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COMO UM PATO ENFEITIÇADO
Por Emanuel Góis
Barreiro

COMO UM PATO ENFEITIÇADO<br />
Por Emanuel Góis<br />
Barreiro Ainda que bastante combalido fisicamente pela luta com o ganso, sentia ainda as sequelas de refrega. Porém, psicologicamente, encontrava-me bem.

Afinal, andei enfeitiçado pelo pato durante dezasseis dias. Disseram-me os outros 11 patos que me acompanhavam que, felizmente, já estava no aeroporto de Moscovo para regresso a casa e que tinha andado pela Rússia, quer na sua capital, quer sem São Petesburgo e que durante 11 dias naveguei pelo Volga, conhecendo ilhas como Uglich, Serguiev Posad, Goritsy, Peterhof, Pavlovsk, Kitzy, Mandrogui, Yaroslavy, Tsarshoie, com tudo o demais associado, que não divulgarei, porque, sou de cagaços e não sou agente de viagens.

Mas, mas….era hora de regresso.
Dos 12 patos e patas que me acompanharam, 8 tinham despachado as bagagens e adquirido os bilhetes. Fiquei eu e mais 3 patas, já que, como vinha sendo costume, fazia de carro vassoura.
- Man, tens de pagar 4 bagagens de porão já embarcadas ( uma ,deste pato e, outras 3, das patas) se, não, não levas os bilhetes para Amsterdão, disse o jovem russo ao balcão ( O bilhete de Amsterdão - Lisboa, já o tinha)
- Que remédio, disse para comigo.
Como um azar nunca vem só, ao fim de utilizar 5 cartões de crédito na máquina da menina, entenda-se, na que se encontrava no balcão atrás de um outro guichet, lá foi efectuado o pagamento, no último daqueles cartões. As dificuldades são de Portugal, disse a senhora.
- Ok. Vamos mas é buscar os bilhetes, que o tempo está a passar, - disse.

Chegado ao balcão dos bilhetes, novo azar:
- Ui, minha senhora, estão aqui apenas 3 bilhetes, os destas senhoras. E o meu? - Reclamei e reclamei, em russez, fancês, inglês, portugalês, espanholês, sei lá eu, mais outros “êz” ao mesmo tempo que olhava para o relógio.
-Não sei, disse a menina, só tenho estes 3, ao mesmo tempo que os mostrava com o braço direito levantado.
- Não sabe? Então, não está aqui o pré comprovativo da aquisição? Onde está o meu bilhete validado? Diga-me, já gritando num dialecto sem tradução, sem me poder conter.
- Não sei, não sei, não o encontro ( claro que isto no meu e dela inglês que, no russo, nem quero saber)
E os ponteiros avançam. As 3 patas que estão comigo, aguardam enervadas uma decisão. Concentradas que estavam, nem deram por um “cavalheiro”, daqueles que andam pelos aeroportos a fingir que andam a viajar que, num ápice, rapa um troller, logo, por azar, o meu.
- Ai, diz uma, vai ali um tipo com o nosso troller…
Corre, pato, pensei rápido, e vá de correr atrás do calmeirão.
Já era de mais para uma pessoa só. E ali vou eu a correr atrás do ”pintas” trajado a rigor, com outro troller na outra mão como mero viajante.
Só sei que lhe agarrei no braço, lhe ”rapei” o trollher da mão, tendo este apenas dito, “sorry”, sem o mínimo protesto, e lá prosseguiu impávido e sereno como se nada tivesse acontecido.
- Ai, ai, pensei, está a ser duro este regresso à realidade.
E o relógio avança, avança…

Tomei a decisão
- Vamos embora, com ou sem bilhete, se não, perdemos o avião. E lá nos apressámos, sem ter em meu poder o malfadado bilhete.
Pelo menos, iriam as patas. Como era eu que não tinha o bilhete, logo me desenrascaria.
- Mas qual a “gate”? Alguém sabe? Silêncio.
- Alto, penso, que era a 36, diz uma das patas
- Ok, vamos lá. Pergunta aqui, pergunta ali, olhando a sinaléctica, indicador aqui, indicador ali, altifalantes a chamarem por mim e pelas outras 3 patas
- Mr Góis? Perguntou-me um jovem de feições asiáticas visivelmente perturbado
- Yes, disse eu.
- I´m looking for you. Follow me, e desata a correr à minha frente.
E lá vou eu, com o dobro do peso dele, com duas malas de cabine e mais as minhas 3 patas que ainda vinham lá atrás.
Corremos e chegamos, finalmente, ao avião.
Nunca mais esqueço os semblantes dos passageiros que enchiam o avião por completo, ao olharem para nós..
- E ainda há gente que não acredita em bruxas, pensei.
E lá partiu o KLM com 8 minutos de atraso.

Motores a turbinar, avião para a pista de descolagem e... levanta.
Já podes descansar, rapaz, pensei.
Olhei para as nuvens e, de repente, assaltou-me este pensamento:
-Olha lá rapaz, o feitiço já foi quebrado, finalmente chegaste ao mundo real… ai…que me está a dar uma coisa...
-Não posso crer! Isso mesmo, trouxeste a tua mala de tiracolo? interroguei-me
- Bem, sim, não, talvez, sim, deve estar no compartimento das bagagens com as tuas duas malas de cabina, procurando, dessa forma, confortar-me.
- Certeza? Não te vais por a incomodar os passageiros agora para te certificares. Faz isso faz, já os fizeste esperar oito minutos, assim me recriminei. Aguarda até chegares a Amesterdão.
- Sim, é melhor, pensei e, assim decidi.
- Melhor? Não, não, fecha lá os olhos e rebobina o filme, com calma, e revê os teus últimos passos. Vamos lá, então, a isso.
Vocês 12 chegaram ao aeroporto.
Foram aos balcões buscar os bilhetes. Porém, tiveram de pagar o transporte das malas de porão, 45,00 euros cada uma, coisa pouca.
Paga e não refiles, disse para quem ouviu.
Tu e mais as 3 senhoras que ficaram contigo, foram os últimos. Mandaram-te para outro balcão para pagares. Pagaste o envio de 4 malas e só ao 5ºcartão o conseguiste fazer. E o tempo que levaste… - não disfarcei a ira só de pensar nisto.
Voltaste de novo ao balcão, exibiste o comprovativo do pagamento das 4 malas e deram-te 3 bilhetes, excepto o teu.
Mas, porquê não tinha o meu? E discutiste com a pequena russa e até exibiste o comprovativo da pré compra e pagamento.
Estiveste ali algum tempo, muito, e até ias ficando sem o trollher que o tal “distraído” quase te palmou não fosse teres corrido atrás dele e tirar-lho da mão.

Voltaste ao balcão e criado que estava o impasse e o empo esgotado, tomaste a decisão. Vou sem bilhete, depois logo se vê. Se for preciso, fico cá eu, e vão vocês. Logo me desenrascarei.
-Corram todos, que o tempo já está esgotado.
Chegas ao último controlo, onde numa pequena sala não existia mais ninguém além de vocês 4, ou seja, duas funcionárias de verificação dos bilhetes e passaportes e um tipo fardado de policia da alfandega ou da p.q.p, que te dá indicações para colocares as duas malas de mão no tapete para o raio x e aquela que levavas a tiracolo, para outro tapete que não estava a funcionar e que se encontrava bem ao lado.

Estranhei a medida, por absurda e injustificada, mas o homem tinha uma farda, o avião já fazia barulho e só tens que cumprir.
A “madame” policia que está ao guichet controla-te o passaporte e pede-te, naturalmente o bilhete. Dizes que não tens, tentas explicar o sucedido.
Imperturbável, continua a pedir o bilhete. O “stress” aumenta, as tuas parceiras até os sapatos e casaco mandam tirar e tu, ali a pedires por passar. Passa o tampo e sem saberes para onde te virares e como passar aquela barreira.
-Vão vocês três, vá.
Vem, então, uma jovem, com cara de poucos amigos, manifestamente, a chefe. Volto a explicar o sucedido. Mostrei os documentos que tinha. Lá consegui que acreditasse (consegui, mesmo?) em mim e foi buscar um pequeno papel carimbado, tipo lista de compras de supemercado, para poderes embarcar.
- Haja Deus, deixaste sair. Mas, o tempo, ai o tempo.

E foi então que, depois de muita correria pelos imensos corredores, lá te surgiu com ar preocupado o rapaz simpático de feições asiáticas e que, rapidamente, os levaram ao avião.
Tudo bem, pelo menos os 12 estávamos a bordo para satisfação dos outros 8 que já lá estavam dentro.
Mas, e a minha mala de tiracolo? Bem, logo se vê quando aterrares, mentalizei- me de novo.
Leva tempo a viagem, achei. Oiço o trem a baixar e daí a poucos minutos o sobressalto normal das rodas a bater na pista.
Pronto, chegaste. Mas, a mala? Espera, acalma-te, se é que conseguia.

Afinal, o que é que trazias lá dentro para todo esse nervoso e ansiedade? E comecei a contabilizar
Bem, tirando a mala de marca e que te custou bom preço, tinhas lá dentro uma boa máquina fotográfica canon, uma boa objectiva canon, os óculos graduados de sol “Carrera”, cujas lentes custam mais de 300,00 euros cada, o carregador de telelemóvel e da bateria da máquina, 5 cartões de memória para 25.000 fotografias, as mais de 1200 fotos que tinhas tirado, dois copos personalizados do hotel que compraste, as chaves de casa especiais, 70 euros, um pente personalizado com capa em tecido e mais outras bugigangas…

Bem, fazendo as contas por alto, para aí 3.000 euros, coisa pouca…
Passado um ano, depois da embaixada de Portugal ter tomado logo conhecimento da situação na chegada a Lisboa e ainda no aeroporto, ao deitar-me e ao acordar, só me recrimino, balbuciando.
- Olha, rapaz, foste, de facto, um grande pato. O rapaz da alfandega e, se calhar mais outros, fisgaram-te e armaram-te o caldinho.
E, assim, fui pato enfeitiçado durante 15 dias e depois pato comido em cru por um módico preço de 3.000,00.
Que lhes faça bom proveito, f.d.p.

Emanuel Góis

17.01.2022 - 21:09

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