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Ai chega, chega, minha agulha”
Por Carlos Alberto Correia
Barreiro

Ai chega, chega, minha agulha”<br />
Por Carlos Alberto Correia<br />
Barreiro Já, por diversas vezes aqui me debrucei sobre o suicídio interno das democracias. Por isso não vou perder muito tempo com o assunto. Quero apenas recordar que os primeiros sintomas são, na generalidade, os ataques de políticos - que se intitulam como não políticos, embora a política seja, senão a única, pelo menos a principal ocupação – às instituições democráticas.

Destaco, com especial relevo, as tentativas de dominar ou enfraquecer o poder judiciário, fazer algo semelhante com os meios de comunicação social (desacreditando-os ou tomando posse deles para utilizarem como porta vozes dos seus interesses). E, cerejinha em cima do bolo, denegrirem a atividade política e dos políticos, acusando-os de ineficazes e corruptos. E mesmo sendo deles parte intrínseca pretendem fazer-nos crer estarem, senão distantes, pelo menos divorciados dos mesmos. Além disso, todos os políticos, volto a frisar, são, para eles e menos eles, por definição corruptos.

Assim, com culpas claras das nossas democracias e instituições, os regimes de respeito pelos direitos humanos vão, lentamente, falhando os seus desígnios gerais e, paulatinamente apodrecendo, dando lugar ao simplismo enganador dos populistas fascizantes, ocupados em fazer esquecer os resultados dos partidos ancestrais dos quais copiam modelos e atuações.

Vem esta introdução a propósito do facto acontecido numa série de conferências promovidas pela Associação de Estudantes da Universidade Católica. Vamos ao caso!

Numa iniciativa, que apenas pode ser louvada, a associação em referência organizou, como já referi, várias palestras com responsáveis por partidos políticos sobre, creio, o atual estado da Nação e a posição dos respetivos partidos, tendo em conta o período eleitoral que se aproxima.

Desconheço se todos os partidos foram convidados, quantos já realizaram as suas intervenções e quais foram as diferentes reações dos assistentes às posições e propostas apresentadas. Devo, por motivos éticos, declarar que, sendo a Católica uma Universidade de elite, pressuponho que a ideologia dominante seja pouco propícia a ideias de esquerda e se inclinem mais para o espetro direito do quadro partidário. Mas, como disse, isto é apenas um pressuposto.

Os factos conhecidos são os de que um jornalista do Expresso, seguramente um perigoso esquerdista, durante a exposição de André Ventura, foi expulso da sala e, invocando o Direito à informação, constitucionalmente inscrito, negou-se à intimação. Então, quatro estudantes, possivelmente membros da Associação, forçaram-no a sair, pegando-lhe pelos braços e pernas e assim o arrastaram para o exterior. Sabemos que a Universidade, em comunicado, prontamente condenou esta atuação, mas também sabemos que vários partidos e comunicadores, aberta ou transversalmente, procuraram justificar o ato.

Os argumentos mais utilizados foram o de que, por decisão da Associação, não haveria jornalistas presentes na sessão. O argumento terá alguma validade e debruçar-nos-emos mais à frente sobre a sua legitimidade. No entanto, esta decisão da Associação não foi a que chegou às redações. No seu lugar adveio uma nota do Chega informando que André Ventura daria uma conferência à chegada e que, no interior, não seriam permitidos aparelhos de gravação, creio que o termo específico utilizado foi o de “imagens”.

Postos os factos, entremos na sua análise.

É verdade que se o intruso entrar na minha casa terei todo o direito de expulsá-lo e de, para tal, utilizar os métodos que a situação requeira. No entanto esta comparação resulta mal.
Primeiro, porque uma Universidade, não sendo propriamente um local público, também não deverá ser apenas algo permitido a restrito grupo de iniciados. Uma Universidade, mesmo privada, faz parte de um corpo mais vasto chamado sociedade, a qual, de forma algo relativa, deverá ser pertença – pelo menos em alguns atos – de parte alargada dessa instituição.

Segundo, houve convite expresso aos órgãos de comunicação para estarem presentes, embora com condicionantes.

Terceiro, no presente período pré-eleitoral – onde todos os partidos já estão em campanha – seria de esperar que futuros e putativos governantes e gestores, estivessem interessados no esclarecimentos mais alargado possível das escolhas a submeter ao critério popular, tanto mais que neste tempo de pós-verdade, especulações e manipulações nas redes sociais, noticiários a tender para o oficioso e para o “jornalismo repetitivo” de Agências Noticiosas, é dever de quem pensa o futuro proporcionar, quanto possível, a informação direta vinda de fontes diretas e tratada por quem tem o dever deontológico da maior imparcialidade possível.

Postos os factos, aduzidos os argumentos, parto para as minhas preocupações fundamentais.

Sem um jornalismo independente e livre de restrições abusivas, não é possível criar uma opinião pública esclarecida e participativa. Sem esta opinião é completamente impossível manter e fortalecer as instituições democráticas. Na maior parte dos casos a obstrução à livre informação (não confundir com bisbilhotice comum) é considerado crime público. Deste modo a expulsão de um jornalista, sobretudo da forma como foi e por quem executada, torna-se um grave atentado ao Direito à informação e traz-nos à memória tempos e acontecimentos aterrorizantes que críamos já não serem possíveis em sociedades contemporâneas avançadas. Parece, pois, por estes e mais factos que estou enganado e que, não se repetindo, a História aparenta deslocar-se de forma helicoidal, isto é, não sendo exatamente os mesmos acontecimentos serão, em diferente nível, muito semelhantes. Tudo dependendo do contexto e da época.

Pois é, para certas pessoas e grupos, a Democracia é uma chatice e o melhor é, umas vezes devagarinho outras com maior estridência, acabar com essa mania de ter direitos, ser igual e ao mesmo tempo diferente. É confusão a mais! O melhor é regressar ao Deus, Pátria e Família. E já agora, para o quadro ficar completo, vamos retornar aos filmes a preto e branco e, em coro, cantemos todos “ Ai chega, chega, minha agulha / afasta, afasta meu “didal”.

Carlos Alberto Correia

20.01.2024 - 19:45

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