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E se um dia o Papa Leão XIV visitasse o Barreiro?
Por Gonçalo Graça
Barreiro

E se um dia o Papa Leão XIV visitasse o Barreiro?<br>
Por Gonçalo Graça <br>
Barreiro . O nosso convento, o da Verderena, o ex-libris do município, não tem qualquer concorrência nos municípios vizinhos

O Convento da Madre de Deus da Verderena encerrou portas para dar lugar a um restaurante e uma enoteca. Após as respetivas obras de beneficiação, o convento seria o local ideal para receber o Papa Leão XIV quando visite Portugal nos próximos tempos.

O Convento Franciscano Arrábido da Madre de Deus da Verderena fechou para obras. E para quem andou bastante distraído como eu, ou a perder tempo a partilhar mensagens de ódio nas redes sociais, basicamente o seu encerramento deveu-se a dois contratos por aluguer, ambos concertados em hasta pública por um período de quinze anos, e com duas rendas distintas. 300€ para o antigo refeitório e cozinha com acessos aos claustros, e a transformar num promissor restaurante; enquanto o resto do imóvel passará a ser o futuro Centro Interpretativo do Vinho pela simpática quantia de 800€. Segundo a calculadora, tudo somado dá 1100€. Poderia ter sido de outra maneira, é certo, mas desta forma prevê-se que Barreiro atraia novos investimentos a curto prazo, tal como todos nós necessitamos de água para matar a sede neste Verão repleto de avisos amarelos devido ao calor, incêndios e um aumento de 25% no preço da habitação em relação ao ano passado.

Os comentadores de redes sociais dizem que há que fomentar a economia a todo o custo, e há que inventar empregos onde menos se espera. E de preferência sem qualquer calma ou ponderação porque não há tempo a perder. Mas o caso do Convento da Verderena é diferente, e se houver o risco de potenciais perdas materiais no património histórico municipal, não há que ficar alarmado. De todo, porque a população já foi informada. Parece que os Pedidos de Autorização para Trabalhos Arqueológicos foram apalavrados, e vários arquitetos observaram in situ os níveis de capilaridades que rebentam os pulmões a quem visita esse monumento entre novembro e janeiro. Até aqui tudo bem. Até a tal escultura do santo sem cabeça que se encontra em processo de degradação entrou na equação prévia ao caderno de encargos. E para não se cair no mesmo erro das outras intervenções anteriores, pondera-se também a utilização de tintas à base de cal para manter as características de pigmentação, assim como evitar a condensação de humidades em todas as paredes. Sai um bocado mais caro, é verdade, mas também tem mais durabilidade (dizem que sim, pois eu percebo pouco do assunto...). E mesmo que apareça algum esqueleto durante as obras de beneficiação, também isso está na mente de todos. Em jeito de brincadeira, quem é que mandou os antigos enterrarem os seus entes queridos dentro dos claustros dos conventos quando havia tanto campo à volta? Mas tudo se resolve. Quanto aos apetrechos e obras a realizar no restaurante, essas terão de cumprir escrupulosamente os requisitos impostos pela Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, mas aí já é outra conversa.

Mas vamos ao que realmente importa, e o que importa é o turismo religioso. Recordemos que a imprensa generalista e a comunidade católica aguardam a vinda do Papa Leão XIV a Portugal nos próximos tempos. E porque não lhe fazer um convite para visitar o Barreiro? Não só daria uma excelente imagem do município lá fora, como ainda aumentaria a empregabilidade nesse sector económico. Temos visto isso com o presidente Marcelo na tradicional ginjinha de Natal, ou de uma maneira mais microscópica com as Jornadas Mundiais da Juventude em 2023. De imediato as redes sociais inundaram-se de hashtags e o algoritmo cresceu exponencialmente sem grande dificuldade.

A escolha do Barreiro entende-se bem, é o Barreiro! Mas porquê precisamente o Convento da Verderena? Até agora esse monumento de interesse municipal teve pouca atenção e merece mais. Muito mais! É que a partir de agora passará a haver uma agenda diversa: visitas guiadas com explicação; sessões de apresentação de livros; concertos na capela grande; escape rooms noturnos aos magotes; ateliers de manualidades; feiras do livro; teatros; e sei lá que mais. Com jeitinho até se organizará um encontro de investigadores das temáticas franciscanas arrábidas, e de preferência que provenham de várias partes do país. Porque até ontem foi tudo bastante amador, com grupos de voluntários a abdicarem do seu descanso semanal para trabalharem no duro, e há que reduzir essas "gorduras do estado". E se antes os velhotes da Paiva liam lá o jornal todos os dias, e socializavam uns com outros por recomendação médica, agora terão a oportunidade de fomentar a economia local comprando o dito jornal numa papelaria do bairro e lê-lo numa esplanada. Ou seja, mesmo com as suas parcas reformas, eles ajudarão tanto a dona da papelaria como o dono do café. Sabe-se que a opção pela transferência da ‘res publica’ para os particulares nem sempre é bem compreendida pela generalidade dos contribuintes, mas, segundo o imaginário neoliberal, os gestores particulares são sempre os melhores.

É certo que o Convento da Verderena era muito mais que um espaço cultural e museológico, mas conventos pelo país há muitos. Também é certo que há poucos na Península de Setúbal. Um em Almada, uns quantos em Setúbal, e depois há este no Barreiro. Mas se o resto dos concelhos da Margem Sul não tem qualquer espaço similar, qual será mesmo o problema? Azar o deles!

O nosso convento, o da Verderena, o ex-libris do município, não tem qualquer concorrência nos municípios vizinhos, e só por isso seria o palco ideal para receber o Máximo Pontífice com toda a pompa e circunstância! Imagine-se apenas uma eucaristia na capela grande, com a excecional bênção ´urbi et orbi´ no final. Uma banda filarmónica militar responsável pelos cânticos, e os três órgãos presidencial, legislativo e autárquico presentes em toda a cerimónia na fila da frente. Mil estações televisivas a transmitirem em direto a missa para os cinco continentes em várias línguas e com a dificuldade clássica em pronunciar o nome da terra (Barrero em espanhol e italiano; Barerough em inglês). Um êxito! Tenho também a certeza que o Santo Padre nunca provou uma bola de manteiga, e muito menos ouviu falar do vinho outrora produzido no Lavradio, e que lhe seria dado a conhecer num apetitoso amuse-bouche. E para isso, nada menos do que prosseguir para um almoço bem composto, naquele que será um restaurante repleto de glamour, candidato voluntário a uma estrela Michelin, e de seu nome “Nu Convento”. Um mise-en-place integral culminado com uma visita ao centro interpretativo do vinho bastardinho e, desde a entrada à saída, todos os visitantes respirariam inovação, cultura e gastronomia de forma equitativa com o clássico toque camarro. Lá fora os helicópteros a sobrevoar o Barreiro, a multidão a gritar "Viva o Papa! Viva o Papa!", os curiosos, os paparazzi, todos ali horas a fio de pé à espera de ver Leão XIV a sair e a acenar pela rua D. Francisca da Azambuja, em direção ao carro topo de gama com matrícula diplomática e mais aqueles seguranças lacónicos com cara de poucos amigos. Já podemos imaginar esse cenário fantástico. E para descanso posterior, nada melhor do que uma sestazinha no futuro hotel da Quinta das Canas com vista para o rio Coina antes de regressar a Lisboa. Uma oportunidade!

Depois disto, só o céu seria o limite. Quem diria que o Convento da Verderena poderia um dia ser reconhecido a nível internacional?! E certamente até faria concorrência aos principais santuários europeus. É tudo uma questão de fé. E de erário público. Estamos juntos!

Gonçalo Graça

22.07.2025 - 11:55

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