Conta Loios

colunistas

Coisas e loisas
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Coisas e loisas<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro Em terras da Suíça, foi-me dado a ver algo de que tinha já ouvido falar, mas nada como ver ao vivo e a cores: num domingo à tarde, junto a um café de uma cidadezinha pitoresca, confraternizavam uns quantos militares, após o usual exercício do fim-de-semana. Não muito diferente do que se pode ver por essa Europa fora, exceto num pormenor, que de pormenor não tem nada: encostados à parede estavam as mochilas, os capacetes, os cantis - e as espingardas automáticas, suponho que com as respetivas munições.

O modo de defesa suíço tem posto muitas cabeças a trabalhar. Basta lembrar que a Lei do Serviço Militar portuguesa de 1911, aprovada na sequência da implantação da República, dentro do fervor democrático e patriótico de então, instituiu o serviço militar obrigatório e universal, dever e direito dos cidadãos (as cidadãs não eram para ali chamadas, com também não eram chamadas a votar); e, segundo o texto do diploma, esse serviço deveria ser segundo o modelo miliciano suíço. Na sequência desta nobre intenção, foram até instituídas associações cívicas de instrução militar, nelas se incluindo a prática de tiro com armas de guerra, emprestadas pelo Exército, e criadas carreiras de tiro em muitos concelhos, pelo País fora; e os cidadãos até pagavam os cartuchos que gastavam nessa atividade patriótica…

Eça de Queirós morreu em 1900, não tendo tido oportunidade de ver este mimo de transposição de instituições, no tempo e no espaço. Mas teria decerto um sorriso fino, ao ver o que faziam os Dâmasos de Salcede e os Primos Basílios da política…
Cerca de um século passado, o Partido que se reclama de herdeiro do ideário republicano mandou o serviço militar obrigatório às malvas. Sic transit gloria mundi…

No hemisfério oposto, digladiam-se os que querem controlar as armas e os que defendem a sua proliferação, e o debate tem contornos culturais e constitucionais (e outros que tais). Com o lado caricato, se não fosse trágico, de Donald Trump a defender a teoria de armar os professores, como meio de impedir os massacres nas escolas. Nessa ordem de ideias, haverá que armar padres e pastores, para impedir massacres nas igrejas, com já tem sucedido; os coveiros, pela mesma razão; os lojistas e empregados de supermercados; os médicos e enfermeiros dos hospitais; os funcionários das câmaras; e por aí fora, até se atingir o objetivo one man, one gun, pelo menos.

Claro que se trata de um problema cultural: educar as criancinhas no “espírito de fronteira” não se faz sem sequelas. E a ideia do Justiceiro, o tal que não apresenta argumentos, mas é mais rápido no gatilho, prevalece, sob a capa e de um ordenamento jurídico que até é artigo de exportação.
No fundo, é a lei do mais forte, a da conquista do Oeste (já que o centro, a Florida e o Alasca foram comprados), e a de todas as guerras ganhas, exceto as perdidas. E, se são os mais fortes, é porque a teoria está certa - ou ao contrário, mas o efeito é o mesmo.

O cerne da questão está em que os suíços conquistaram a sua independência face aos senhores feudais austríacos armando o povo, e desde então o uso e porte de arma passou a ser um símbolo da cidadania. Ter uma arma, de forma visível, era atributo de maioridade e responsabilidade, e o seu uso estava reservado à defesa contra invasores.

Os americanos usaram as armas para e exterminar os povos que lá viviam, entre índios e mexicanos, e o seu uso e porte constituiu o seu último argumento, como os canhões do rei absoluto Luís XIV de França, que tinham gravado o lema ultima ratio regum (o último argumento dos reis).

Ou seja, mais do que regulamentação e controlo das armas, o que está em causa é a educação dos cidadãos e o conceito de cidadania. Por alguma razão os Estados modernos se arrogam do exclusivo da violência: é para que ela não caia na rua, de modo que a Justiça seja “dêem-me uma corda, que eu próprio o enforcarei”, e a função policial um exercício de tiro ao alvo.

Não é por falta de armas que os crimes deixam de ser cometidos: facas de cozinha, machados e alfaias agrícolas, e até tacos de basebol, servem para o fim em vista. Para não falar da mais mortífera, que é o automóvel, não tendo decerto passado pela cabeça dos seus inventores que seria o causador de tantas mortes.
Viver em sociedade tem destas coisas; tem regras e normas, que levaram séculos a urdir e a cimentar. O que não se compadece com as loisas que nos querem impingir, num regresso à barbárie, que pode coabitar com as mais modernas tecnologias.

Nuno Santa Clara

05.06.2022 - 20:10

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2022 Todos os direitos reservados.