Conta Loios

colunistas

O relógio parado
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

O relógio parado<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro Em primeiro lugar, deixem-me falar na primeira pessoa do singular. Não é meu hábito, porque penso que o que me vai no espírito é mais coletivo que individual.
Como disse (porque não sabia escrever) António Aleixo: Se poeta sou / Sei a quem o devo / Ao Povo a quem dou / Os versos que escrevo.

Há muitos anos – quase tantos quantos tem a Democracia neste País – num daqueles debates em que, se não a ideologia, pelo menos o idealismo, estava presente, discutia-se o que fazer quanto a certo órgão de comunicação social que primava pela distorção das coisas, aquilo a que hoje se chama fake news.

Decerto havia matéria de fato para atuar, mas é sempre uma questão melindrosa (que o digam os utentes do Twitter e Facebook de hoje).
Então alguém exprimiu, de forma magistral, a essência da questão: está bem, vamos atuar, mas atenção, porque até um relógio parado está certo duas vezes ao dia, e não vamos nós atuar quando eles, por azar, têm razão!
(Para as novas gerações: tratava-se de relógios analógicos, e não digitais).
Vem isto a propósito da bombástica declaração de Donald Trump, à mistura do anúncio da sua improvável recandidatura: se eu fosse Presidente, a guerra da Ucrânia não teria acontecido.
(A propósito, também a primeira candidatura era improvável).
Pois, como o relógio parado, estava certo!

As cordiais relações com os regimes antidemocráticos, os elogios aos dirigentes desses países, e sabe Deus que outras razões, levam-me a pensar que isso poderia ser verdade – embora, como se diz, em História não haja “ses”.
Porque existem constantes no comportamento dos grupos sociais, e os partidos políticos não são exceção. Nos Estados Unidos da América, ao longo do século XX, a tendência é ver o Partido Republicano (o Great Old Party, ou GOP) defender, em política externa, o status quo, enquanto os Democratas tendem a intervir no sentido de alterar as coisas, com um fundo de idealismo, mas com razões práticas subadjacentes.

Henry Kissinger é um admirador confesso de Otto von Bismarck, o Chanceler de Ferro criador do II Império Alemão, em 1871. Isto porque, entre outros atributos e iniciativas, Bismarck criou a conceito da Realpolitik, o princípio do pragmatismo, que deixava Maquiavel a perder de vista. Como quando disse que as Balcãs não valiam os ossos de um granadeiro da Pomerânia, escandalizando muita gente.
Bom Republicano, fez a aproximação à China, como forma de enfraquecer a União Soviética, sem complexos quanto à legitimidade ou ao respeito pelos direitos humanos de qualquer dos dois regimes.

Seria no mínimo cómico comparar Kissinger com Trump. Mas têm algo em comum: um pragmatismo despido de grandes preconceitos morais. Melhor dizendo: com alguma moral, no caso Kissinger, completamente amoral, no caso Trump.
Assim, quando Biden e seus apaniguados entenderam apoiar a Ucrânia na adesão à NATO, ao arrepio dos acordos de Minsk, levantou um problema só comparável ao da crise dos mísseis em Cuba, em 1962. Só que dessa vez houve bom senso de ambas as partes.

A soberania de Cuba não foi tida nem achada no confronto. Como a da Bélgica (o campo de batalha da Europa, segundo Napoleão), que se viu invadida por diversas vezes, simplesmente porque estava no caminho. Ou dos Açores, que não têm culpa de estar a meio do Atlântico.
E assim temos Donald Trump, o Rei dos Falcões, promovido a Rainha das Pombas.
Tudo porque muita gente se esqueceu de dar corda ao relógio.

Nuno Santa Clara

17.11.2022 - 19:51

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2022 Todos os direitos reservados.