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O fim da inocência
Por Nuno Santa Clara
Barreiro

O fim da inocência<br />
Por Nuno Santa Clara<br />
Barreiro Há recordações que ficam e conceitos que se interiorizam desde a mais tenra infância. Muitas vezes nos surpreendemos a relembrar coisas da do tempo da instrução primária, quando já esquecemos cartapácios de sabedoria, acumulados nos estudos secundários e superiores, e até em pós-graduações, para descrédito de ilustres professores, desvalorização de exames e concursos, e subvalorização de currículos.

Diz-se que, em termos de memória, morre mais depressa o novo do que o velho, e de facto assim é. Esquecemos o que comemos ontem, mas lembramos o lanche dos seis anos da prima Joaquina.

É a Lei da Vida!
Disse um dia Frederico Fellini, o genial realizador italiano, que levamos vinte anos a meter coisas na cabeça, e o resto da vida a tentar tirá-las de lá. Sublinhado meu.

Fui atacado por um desses devaneios, inspirados em longínquas recordações, quando um casal de rolas turcas começou a fazer o ninho num alegrete da minha janela. Estas rolas são relativamente recentes nas nossas hortas e jardins, mas proliferaram como os coelhos na Austrália – ou seja, tornaram-se praga.

Todavia, o meu coração condoeu-se. Veio-me à mente aquele poema de Pedro Dinis ”Vozes dos animais”, que vinha no Livro de Leitura da 3.ª ou 4.ª classe do meu tempo:
“Palram pega e papagaio/E cacareja a galinha/Os ternos pombos arrulham/Geme a rola inocentinha”.
Pois a rola inocentinha comoveu-me.
E vá de proteger e amparar aquele casal de rolas, imagem da inocência, acompanhando o chocar dos ovos, o eclodir das crias, o seu crescimento.
Porém, do conceito edílico do poeta à dura realidade vai uma grande diferença.

E eis senão quando a cria mais velha começou a bicar a mais nova, sem qualquer espécie de consideração pela irmã, num mar de sangue, e sem qualquer intervenção dos pais, que acharam aquilo natural.
A pequena rola acabou por morrer, e coube-me dar destino ao cadáver.
Foi-explicado que a Natureza é assim: na impossibilidade de alimentar duas crias, a mais forte elimina a mais fraca. Darwinismo, decerto, mas entre irmãos?

Para mim, foi como que o fim da inocência. Pois se a terna rola, cujo gemido comove os poetas, e não só, assassina impiedosamente a mais frágil, será isto uma lição para os Homens?
Nunca mais deixei que as rolas utilizassem o meu alegrete para nidificar. Decerto não alterei o seu comportamento, mas pelo menos, não serei testemunha.
No fim do mesmo poema, diz: ”A fala foi dada ao homem/Rei dos outros animais” – novo sublinhado meu.

E foi a fala que o distinguiu o Homem dos outros animais.
Aprendeu a trocar ideias, fixar acontecimentos, partilhar experiência, acumular conhecimento.
E libertar-se do instinto, que lhe ditava a eliminação do adversário, para encetar o entendimento, a partilha e a solidariedade.
Esta quase parábola toma especial relevância nos tempos correntes.
Em que não faltam “inocentinhos” a chacinar os mais fracos, invocando a ordem natural das coisas.

Nuno Santa Clara


21.07.2025 - 08:53

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