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A PALAVRA
Por Emanuel Góis
Barreiro

A PALAVRA<br />
Por Emanuel Góis<br />
Barreiro É por de mais evidente que a supremacia do Homem sobre os demais seres animais é abissal.
Mas, coloco a questão: A que se fica a dever?

Sem cuidar de fazer uma retrospectiva exaustiva e técnica – para tanto me faltaria arte e engenho – é tido como historicamente aceite que a evolução do ser humano conheceu distintos períodos ao longo das várias civilizações, a que não é alheia a descoberta da pedra polida, do ferro, cobre, bronze e, fogo, que foram avanços bem vincados e marcantes dessas transformações.

Daí que, com essas descobertas nos primórdios da Humanidade, o Homem tenha passado, desde logo, a superiorizar-se.
Seguiu-se, depois, após a chamada pré-história, outro tipo alterações societárias, agora mais direcionadas para as relações entre os povos, como a libertação do regime esclavagista, feudal e, mais recentemente, o aparecimento da era industrial no século XIX.

Nesse percurso, não se pode olvidar a evolução das mentalidades e comportamentos com o aparecimento do Renascentismo.
Aqui, as mudanças verificadas nas áreas do conhecimento e do saber, o desabrochar dos conhecimentos náuticos com os descobrimentos portugueses e espanhóis e, já mais para diante, a época napoleónica e a revolução francesa, foram, sem dúvida, marcos assinaláveis que trouxeram a modernidade aos povos e nações.
Deste modo, sempre o Homem se foi superiorizando.

Contudo, foi, sensivelmente, nos últimos 100 anos, por volta da I Grande Guerra Mundial e, com principal e particular enfoque a partir da II Grande Guerra, que a civilização conheceu os maiores e mais rápidos desenvolvimentos em todas as áreas, embora, tenha para mim, com especial relevo na área das ciências médicas e aeroespacial.
Isto é, o Homem continua a não parar.

Traçada, assim, uma breve resenha da evolução da Humanidade com apelo aos períodos que tenho como mais significativos, reitero que não pretendo ter uma visão técnica e científica rigorosa.
Como disse, essa questão fica para os especialistas.

A minha intenção é apenas enquadrar a reflexão que me surgiu sobre aquilo que todos os dias usamos, desde o pobre ao rico, do mais iliterato ao maior catedrático e cientista.

Desconheço e, desde já assumo a minha ignorância, sobre as causas remotas que mais contribuíram e estiveram na génese da ascensão racional e intelectual do Homem de forma a destacar-se dos restantes seres vivos, no caso que aqui interessa, os animais.

De facto, neste momento de reflexão que pretendo equacionar na correlação com a evolução da espécie humana, uma coisa me chamou à atenção pela sua vulgaridade.

Refiro-me à importância da “PALAVRA”, primeiramente, falada, depois, escrita.
E daí, surgiu-me a questão de, quiçá, possa ter sido nela que se foi assentando a evolução do ser humano, transformando os sons em palavras para comunicarem entre si.

Tal facto, poder-lhe-á ter permitido, ao longo dos milhões de anos com a utilização que passou a fazer dela, o domínio no planeta Terra através da sua partilha e, consequentemente, a continuidade do seu desenvolvimento.

E, se a partilha da Palavra, inicialmente, apenas, falada, terá constituído a principal vantagem do fortalecimento do Homem, designando, qualificando e classificando objectos e verbalizando a sua criatividade, trouxe-lhe, certamente, uma dimensão cada vez maior ao longo dos tempos, destacando-se dos animais que com ele chegaram a coabitar.
Descoberta, depois, a escrita, mais evidente passou a ser essa partilha do Conhecimento e, como não poderia deixar de ser, a diferença relativamente aos animais.

Analisando, desta forma, o papel da palavra, unicamente, como reflexão filosófica, adopto o entendimento de que, a partir da sua descoberta, tenha passado a ser elemento preponderante e contínuo na evolução da Humanidade, seja ela manifestada de forma verbal ou escrita, designadamente, nos campos da politica, medicina, ciência ou, cultura, todas nas suas multifacetadas variantes.

Porém, curiosamente, na minha percepção da era contemporânea, à medida que a Palavra tem sido um suporte indesmentível no desenvolvimento, também, paradoxalmente, tem vindo a perder a sua referência na politica, ética, moral e dignidade cívica.
Reporto-me, por exemplo, à perca dos valores que a mesma integra, os quais, de forma assustadora e rápida, vem assolando as sociedades contemporâneas.

Chamo à colação, por exemplo, a assertividade da sabedoria popular em apoio do atrás referido.
Quem não conhece – “Palavras leva-as o vento”; “Dou a minha palavra”; “É uma pessoa sem palavra”. “Honrou a sua palavra”. “Se deu a sua palavra vai cumprir”;

De tal sorte que, até nos cultos religiosos católicos se refere – “Palavra do Senhor”.
Ora, por aqui se vê como, numa sociedade que vive em correria, com mutações permanentes, competitividade entre homens e nações, a Palavra - e reporto-me, unicamente, à verbalizada - facilmente é desrespeitada e incumprida. Como sói dizer-se, o que é verdade hoje é mentira amanhã.

Neste particular, não afasto a influência migratória dos interiores para as cidades, locais onde passámos a ser cidadãos anónimos e não vizinhos, factor que muito tem contribuído para o desvirtuamento e fragmatização das comunidades, despindo-as de uma maior proximidade e, consequentemente, do respeito pelo próximo.

E aqui, faço uma pequena pausa. Se acima referi entender que a Palavra acompanhou e influenciou a superioridade humana, parece que, à medida que as sociedades e os seus cidadãos avançam no Conhecimento, vão perdendo, ao invés, os valores do respeito, da cidadania, da honra e da solidariedade.

Curioso, ainda, o sentido que a generalidade das pessoas dá à Palavra, isto, consoante, a proveniência de quem a profere.
De facto, as categorias profissionais mais qualificadas, os lugares que ocupam nas diversas Instituições, aliado ao estatuto social e a classificação de figura pública, tendem a travestir a Palavra como mandamento dogmático e única verdade.
Já se provier do cidadão comum, a sua valoração não tem significado para o senso comum, que lhe atribui uma menor credibilidade.
Infelizmente, a realidade, demonstra o contrário e, cada vez mais, de forma rápida, eficaz e, danosa.
Deveras, um paradoxo.

Em súmula, a minha convicção sai mais reforçada quando constato que, em boa verdade, o facto de o Homem ter adquirido o dom da palavra e poder através dela partilhar o Conhecimento e o animal não, tem vindo a permitir, cada vez mais, um inesgotável distanciamento com os seus companheiros terrestres.
E, aqui chegado, percebo que, afinal, é na vulgaridade do seu uso e partilha permanente que reside uma das maiores conquistas da Humanidade.
Como já escrevi – Pensemos na PALAVRA.

Emanuel Góis

09.12.2021 - 20:16

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