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Tabu
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Tabu<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro Segundo uma definição corrente, tabu é a proibição de cometer determinadas ações, ou de contactar com alguém, ou entrar em determinada área, considerada sagrada ou interdita. A Bíblia refere o Santo dos Santos, no interior do Templo de Jerusalém, proibido aos simples mortais. Mas a origem do termo vem da Polinésia, onde os europeus encontraram uma forma mais apurada de interdição. Quem violasse o tabu não cometia apenas um crime: perdia a condição de ser humano.

O conceito trabalhou nos espíritos curiosos e pioneiros da Aldeia Global, mas o sentido original do tabu perdeu-se, diluído no conceito judaico-cristão do pecado. Assim, passou a ser algo de grave, ameaçador da sociedade, mas não o suficiente para a perda da qualidade de ser humano. Foi mesmo adotado nas Ciências Sociais, como o conhecido tabu do incesto.
Mas não, repito, como determinante da perda do estatuto de ser humano – nem mesmo da condenação ao ostracismo, como na Grécia antiga.

Deste modo, na nossa sociedade, criaram-se vários tabus, nomeadamente em alguns círculos, em que a violação de regras determinava a exclusão - ou algo pior.

A defesa do grupo foi determinante para a criação dos tabus. Ai de quem contestasse o chefe do clube, da associação, do partido político ou da instituição, pública ou privada. Seria lançado nas trevas exteriores, entre choro e ranger de dentes.
Só que isso, com o andar do tempo, provocou, não o reforço da coesão do grupo, mas a impunidade e irresponsabilidade dos líderes, ou afins.

E assim vemos a proliferação dos movimentos ditos de solidariedade, que mais não fazem que mascarar a cobertura de todos, ou alguns, componentes do grupo. Como se o coletivo lucrasse com o “varrer para debaixo do tapete” dos pecados de alguns dos seus componentes.
Vem isto a propósito do caso de alguns militares dos Comandos, apanhados na teia de atividades mafiosas durante missões no âmbito da ONU.

Segundo a tradição cristã, o Demónio está por todo o lado, súcubo e íncubo, assumindo todas as formas, incluindo a “inocente” traficância de diamantes, ouro, drogas ou divisas.
Não está arreigado entre nós, com a tradicional bonomia e resiliência, ao estilo Malhadinhas, o hábito do contrabando, narrado complacentemente por escritores como Fernando Namora ou Nuno de Montemor? Para lá, café e tabaco, para cá, cortes de fato e máquinas de costura. Como sobreviveriam Quadrazais ou Ouguela, sem contrabando?

E mesmo quanto a diamantes, quem não ouviu falar da “camanga”, no Leste de Angola?
Só que, agora, a parada é mais alta, e o artesanal passou a industrial. De complemento do magro caldo, passou-se à organização mafiosa.
E houve quem compreendesse a dimensão da coisa, e a denunciasse. E assim paulatinamente, se foi levantando o processo, até ao terramoto final. Desta vez, sem atrito entre as Judiciárias, civil e militar.
Como é hábito entre nós, nas notícias vindas a lume, não foram alguns Comandos que traficaram; foram os Comandos que traficaram. E lá voltamos à culpa coletiva, que se pensava ser exclusiva da era de Estaline – esse vilipendiado ditador, que afinal tinha grandes ideias, ao que parece.

E, para temperar as notícias, não faltaram referências a outros casos, como o de Tancos, o dos mortos na instrução e das messes da Força Aérea. Adotando a mesma lógica, é como complementar a transmissão de uma Peregrinação a Fátima com referências aos casos de pedofilia na Igreja Católica.
Ou seja, não havendo razão lógica, há que remeter para o subconsciente, ou seja, para a campanha subliminar. Como se diz em bom português, todo o burro come palha: é preciso é saber dar!

A Instituição Militar não entendeu o caso com tabu, e entendeu denunciar a atividade mafiosa. Com o sentimento correto de que nenhuma instituição lucra em dar cobertura a atividades ilícitas, mesmo que seja essa a prática da maioria das outras instituições.

Apesar de tudo quanto se diz, deixemos correr a Justiça. Ainda que os defensores do seu segredo agora se insurjam por não terem sido divulgadas as investigações, impedindo o julgamento na praça pública.
Por aquilo que tem transpirado dos media nacionais e internacionais, uma pergunta se vem avolumando, que bem poderia ser formulada à moda brasileira de Jô Soares & Amigos:
São só estes? Cadê os outros?
Será que estão protegidos por algum tabu?

Nuno Santa Clara





17.11.2021 - 00:43

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