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Em terra de cegos...
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Em terra de cegos...<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro ...qualquer zarolho é rei. Assim o diz o velho ditado, e, se o vinho velho é bom, o ditado também o é. Tem aquele acumular de sabedoria, de estios e de invernos, de experiência feita, que antes era apreciada e agora parece ser apenas atributo da “praga grisalha”.

Nem o facto de Camões ser zarolho abranda este preconceito contra a imperfeição. Esquecendo mesmo que Homero era cego, ao que se diz.

O saudoso Raul Solnado tinha outra abordagem. Numa das suas famosas rábulas, havia uma tia que espreitava pelas fechaduras, a quem chamavam a Mata Hari; mais tarde, em consequência de algum excesso de zelo, ficou conhecida pela Zarolha.
Igualmente famoso foi Peeping Tom (Tom, o espreitador) que quebrou o juramento de não olhar para Lady Godiva enquanto esta cavalgava nua por Coventry, como condição para aliviar os impostos sobre a cidade. Cegou como castigo, segundo a tradição.

Espreitar pela fechadura tomou outros contornos. Agora, usa-se a cibernética para espiolhar a vida de cada um, de modo artesanal num PC caseiro, profissionalmente com fazem os hackers, tal como Rui Pinto, ou globalmente, como faz a National Security Agency dos EUA, após o ataque às Torres Gémeas (com o beneplácito dos guardiães da Democracia).

A teia da vigilância vai apertando e torna-se cada vez mais sofisticada. Por um lado é bom: esclarecem-se crimes, encontram-se pessoas desaparecidas, evitam-se acidentes, melhoram-se os serviços; por outro lado, a privacidade de cada um fica comprometida, quer quanto a casos extraconjugais ou preferências no relacionamento, quer quanto a reuniões que se supunha não terem existido.

Basta atentar em certa comunicação social para constatar a resiliência da curiosidade obsessiva, que alimenta boa parte dos jornais e do tempo de antena. Estar bem informado é uma boa desculpa para quem sofre de bilhardice aguda.
Assim, a fugas de informação devem ser encaradas tanto como uma manobra de provocar os julgamentos na praça pública, como mais uma manifestação da coscuvilhice atávica.

O problema está em que a tendência é geral, sem distinção de idade, sexo, profissão ou posição social.
Nem as mais austeras e respeitadas instituições escapam a esta tentação.

Num Mundo cada vez mais positivista, já ninguém teme a Justiça Divina que cegou Peeping Tom, nem mesmo teme uma acção terrena, como a que vazou um olho à tia do Solnado.
Apesar de tudo, ainda bem que assim é.
Imaginemos o castigo abatendo-se sobre os voyeuristas políticos e sociais que por aí abundam, e até se concentram em certas áreas.
Senão com a cegueira, pelo menos ficando zarolhos. Isso poderia levar até a alterar a toponímia, tal como se fazia baptizando as artérias da cidade pelos seus moradores: rua dos Sapateiros, rua dos Tanoeiros, rua dos Ferreiros, etc.
Se não oficialmente, pelo menos pelo comum das gentes.

E assim, do mesmo modo que toda a gente chama “Rotunda” à praça do Marquês de Pombal, algum largo importante poderia passar a ser o Largo dos Zarolhos...
Sem direito a serem reis.

Nuno Santa Clara

28.06.2024 - 08:23

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