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Às Mães
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Às Mães<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro Abril, mês das Comemorações. Do retorno de Portugal à Democracia, à Europa, ao Mundo. Fim da Guerra Colonial, com novos dramas a juntar-se aos já antigos; com a e recordação antiga dos massacres do Norte de Angola a juntar-se à do cortejo dos chamados (sabe-se lá porquê) retornados, e todo o historial entre estas duas marcas indeléveis nas nossas memórias.

Maio, mês das mães. Daquelas a que são o expoente máximo do que é a guerra, as que deram os filhos, maridos, noivos, para o altar da Pátria, como soe dizer-se.

Svetlana Alexievich, Prémio Nobel da Literatura (2015), descreveu no seu livro, Rapazes de zinco, a dor das mães soviéticas ao receber os restos dos filhos em caixões de zinco, mortos no Afeganistão, que não podiam se abertos, deixando as babushkas sem possibilidades de fazer o luto pelos filhos ou netos.

Também tivemos os nossos caixões, transladados de África, por conta do Estado a partir de 1968, pagos pelas Famílias antes disso, e distribuídos pelas terras de origem, da forma mais digna que se entendeu proceder.
Caixões de madeira, sacos de plástico verde (os americanos do Vietname), ou caixões de zinco, o drama é o mesmo.
O que fez inspirar as seguintes linhas:

Deixem-me acreditar (poema de uma mãe)

Deixem-me acreditar, é o que peço,
Podem bem ver que é coisa pouca,
Decerto menos do que mereço,
Pequeno devaneio de velha louca.

Deixem-me acreditar, só por um dia,
Que dentro daquele caixão selado
Estão os restos que alguém me envia
Como sendo o que resta de um soldado.

Deixem-me acreditar, por uma hora,
Que aquela caixa negra bem fechada
Que me foi presente mesmo agora
Continha aquele tudo, que ora é nada.

Deixem-me acreditar, por um minuto
Que encerrado naquele caixão mistério
Está alguém por quem agora faço luto
No reservado talhão do cemitério.

Deixem-me acreditar, por um segundo,
Que lama e pedras, e mais as tábuas,
Estiveram com ele, lá bem no fundo,
E assim poder verter as minhas mágoas.

Deixem-me acreditar, por um instante,
Ainda que me chamem velha louca,
Que o meu lamento lancinante,
Não tenha por motivo uma caixa oca.

Tudo o que peço é quase nada:
É saber ao certo se o meu menino
Juntou seu corpo com a terra transladada
Para seguir eu, com ele, igual destino.

Nuno Santa Clara


28.05.2024 - 11:40

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