colunistas

Psicologia & Notas Reflexivas
ABANDONO E DEPENDÊNCIA
(Notas sobre a relação toxica de dependência entre mãe-filho)
Por Rui Grilo
Barreiro

Psicologia & Notas Reflexivas<br />
ABANDONO E DEPENDÊNCIA <br />
(Notas sobre a relação toxica de dependência entre mãe-filho)<br />
Por Rui Grilo<br />
Barreiro Ele sente-se encurralado numa relação de ambivalência.
Este filho, que tudo fez para não desiludir a mãe, depara-se constantemente com uma mãe que tudo dá, mas que num instante tudo retira... e que dor isto lhe traz...

A mãe... essa que o devia proteger e que deveria assumir o real papel de mãe, permite que o filho entra e saia da sua vida mediante as mais diversas necessidades que tem...como se usasse o filho a seu belo prazer, descartando-o como se nada fosse quando ele não responde positivamente às suas expetativas e crenças.

Ela encontra-se numa dinâmica de ambivalência entre comportamentos depressivos e histéricos.., mais concretamente, entre a dependência emocional (ausência do objeto, ausência de relação), e a fúria/desprezo que a leva a não olhar e compreender a emocionalidade do filho.

Hoje idolatra o filho, mas amanhã odeia-o com todas as suas forças.

Esta ambivalência é o resultado de uma mãe insegura, depressiva e dependente do amor do filho, porque na realidade nunca o teve de ninguém... principalmente por aquele que há muito se desligou emocionalmente dela... o marido e pai do seu filho...

Então, procura no filho o amparo que nunca teve, revelando querer ser cuidada e amada por este filho...por outro lado, coloca este marido ausente, tantas vezes comparado a um fantasma, num patamar de inexistência humana.

Ela revela ainda a fantasia de conseguir relacionar-se com este marido, mas o seu núcleo depressivo, que tantas vezes se transforma em repulsa, afasta qualquer possibilidade de isso crescer dentro dela...

Mulher sofrida numa relação de conflito conjugal, com evidentes consequências relacionais resultantes da agressão e do medo, remetem-na para um lugar onde a sua única fonte de amor e de consequente dependência afetiva e emocional, passa por este filho tão desejado e que tão bem conhece o seu sofrimento.
Como se a relação de ambos tivesse na sua génese, uma proteção daquele marido e pai que os fez sofrer.

Uma relação de proteção gerada através de uma enorme cumplicidade, consequente das más experiências vividas no seio familiar.

De forma narcísica e egoísta, esta mãe está centrada nos seus próprios desejos recalcados, projetando no filho a sua insegurança e dificuldade em viver a sua vida de forma autónoma e independente.

Ora nenhum filho deveria ser usado nesta trama de conflito do casal, mas devia, porém, ter sido protegido enquanto criança para não ter de crescer antes do tempo, e assumir esta tão grande responsabilidade de cuidar da mãe.

Este filho cuida e ampara, e tenta sempre ir ao encontro das expetativas e das necessidades da mãe. Ele tem medo de não ser amado pela mãe, e por isso não se permite a falhar...coloca-a sempre em primeiro lugar, ficando os seus desejos em segundo plano...

Todavia, quando decide dar um grito emocional mostrando os seus desejos e intenções, esta mãe de forma vil fica desagradada, manipulando-o e levando-o a sentir-se culpado, inseguro e triste. Usa a arma do abandono para este filho sentir-se rejeitado, levando-o a voltar a esta relação de dependência de forma repetida e interminável.

Em certa medida, ambos ficaram reféns dos velhos papéis da infância, e das suas dolorosas dinâmicas familiares. Por um lado, esta mãe que sofreu horrores, direcionou toda a sua ansiedade, insegurança, mas também amor, nesta relação de dependência com o filho.

Por outro lado, este filho teve a necessidade de proteger a mãe do sofrimento, não se permitindo a ser uma criança. Mas esta proteção foi imposta pela mãe, apenas porque se sentia perdida e desamparada.
E por isso, este filho assumiu um papel tão ingrato...

O filho cede constantemente devido a sentimentos de culpa ou de obrigação, porque esta mãe transformou o seu sofrimento em exigências e jogos de manipulação emocional e afetiva.

Para ela, nenhuma mulher que esteja com o seu filho será suficiente, além de ser uma potencial concorrente àquilo que são as suas necessidades de apoio e de amparo afetivo.

Muitas vezes este filho sente-se abandonado por esta mãe, porque a sua relação é de tal forma tóxica, que ele não se permite a sentir-se simplesmente filho...ele tem de ser muito mais...ele tem a necessidade de controlar tudo na vida da mãe, por forma a que ela não sofra novamente...

E tu...? Quando vais olhar para quem tu és?
Quando vais assumir de uma vez por todas o teu papel de filho?

Um bem haja.
Rui Grilo - Psicologia & Notas Reflexivas

01.02.2023 - 11:13

Imprimir   imprimir

PUB.

Pesquisar outras notícias no Google

Design: Rostos Design

Fotografia e Textos: Jornal Rostos.

Copyright © 2002-2024 Todos os direitos reservados.