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Um Chega no meio do caminho
Por Carlos Alberto Correia
Barreiro

Um Chega no meio do caminho<br />
Por Carlos Alberto Correia <br />
Barreiro E pronto! Está feito! Lá se foram os meus vaticínios, de 2002, quando apostava que, aos 12%, o Chega teria atingido o limite de crescimento. Enganei-me, sem qualquer dúvida e agora resta-me engolir a pílula, suportar o amargor e não desistir da luta por uma sociedade mais justa e equitativa, que o Chega não demorará muito a demonstrar não ser ela do seu interesse.




Um Chega no meio do caminho

“Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra"

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"


E pronto! Está feito! Lá se foram os meus vaticínios, de 2002, quando apostava que, aos 12%, o Chega teria atingido o limite de crescimento. Enganei-me, sem qualquer dúvida e agora resta-me engolir a pílula, suportar o amargor e não desistir da luta por uma sociedade mais justa e equitativa, que o Chega não demorará muito a demonstrar não ser ela do seu interesse.

Eu sei que, sobretudo na campanha eleitoral o seu discurso se suavizou. Deixou de lado a xenofobia, a destruição do sistema democrático, a homofobia, a inferiorização das mulheres em casa e no trabalho, os direitos individuais e quanto mais me abstenho de enumerar porque, logo se encontre em situação dominante, tudo isso voltará célere, não como retórica, mas como atos discriminatórios e gargalhar totalizante.

O cinquentenário do 25 de Abril não merecia isto!

No entanto a realidade é o que é e, quantas vezes, não corresponde aos nossos anseios, torna-se distópica e cruel. Será por acaso? Aposto que não. Aqui para nós o acaso não existe. É apenas a desculpa que inventamos para nos furtarmos ao trabalho extenuante de concatenar causas e efeitos, por vezes ínfimos que, de quase impercetíveis, se transformam na bola de neve monstruosa que precipita a avalanche.

Por azar (?) ou facilitismo estendemos uma passadeira vermelha – salvo seja! – ao Chega para chegar onde chegou. Os tempos assim o permitiram, as decisões ou a falta delas para tal nos encaminharam. Não foi o Chega que ganhou! Nós é que nos deixámos perder. O Poder é tão ofuscante que pode obnubilar os melhores espíritos. E, se o resto do mundo entrou numa bebedeira coletiva de desrespeito, ambições desmedidas, mentiras transformadas em doutrina, quer por repetição, interesse ou posição de força de quem as enuncia, certo e sabido é que, lá dizia Eça de Queiroz, com o atraso devido, cá chegarão à terrinha, com a consabida hipocrisia de quem tinha o dever de ter previsto e evitado o desastre e, míope de alma e discernimento, bata no peito, exclama que desgraça, que desgraça, se esquece da mais comezinha análise para perceber o que causou o desastre e encontrar forma de, senão evitá-lo, pelo menos minorá-lo e evitar as sua repercussões e crescimento.

É fácil fazer prognósticos depois dos acontecimentos, encontrar justificações para o ocorrido, procurar culpados entre as vítimas e deixar ficar no retoiço, à beira da praia, aqueles mais responsabilizáveis pelas desgraças alheias. Não estou a ser sardónico! É, normalmente assim que as coisas se resolvem.

No caso vertente, sem ir demasiado longe na procura de explicações, o que, no limite, nos poderia enviar quase até à pré-história, há causas exógenas e endógenas. Nas primeiras estão a pandemia e as guerras com o seu cortejo de malfeitorias na vida quer dos que as sofrem, quer daqueles distantes que suportam os efeitos colaterais em carências e custo de bens primários, quer em inflação e sobressaltos sociais a socavarem o prestígio de governos, instituições, até chegarem a contaminar os processos democráticos, postos em dúvida pela demora ou ineficácia das decisões cruciais. Terreno fértil para demagogos que apenas prometem, não pensam cumprir e só lhes interessa o discurso fácil, o engano das gentes, a obtenção de mais poder para, no final, estrangular aquela democracia que, benemérita e descuidada, os deixou crescer até estarem prontos para a sufocar.

Assim estamos, senhores, no mundo e em Portugal! Estão admirados? Pois não deveriam estar. Os sinais multiplicavam-se! Preocupados com o parecer bem ao estrangeiro, encontrámos suprema importância naquilo em que pensámos nos iria engrandecer perante os seus olhos, esquecendo o rio subterrâneo a corroer as fundações do regime. Pensavam então que a falta de professores e médicos, as pediatrias e urgência fechadas, o disparo do preço da habitação e etc., seriam epifenómenos sem consequências? Pois aí têm a resposta. Nem me vou prolongar em profundas análises, nem fazer acusações sempre contestáveis. Limito-me apenas a reforçar aquilo que continuamente defendi. As maiorias absolutas são perniciosas, tiram a objetividade aos governantes, fazem-nos pensar que estão a dar respostas corretas às necessidades prementes das pessoas. Como o contraditório é fraco apenas veem o que querem - ou lhes deixam ver - os desastres acontecem.

Como disse é fácil fazer críticas após os acontecimentos. Salva-me na circunstância o quanto, sobre estas ideias, venho escrevendo, que não é de um fortuito hoje, mas de há muito tempo.

Porque já vai longo este artigo, apesar de sentir que muito de importante ficou por dizer, mais uma ver reforço a minha incomodidade, mesmo tristeza, pelo acontecido.

De facto, o cinquentenário do 25 de Abril, não merecia isto!

11.03.2024 - 18:45

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