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Estratégia e Tática
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Estratégia e Tática<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro Os limites entre e Estratégia e Tática são fluidos, pelo menos para um leigo na matéria. Mesmo para os especialistas, distinguir entre Estratégia e Grande Tática não é pacífico.
Mudando de escalão, pode dizer-se que Estratégia é o que faz o diretor do clube, e Tática o que faz o treinador. Com o recurso ao futebol, temos a casa arrumada, para efeitos práticos.

Mas, por vezes, os objetivos ou interesses da Estratégia e os da Tática entram em rota de colisão. Ou seja, ganhar uma batalha é importante, mas pode fazer com que se perca a guerra. E a História mostra-nos quantas vezes que isso aconteceu.

A Guerra da Ucrânia tem trazido ao grande universo do pequeno ecrã um apreciável número de comentaristas, e ainda bem que assim é. Desde os generalistas, que opinam sobre tudo, aos especialistas de relações internacionais, aos militares (com a mania de serem objetivos e fazer contas) e aos voluntaristas de toda a sorte, todos peroram e todos têm a receita infalível da explicação das coisas.

Se antes as coisas bélicas pareciam ter sido remetidas para o arquivo morto da História, eis que tudo vem ao de cima – até nos orçamentos dos ministérios da defesa, subitamente recauchutados (passe o termo).
Partindo do princípio de que ninguém começa uma guerra por capricho (embora às vezes pareça), Putin abalançou-se numa aventura que parece não estar a correr bem. Ou seja, algo não correspondeu às espectativas dos estrategas russos.

O que até é normal: os autocratas tendem a rodear-se de gente que lhes diz, não o que sabem e pensam, mas o que aqueles gostariam de ouvir. Como os conhecidos jawhol-men, os homens sim-senhor de Hitler, que não ousavam discordar ou dar notícias desagradáveis.

A “Operação Especial” da Ucrânia (será que ficará assim conhecida para a História?) começou num ambiente otimista. Cruzava-se a fronteira, os ucranianos fugiam ou juntavam-se aos “libertadores”, tomava-se Kiev e Karkiv, em duas manobras em tenaz, reforçavam-se as posições no Donbass, ocupava-se a faixa costeira do Mar Negro até Mariupol a Leste e até Odessa a Oeste, controlavam-se as centrais nucleares, e toda a gente se sentava à mesa das negociações, com champanhe da Crimeia.

Tanto assim era que as forças invasoras não chegavam a um terço das tropas ucranianas. Ou seja, em vez de atacar com 3/1, como mandam as regras, atacaram com 1/3. Dito de outra forma, estamos nos antípodas da guerra total.
A notável resistência ucraniana deitou por terra tão elaborados planos, baseados em otimismo galopante, alimentado talvez por blinis com caviar e shots de vodka.

Segundo a antiquíssima fórmula, nenhum planeamento resiste ao primeiro tiro de uma guerra. E assim foi. Falhados, por demasiados custosos, os cercos de Kiev e Karkiv, havia que se cingir aos objetivos essenciais.

E é a isso que se está a assistir. A fixação dos media em Mariupol faz esquecer a progressão para Norte, em direção a Zaporovskie e Dnipro, ao longo do rio Dniepr, e o cuidado em tomar Mikolaiev com a sua ponte intacta, condição necessária para a operação sobre Odessa, sobretudo depois do afundamento do cruzador Moskva, que comprometeu qualquer hipótese de assalto anfíbio.
Tudo e isto é do domínio da Tática. Então, e a Estratégia?

A Estratégia tem-se revelado o ponto fraco de Putin. Para além dos erros iniciais de avaliação, não foram tidos em contas os eventuais efeitos da “Operação Especial”.

Na Europa, havia vários países com estatuto especial. Um era a Suíça, que fez da neutralidade uma razão de existir; outra era a Áustria, que aceitou a neutralidade em troca do perdão; outra ainda era a Suécia, que enveredou por uma neutralidade armada e muito cara; e depois a Finlândia, obrigada à neutralidade na sequência da II Guerra Mundial, como forma de sobrevivência.
Todos eles tinham como dogma a neutralidade como garantia. A “Operação Especial” pôs tudo em causa, porque a Ucrânia era, tecnicamente, neutral, após o colapso da União Soviética.
Razão porque a NATO não interveio: não se tratava de um membro da Aliança.

Mas a mensagem ficou: deixou de haver neutros. Assim sendo, restava-lhes escolher sob qual guarda-chuva se deveriam abrigar E a opção tornou-se óbvia.
Questão velha. Tão velha como a que nos meteu nas Guerras Napoleónicas, sem que houvesse hipótese de escolha, exceto para alguns líricos.
De modo que, uma vez mais, Estratégia e Tática entraram em rota de colisão.
Questão académica, se não fossem milhares de mortos, biliões de destruições, desespero e descrença, oportunismo quanto baste, e a Humanidade ficar mais pobre.

Nuno Santa Clara

18.05.2022 - 15:21

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