dose da anticovid deveria esperar pelo anúncio de inscrição do meu grupo etário e fazê-lo através da internet. Tudo bem! Esperei e no primeiro dia em que foi publicamente anunciada a abertura, para os rapazes da minha idade, lá fui até ao computador no intuito de me inscrever para a dupla vacinação. Entrei na página e primeira deceção, embora tivesse sido anunciado a abertura das inscrições tal não era verdade. A plataforma só recebia inscrições do grupo anterior. Senti-me enganado. Então tanta propaganda nos média, afirmações de responsáveis a garantirem em público uma coisa e, na realidade a passar-se outra! Que falta de seriedade, que falta de respeito para com o público. Bem, rapaz, tem paciência, volta cá amanhã. “Eles” são mais rápidos na propaganda que nas ações. Porque estranhas? Estás em Portugal. Já devias estar habituado. Volta de novo amanhã!

E voltei! Agora sim, lá estava a informação de que me poderia inscrever para a vacina. A página até era clara. Informações sobre o número de utilizador, nome, data de nascimento e validar. Validei! Outra página sem, aparentemente, qualquer dificuldade. Indicação de Distrito e Concelho. Nada difícil! Lá coloquei, respetivamente, Setúbal e Barreiro. A seguir outra caixa para escolha da data e local de vacinação… só que, aparecendo a indicação de ser de preenchimento obrigatório – lógico – nem permitia escrever, nem mostrava qualquer lista para seleção do local. Mau! O que se passa? Vou esperar mais um dia e volto a tentar. Tentei mais três ou quatro dias seguidos… e mais do mesmo. Parecia que o Barreiro não existia!

Hoje, finalmente, tive uma epifania! Lembrei-me de ter ouvido, no Centro de Saúde, alguém em desespero dizer “com a minha idade e sem transporte como é que me vou vacinar à Moita”! Querem lá ver que, apesar de nada indicarem sobre qual concelho inscrever no formulário não é, como seria normal, o da residência que pretendem, mas o de qualquer outro local onde exista um putativo centro de vacinação? Cheio de fé, mas furioso com o facto de, se tivesse razão, estar perante uma ineficiência primária, no mínimo, dos informáticos da Direção-Geral de Saúde, lá coloquei a Moita no lugar indicado para o Concelho… e zumba! Tiro na “mouche”! Agora só estou à espera do SMS para confirmar o dia e hora da vacina.

Embora tudo esteja bem quando acaba bem (mais ou menos) ficam-me as seguintes agruras: o Barreiro não merece ter um centro de vacinação? Como é que idosos, sobretudo aqueles com dificuldades de locomoção e sem transportes próprios, chegam à Moita para serem vacinados? E, quando ao escrever Barreiro, concelho onde resido, não deveria ser-me mostrado um aviso indicando não pretenderem o concelho da minha residência, sim aquele onde existisse um centro de vacinação? E não deveria, ao inscrever o nome do meu Concelho aparecer a informação dos locais onde poderia escolher o dia e hora para ser vacinado?

É por isto, ao recordar como tudo foi diferente sob a égide do Vice-Almirante que quebrei os meus tabus sobre dons sebastiões e recordei, com saudades, a organização impecável como tudo funcionou. Por isso, a Dr.ª Graça que me desculpe, não percebo o seu contentamento, em entrevista televisiva, quando com apenas um quarto daqueles que deveriam estar vacinados na altura, dizia resplandecente estar tudo a correr bem, tudo no melhor do mundo. É mentira! Há deficiências primárias. A senhora doutora não se importa de voltar a chamar o Almirante?

Carlos Alberto Correia

09.11.2021 - 18:39

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