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A lógica da semilha
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

A lógica da semilha<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro Quando a lógica se torna demasiado evidente, tonou-se hábito chamar-lhe “lógica da batata”. No meu caso, madeirense de gema, prefiro chamar “lógica da semilha”, mas poderia ser of the potatoes, des pommes de terre, de las patatas, von die kartofell ou do que quiseram: vai tudo dar ao mesmo.

Definitivamente, trata-se de uma lógica tão primária que dispensa grandes elucubrações, debates ou mesas redondas.
Esta lógica é anterior ao silogismo, pese o anacronismo de a batata só ter sido introduzida na Europa após a descoberta do Novo Mundo, de onde é originária.

Também nada temos contra este simpático tubérculo, que salvou os europeus da fome, e que ainda hoje é uma das bases da nossa alimentação. Apenas uma expressão popular, que, vox populi, vox dei, nos serve de bordão nesta caminhada.

Nestes tempos em que as novas da Guerra da Ucrânia estão em todos os noticiários, independentemente do país ou cor política da origem, qualquer indício do abrandamento ou mesmo do fim do conflito é recebido com alegria e esperança.
Ora, a notícia mais mediática prende-se com o envio à Ucrânia de carros de combate modernos, mais concretamente os Leopard-2 alemães (dos quais Portugal dispõe de 37, ou seja, o equivalente ao Grupo de CC da Brigada Mecanizada). A Polónia ameaça ceder os seus, com ou sem autorização da Alemanha, e outros países, entre os quais o nosso, hesitam sobre o que fazer.

Recorde-se que a venda de material de guerra tem regras próprias. O país vendedor exige ao comprador uma declaração de “utilizador final”, ou seja, não pode ceder esse material a países terceiros sem autorização do primeiro fornecedor. Se surge material de guerra por outras vias é porque há traficantes (que estão bem, e recomendam-se).
Decerto o fornecimento de armas mais sofisticadas representa mais um passo na escalada do conflito. Especular sobre se um carro de combate é uma arma ofensiva ou defensiva é tão irrelevante como discutir sobre as virtudes do emprego de uma espingarda. Depois de obuses, mísseis, drones, foguetes, a questão dos CC parece bizantina. E os ingleses parecem dispostos a fornecer os seus também modernos Challenger-2.

Fora da corrida, só os CC Leclerc franceses e os M-1 Abrams americanos; os franceses não parecem dispostos a ceder os seus, e os americanos, também não…
Mas há algo importante: nos exércitos atuais, o papel dos CC continua a ser fundamental, servindo até como medida de avaliação da eficácia de um exército. Assim sendo, o salto qualitativo de passar dos ultrapassados carros soviéticos para os Leopard-2 pode ter influência no desenrolar da guerra. Daí as ameaças veladas do emprego de armas nucleares pelos russos.
Será esta ameaça credível?

Pela lógica da batata, a decisão de ceder parte essencial do seu arsenal só pode ser feita quando a ameaça diminui; se esta aumenta, reforçam-se as reservas de material, sobretudo o crítico. Isto pode ser o que, na gíria militar, se chamam “indícios técnicos”.
Portanto, a cedência dos Leopard-2 (e Challenger-2) parece ser uma boa notícia: no mínimo, a guerra está contida, se se pode ceder o que não faz falta.
Resta a atitude ambígua de franceses e americanos. Os franceses, compreende-se: os Leclerc são caros e há poucos. Já com os Abrams é mais estranho, porque há muitos, mas não saem das suas bases – muito embora os americanos insistam para que os europeus cedam os seus Leopard-2.

Voltando à lógica do tubérculo, ou os americanos não estão tão confiantes, e não querem reduzir as reservas, ou estão virados para o Pacífico, e todas as reservas são poucas.
Ou seja, o seu empenhamento na Guerra da Ucrânia vai mais pelas sanções (das quais tiram vantagem), pela atribuição de fundos (com o agravar do deficit) e com a mobilização dos aliados, mais do que pelo seu empenhamento directo.

E como, tal como ditam as regras, quem empenha as reservas deixa de ter acção de comando, assim conservam as sua iniciativa, deixando aos outros a melindrosa questão sobre o que fazer quando deixarem de ter as suas próprias reservas…
Pela lógica da semilha, restar-lhes-ia cavar batatas.

Nuno Santa Clara




24.01.2023 - 09:10

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