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Adágios
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Adágios<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro Esta palavra, em português, tem dois sentidos: um, mais corriqueiro, com o significado de provérbio, ou ditado popular, que resume num dito, ou numa frase, uma sentença para solucionar uma questão, ou recordar saberes antigos e consolidados; outro, de origem italiana e erudita, refere-se a um trecho musical lento, normalmente integrado numa peça com vários andamentos (alguns adágios ficaram célebres).

Por estranho que pareça, esta associação de ideias surge depois do anúncio da sentença de Rui Pinto, o hacker português, saldando-se em quatro anos de pena suspensa, com muitas especulações, efabulações, perdões, conspirações, omissões e outros ões, que seria ocioso enumerar aqui.
Certo é que o caso galgou fronteiras, e Rui Pinto deve ter o futuro garantido – e merecido, pode dizer-se. Nem sempre se chega à ribalta por mérito próprio.

Dada a universalidade conferida ao protagonista, seria de ponderar uma ida a Belém; já lá foram tantos...
Em Rui Pinto foram reconhecidas e apreciadas várias qualidades, e valorizada a sua colaboração com a Justiça, e daí a simpatia que despertou junto do público – esquecendo o lado criminal da questão. E sobretudo aquela faceta da denúncia de casos melindrosos, envolvendo figuras gradas. Quanto basta para cair no goto das multidões.
E aqui foi aplicada a doutrina de um velho adágio: ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. Feitas as contas, não estaremos longe da contabilidade penitenciária.

Outros casos mediáticos de denúncias de graúdos correram mundo. Julien Assange, o animador da WikiLeaks, que divulgou documentos comprometedores da política americana; Chelsea Elizabeth Manning, (nascida Bradley Edward Manning), militar transgénero dos EUA, que foi preso(a) e processado(a) por divulgação de informações classificadas – caso "Cablegate"; ou Edward Joseph Snowden, analista de sistemas, contratado pela Agência de Segurança Nacional (NSA), que tornou públicos programas do sistema de vigilância global da Agência.
Todos eles enfrentaram confinamentos, penas de prisão ou exílio. Não mais terão paz, porque enfrentaram poderes “além do que permitia a força humana”.

Mas aqui, nesta língua de terra comprida e chata que, por um lamentável erro de geografia, deu um país em vez de uma pastagem (assim escreveu Eça de Queirós), que teve a Santa Inquisição durante séculos, que teve a PIDE/DGS durante meio século, nada de tão violento se passou.

Na Terra dos Brandos Costumes, Rui Pinto está por aí, e recomenda-se.
Como se numa sinfonia tumultuosa, em que no meio de andamentos ruidosos e arrebatadores, surgisse um andamento lento e de suave melodia, um adagio repousante, à medida da afirmação do Padre Américo: não há rapazes maus.
E assim, entre adágios de sabedoria popular que nos fazem sorrir, e adágios eruditos que nos embalam, lá vamos vivendo.
À portuguesa.

Nuno Santa Clara



16.09.2023 - 12:04

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