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Logística
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Logística<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro O termo Logística começou a ser aplicado no jargão militar ao longo do século XX, mas corresponde a uma ideia velha como a guerra. Cercar um castelo até o fazer render-se pela fome, ou sede; ermar uma terra, como durante a Reconquista, privando o inimigo de recursos; atacar as colunas de reabastecimento com as Milícias, como nas Invasões Francesas; ou bombardear as fábricas alemãs, durante a II Guerra Mundial, são variantes do mesmo conceito: levar o adversário à capitulação, por impossibilidade de continuar a luta.

Há duas Logísticas: a de produção, destinada a obter os meios, através do seu fabrico ou aquisição; e a de consumo, que consiste em gastá-los (leia-se destrui-los) durante as campanhas militares. A debilidade dos Estados pode derivar de uma ou de outra – ou de ambas. Um país que desmantela as suas indústrias de defesa, ou que depende de terceiros para obter recursos, tem poucas hipóteses de iniciativas estratégicas. Um país que gasta mais do que produz não pode encarar uma guerra prolongada.

É algo de geral e universal. Durante a I Guerra Mundial, em 1915, o Reino Unido, uma superpotência industrial à época, teve que reduzir as operações por falta de munições de artilharia. Isto porque: primeiro, ninguém tinha previsto uma guerra prolongada; segundo, também não estavam previstas operações consumindo milhões de granadas.

Sun Tzu (544 – 496 A.C.), o célebre teórico chinês da Arte da Guerra, grande inspirador de Mao Ze Dong (ou origem de um plágio), escreveu que nunca país algum ganhou com uma guerra prolongada.
Parece o caso da atual guerra da Ucrânia. É prolongada quando dura mais do que o previsto. Da guerra relâmpago, ou de uma “operação militar especial”, tipo Afeganistão, passou-se a uma guerra de desgaste. E esse tipo de guerra ganha-se pela Logística, nomeadamente na de produção.

Cada país tem a sua indústria e as suas reservas, para encarar as primeiras ações de um conflito. Depois entra em ação a mobilização industrial, e/ou a importação maciça.
Os países saídos do extinto Pacto de Varsóvia guardaram dessa época um conjunto de infraestruturas, desde fábricas, bases e até abrigos, que agora aprecem ao grande público. Além de um aspeto importante: a padronização do armamento e equipamento, que teve o seu correspondente na NATO. Isto para que, por exemplo, as munições americanas servissem nas espingardas alemãs, ou as granadas francesas nos morteiros gregos.

A agora anunciada carência de munições de artilharia por parte da Ucrânia é o que se pode chamar a crónica de uma crise anunciada. Mas com um problema de outra dimensão.
Indo aos materiais mais básicos da artilharia ucraniana, estes são os obuses de 122mm e de 152mm. Ou seja, incompatíveis com os de 105mm e 155mm dos países da NATO. Portanto, não se trata apenas de munições, mas também dos obuses que as disparem – que só podem ser fornecidos à custa das reservas estratégicas dos países ocidentais.

Esta diferença de calibres tinha as suas razões: impediria que os eventuais agressores utilizassem os meios capturados. Tal como os espanhóis, que adotaram uma bitola de caminho-de-ferro diferente da dos franceses, para que estes, se tornados invasores, como no tempo de Napoleão, não pudessem utilizar o material circulante espanhol. O que obrigou os portugueses a adotar a bitola espanhola, coisa que estamos ainda hoje a pagar.

Em termos de decisões, estamos perante um dilema parecido com o da II Guerra do Golfo. Invadiu-se o Iraque porque tinham armas de destruição maciça; e não se podia bombardear os depósitos por isso mesmo. Não existiam as tais armas, os depósitos ficaram intactos e quem quis foi lá e serviu-se, com o resultado que se conhece.
Temos algo de semelhante: perante a ameaça de escalada, há que garantir as reservas de armas e munições; assim sendo, o fornecimento desses materiais implica a produção de novas armas para substituir as cedidas, o que custaria muito dinheiro e levaria muito tempo – a menos que a guerra se prolongue.

Exceto se, segundo um processo orwelliano, uma coisa possa ser e não ser verdade, ao mesmo tempo, conforme convém. Como o mercurocromo, que era só para uso externo.
Segundo essa lógica, a ameaça externa serve para justificar políticas, sanções, cortes e inflações orçamentais, enfim, quase uma economia de guerra; mas nada de aumentar a capacidade de defesa, que seria o corolário lógico dessas atitudes. É que o Grande Decisor continua a ser o Contribuinte, pelo menos nos países ocidentais…
Como diria Jô Soares, Haja Deus!

Nuno Santa Clara




16.06.2022 - 20:47

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