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Zinco, lata, plástico
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Zinco, lata, plástico<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro Num dos meus últimos artigos, intitulado “Rapazes de zinco, rapazes de lata”, referi-me ao livro da jornalista russa Zvetlana Alexeivich “Rapazes de Zinco” , sobre os soldados soviéticos cujos corpos eram repatriados em caixões de zinco, e entregues às famílias, com a obrigação de não os abrir.

De corpos temos nova produção em massa, agora na Ucrânia. Em diversas embalagens: sepulturas individuais, valas comuns, sacos de plástico, ou simplesmente abandonados nos campos e vias públicas. Vidas eventualmente prometedoras transformados em problema logístico e sanitário, a ser tratado de forma tida por racional, desvalorizado o indivíduo, valorizada a estatística.
Só a propaganda é que tem utilidade, descontada aquela miséria a humana. Como magistralmente escreveu Fernando Pessoa, no
Menino de sua Mãe:

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

Também estão inteiras e boas as imagens; eles é que já não servem…
De modo que, num eterno (?) regresso, vemos as mães russas reclamando os seus filhos, para uma última homenagem. Qualquer que seja a embalagem – zinco, lata, plástico – querem algo que dê significado à sua dor. Não uma motivação distante, abstrata, sofisticada, saída de uma geoestratégia difícil de compreender, mas a proximidade de um corpo ao qual se prestam as últimas homenagens.

O peso deste simbolismo não pode ser ignorado.
Quando o General de Gaulle entendeu fazer sair a França do dispositivo militar da NATO, informou o Presidente americano Lyndon Johnson de que as tropas estrangeiras deveriam sair do território francês e que o sobrevoo por aviões americanos ficaria sujeito a autorização prévia, além de outras decisões no mesmo sentido.

Poderia o Presidente americano ter tentado argumentar sobre estas imposições. Mas limitou-se a perguntar se os mortos americanos de duas guerras mundiais, sepultados em cemitérios situados naquela França que tinham ajudado a libertar, por duas vezes, deveriam ser também repatriados.

Resposta difícil…
Aqueles milhares de mortos russos, repatriados, enterrados no local, cremados ou desaparecidos, terão um peso enorme na sociedade russa. Porque tem de ser dada uma resposta credível ao facto da sua existência.
E não serão os mísseis e drones sofisticados, nem o poderio das bombas e granadas, nem as evoluções de blindados poderosos, que ficarão na memória.
Serão o zinco, a lata e o plástico que servirão de referência. Esperemos que, no mínimo, ajudem à construção da Paz que todos desejamos.

Nuno Santa Clara

12.05.2022 - 22:47

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